Você está aqui: Página Inicial / Revista / Como juntar os cacos? / Aonde 'True Detective' quer chegar?
Número 856,

Cultura

TV

Aonde 'True Detective' quer chegar?

por Nirlando Beirão publicado 05/07/2015 09h36
A escuridão saturada de uma Califórnia geralmente ensolarada indica o caminho
Lacey Terrell / Divulgação / HBO

O policial Ray Velcoro que emerge – melhor escrever submerge – do submundo sinistro e alcoolizado de True Detective, na segunda temporada inaugurada no domingo 21 (HBO), podia, fácil, estar nas páginas penumbrosas de um Raymond Chandler e até mesmo de um James Ellroy. 

Ajuda bastante, em prol da autenticidade, que o irlandês Colin Farrell consiga conferir ao protagonista moralmente ambíguo e existencialmente atormentado o sotaque amanteigado da Califórnia. O chiclete que ele masca é o jeito de disfarçar o bafo de uísque barato.

Curioso como a crime story norte-americana, antiga ou atual, no papel ou no vídeo, insiste em encobrir a solar Los Angeles e redondezas com a fantasmagoria dark da contravenção, da promiscuidade e da corrupção. Esta LA flerta o tempo todo com o pecado. Os que escapam do carma criminoso ficam recitando mantras tatibitates em ashrams iogues

Os candidatos a heróis criados por Nic Pizzolatto são figuras disfuncionais que uma tragédia une no mesmo destino. Há o desvairado Paul (Taylor Kitsch), que transfere suas obsessões eróticas para o ofício vertiginoso de patrulheiro rodoviário. E, fechando o trio, a detetive Ani Bezzerides (Rachel McAdams), Ani, de Antigone, o que antecipa uma alma atormentada pela injustiça. Ani é desmazelada, mas bonitinha. Tem certa semelhança com a Paola Oliveira. Quem sabe não decida presentear os marmanjões com o que há por baixo daquela soturna farda negra. 

*Publicado originalmente na edição 856 de CartaCapital, com o título "La, dark e podre"