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Número 855,

Cultura

Biografia

Eu me chamo Lily Safra

por Guilherme Lacombe — publicado 05/07/2015 09h41
Os mistérios da bilionária gaúcha, reclusa e bisbilhotada, afloram numa biografia que o Brasil (ainda) não pode ler
Slim Aarons/Hulton Archive/Getty Images
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Conheça a personalidade magnética da bilionária Lily

Lily Safra é uma mulher excepcionalmente rica, mas surpreendentemente generosa, muito bisbilhotada ainda que bastante reservada – e, no fundo, ou por isso mesmo, pouco conhecida. Mais ainda no Brasil, sua terra natal.

Os enigmas que enevoam essa personalidade magnética acabam desmerecendo o fascínio multifacetado de sua vida. É pelo seu estado civil – três vezes viúva – que o mundo acaba qualificando-a, sublinhando com malícia que as heranças recebidas de dois de seus infaustos maridos foram golpes de sorte ou de oportunidade, e não uma sequência de desgraças doídas. Mais do que pelo glamour de uma jetsetter bilionária, a vida de Lily Safra, 77 anos,  é marcada por tragédias e controvérsias.

De quem é a maior doação jamais feita em prol da pesquisa científica no Brasil, aquela que financia o trabalho revolucionário de neurocientista Miguel Nicolelis em Natal? Causas como a pesquisa do mal de Parkinson e da Aids são agraciadas com polpudas doações dessa gaúcha nascida de família de classe média e que hoje, com CEP em Londres, frequenta as festas da família real britânica. Lily é mais um caso de bilionário da nova era, da estirpe de um Warren Buffet e um Bill Gates, excepcionalmente preocupada em contribuir mais do que propriamente ostentar.

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Ao lado do ex-presidente Nicolas Sarkozy, na abertura do centro de pesquisa de Alzheimer (Nice, 2014) / Crédito: Valery Hache/AFP

O dinheiro, claro, também lhe faculta certos caprichos benemerentes. Assim como ela é capaz de bancar o programa de tratamento de esgoto de uma cidade do interior da Bahia, promoveu a recente devolução ao Palácio de Versalhes de uma cômoda que pertenceu a Luís XV surrupiada dali, durante a Revolução Francesa, tomando o tortuoso caminho dos antiquários e de posteriores proprietários bourgeois.

Em 2011, apenas dois brasileiros foram convidados para o “casamento do século”, de William e Kate, na Abadia de Westminster: o embaixador do Brasil e Lily Safra – ela, que já doou fábulas para a ONG Prince’s Trust, criada por seu bom amigo príncipe Charles. Quando o roqueiro e patrono do combate à Aids, sir Elton John, escolheu a dedo os convidados para a mãe de todas as suas festas, para celebrar os 45 anos de seu marido, David Furnish, em 2009, lá estava mrs. Safra entre roqueiros, artistas pop e integrantes da realeza GLS do planeta. E ela apoia a causa, com muito dinheiro.

É dela uma das mansões mais valiosas da Côte d’Azur, a Villa Leopolda, cotada em não menos de meio bilhão de euros. Por azar do destino – do outro –, ela embolsou uma fábula com a propriedade sem sequer vendê-la. Um bilionário russo apresentou-se para comprar, pagou o sinal de 55 milhões de euros, mas, com a crise de 2008, o candidato à compra quebrou e não pôde pagar o resto. Por força do contrato, perdeu o sinal em favor da dona. Lily Safra não quis se beneficiar do, aí sim, golpe de sorte: doou o dinheiro para obras de caridade e ficou com a casa, onde viveu felizes momentos com Edmond Safra, seu quarto marido, antes da morte dele, em circunstâncias terríveis, em dezembro de 1999 – episódio que levaria Lily à superexposição indesejada nos pasquins de ti-ti-ti.

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Villa Leopolda - O comprador não honrou, de graça Lily embolsou 55 milhões de euros / Crédito: Ron Galella

Com tamanhos atrativos, acabou por merecer uma biografia que se pretende não autorizada, Gilded Lily (A Dourada Lily), escrita pela jornalista canadense Isabel Vincent e publicada pela Harper Collins. E em nome de Lily Safra, o advogado norte-americano Brendan Sullivan teria procurado os responsáveis pela edição e, embora tenha discutido a obra, não se insurgiu contra a publicação. A comercialização no Brasil foi proibida por força de liminar obtida não pela biografada, mas por seu sobrinho Leonardo Watkins, que alega haver na obra graves ofensas à honra de seu pai Artigas Watkins, irmão de Lily, já falecido.

A autora ataca a versão oficial de que Frederico Monteverde, segundo marido de Lily, teria se suicidado, levantando suspeita sobre a conduta de Artigas. Intrometendo-se involuntariamente na atual polêmica das biografias não autorizadas no País, Isabel Vincent disse ao site Yahoo! que a proibição da venda do seu livro “envergonha o Brasil aqui fora e fortalece a ideia de que o País é uma República das Bananas”.

Censura à parte, o livro de Isabel Vincent adota um tom de tabloide, trata a biografada de social climber ambiciosa e levanta tantas suspeitas sobre as mortes de Frederico Monteverde e Edmond Safra quantas caibam no papel. O subtítulo The Making of One of the World’s Wealthies Widows (A Criação de Uma das Viúvas Mais Ricas do Mundo) mostra a que veio. Como se faz uma viúva rica? Haveria um eventual envolvimento da herdeira nas tragédias? Se no nem sempre virtuoso imaginário popular herdar uma fortuna provoca recalques nada sutis, herdar duas fortunas após a morte não natural de dois bilionários é causa para as mais eloquentes e menos benevolentes fantasias. É essa trilha que a biógrafa claramente trafega. A própria Lily Safra não foi entrevistada.

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Jantar para Nelson Mandela, com Elton John (Londres, 2008) / Crédito: Dave M. Benett/Getty Images

Biografias não autorizadas não significam boas biografias. De todo modo, o livro de ms. Vincent detalha momentos cruciais de uma vida trepidante. Lily Watkins, nome de solteira, teve uma juventude típica das meninas do Rio de Janeiro dos anos dourados, quando as jovens de boas famílias eram educadas para o casamento e para os filhos. A origem judaica não a diferenciava nos hábitos, apenas no circuito social. Frequentar festas e lugares badalados como o Hotel Copacabana Palace era obrigatório, além da Congregação Israelita Brasileira, onde bons partidos de ambos os sexos eram apresentados.

Lily casou-se aos 17 anos com o milionário argentino Mario Cohen, 9 anos mais velho, e, antes de completar um ano de casamento, cumpriu a máxima tradição de boa esposa dando à luz seu primogênito, Claudio – e, pouco depois, a mais dois filhos, Adriana e Eduardo. Moraram no Brasil, na Argentina e no Uruguai. Vivia em ótimo padrão, mas padecia com o ascetismo e a desatenção do marido empresário. Honrou, por uma década, um casamento que fazia água por todos os lados, até que, com 29 anos, linda e elegante, conheceu Frederico Monteverde, que encarnava a dupla condição de playboy internacional e empresário de sucesso. A química entre ambos foi instantânea.

Nascido na Romênia como Alfred Ianco Grunberg, Monteverde (tradução literal do sobrenome alemão) se estabeleceu no Brasil importando pneus. Quando passou a importar refrigeradores da marca Coldspot (nome que traduziu para Ponto Frio, ao batizar as lojas nas quais os venderia a crédito para as classes populares),  inaugurou o império que sobrevive, com outros donos, até hoje. Divorciado duas vezes, Fred tinha dois filhos adotivos, Carlos e Alexandra.

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Com o barão Eric de Rothschild (Paris, 2005) / Crédito: Anwar Hussein/Wireimage/Getty Images
Em fevereiro de 1965, depois de Lily ter se separado de Mario Cohen, os dois casaram-se em Nova York. O presente de casamento teria sido um enorme diamante da joalheria Chaumet. O casal estabeleceu-se no Rio de Janeiro, onde reuniu os filhos num casarão da Rua Icatu, em Botafogo, que se tornou ponto obrigatório do high society carioca. Lily já se esmerava em seu mitológico talento de anfitriã.

Contudo, o sucesso de Monteverde escondia um sério desequilíbrio bipolar, ele alternava momentos de euforia com depressões abissais. Às vezes, não conseguia sair do próprio quarto. Consta do livro de Isabel Vincent que, extremamente abalada, Lily chegou a se internar para tratar seu próprio estresse, e o marido, solidário, pendurou um Van Gogh (legítimo) no quarto do hospital para agradar à amada.  

Em agosto de 1969, Fred se matou com dois tiros no peito. Amigos próximos que testemunhavam as frequentes crises de depressão do empresário temiam esse desfecho (o pai de Fred padecera dos distúrbios psíquicos e também se matara). A perícia criminalística confirmou o suicídio. Mas os dois tiros e as falhas no inquérito alimentaram suspeitas de homicídio. Fortuna, testamento e viúva são palavras que adquirem alta octanagem quando reunidas nessas circunstâncias.

Por meio de documento firmado legalmente na presença de conhecidos, Monteverde deixara sua fortuna para a esposa e para os dois filhos adotivos, confiando a Lily também a guarda legal de ambos. Excluídas da herança, a mãe e a irmã de Monteverde inicialmente acataram, desgostosas, a decisão do filho e irmão. Mais tarde, iniciaram um longo e infrutífero litígio para tentar anular o testamento e reaver a fortuna por meio de caríssimos processos movidos no Brasil e na Inglaterra, para onde Lily Safra se mudara.

Às voltas com um enorme patrimônio para cuja gestão não tinha a menor experiência, Lily valeu-se da amizade e do socorro de um conhecido dela e do falecido, ele mesmo um dos mais disputados solteiros da comunidade judaica mundial, Edmond Safra. A expertise de Safra na gestão de fortunas ajudou a amiga a seguir os caminhos seguros da boa rentabilidade patrimonial com baixa tributação, por meio de um emaranhado de corporações sediadas em diversos paraísos fiscais e administradas a partir do quartel-general de Safra em Genebra. 

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Com Camila Parker Bowles no gala de Elton John pró combate à Aids (Londres, 2002) / Crédito: Vanina Lucchesi/AFP

Atordoada pela súbita viuvez, fustigada por muitos e perseguida pela família Monteverde, Lily viveu tempos duros e reclusos. Buscou reestruturar a própria família com garra de mãe judia. Matriculou os filhos nas melhores e mais tradicionais escolas britânicas, salvo Eduardo Cohen, que preferiu viver com o pai em Buenos Aires.

Em face da sólida relação do banqueiro com a cliente, os advogados da família Monteverde incluíram Safra como réu nos processos que tramitaram nas cortes britânicas. Disputas e finanças à parte, Lily e Edmond já namoravam às escondidas. Aparentemente, a família Safra não via com bons olhos a união. Lily vinha de dois casamentos e não era judia sefardita – tradições sanguíneas pesavam. Edmond quase perdeu a moça. Desgostosa com a situação, Lily deu de cara com Samuel Bendahan, empresário marroquino radicado em Londres. Bastou um breve encontro no espaço mundano do consultório de um dentista para que ela se apaixonasse. Casaram-se no México e viveram um bem curto, mas intenso, casamento, que acabou em divórcio, não sem antes o casal sofrer ataques das más línguas eternamente afiadas, que não suportaram um homem lindo e sem fortuna ao lado de uma milionária. Gigolô era o termo mais ameno que tributaram a ele.

Em apuros, ela acabou socorrida por ninguém menos que seu banqueiro e ex-relutante namorado. À ação formal de divórcio em Nevada se seguiu um longo e desgastante recurso por parte de Bendahan nas cortes de Nova York, etapa encerrada cerca de dois anos depois com um curioso, mas definitivo, “não temos nada com isso” por parte dos magistrados americanos.

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Edmond Safra, com Parkinson, refugiou-se em seu bunker, perseguido pelo fantasma da máfia russa / Crédito: Lionel Cironneau/AP
Em 1976, Edmond e Lily casaram em Genebra, em cerimônia discreta, porém celebrada pelo rabino-chefe sefardita de Israel. Edmond enfrentou com altivez de primogênito as restrições da família Safra e se entregou a um casamento feliz. Filhos, ela já os tinha, e por eles Edmond demonstrou afeto e cuidado. Chegou a preparar pessoalmente o adolescente Carlos Monteverde para seu Bar-mitzva. Com suficiente dinheiro para desfrutar sem culpas as residências de Londres e Nova York, o casal Safra tornou-se presença certa no seleto circuito do jet set internacional. Colecionava obras de arte e o marido cobria de joias a amada. Suas festas eram disputadas pelos poderosos do planeta.

Mundanidade à parte, Lily e Edmond tratavam de irrigar uma vasta rede de obras filantrópicas mundo afora. O casal ajudava centenas de jovens judeus sefarditas de Israel, além de universidades, hospitais e instituições as mais diversas. Em 1992, o presidente da Turquia, Turgut Ozal, homenageou Edmond com um baile de gala no Hotel Plaza, em Nova York, por seu trabalho em prol das relações entre judeus e muçulmanos na Turquia. Dentre os presentes havia gente do calibre do Prêmio Nobel da Paz Elie Wiesel, o qual aproveitou a ocasião para entregar a Edmond um prêmio pelo trabalho humanitário em prol da comunidade judaica internacional. A vida sorria para Lily Cohen Monteverde Safra, mas a roda do destino não a pouparia de mais uma tragédia terrível.

Claudio Cohen, o primogênito, consolara desde pequeno os momentos difíceis da mãe. Era também muito dedicado aos irmãos – os de sangue e os por afinidade. Promissor, caíra nas graças de Safra, que o alçara a uma posição de responsabilidade no Ponto Frio, onde teve, porém, conta a biógrafa de Lily, de enfrentar os baixos rancores de um superior patológico. Claudio casou-se em 1983 com Evelyn Sigelmann – festa de casamento que fez história no Rio, mas foi marcada pela trágica morte da irmã da noiva naquela mesma noite. Terrível presságio. O casal deu a Lily seu primeiro neto, Raphael, e depois mais um, Gabriel.

Uma brutal colisão de veículos, quando iam do Rio para Angra, colheu a vida de Claudio e de seu primogênito, Raphael, em fevereiro de 1989. A perda do filho e do neto foi avassaladora para Lily. Os Safra acusaram o golpe e se isolaram em seu profundo luto.

Com escritórios em Nova York e Genebra, Edmond Safra orgulhava-se de ser um banqueiro à moda antiga, daqueles que conhecem pessoalmente seus clientes até pela voz ao telefone, zelam religiosamente pelo sigilo bancário deles e os guia com olhar agudo pelos paraísos fiscais conhecidos. Línguas peçonhentas o acusaram de gerir fundos de origens escusas. Rumores sempre anônimos e tão típicos de um mercado feroz como o financeiro. Em 1983, no que teria sido sua grande transação comercial, Edmond vendeu a maior parte de seu banco suíço para o gigante American Express, contrariando os próprios irmãos e arrepiando a nobreza financeira de Genebra.

Safra fazia negócios acreditando no mesmo fio de bigode que a cartilha de Wall Street recomendava raspar com lâmina tripla. O negócio mostrou-se um desastre e a convivência, incompatível. A separação litigiosa custou-lhe perdas de mais de 100 milhões de dólares e lhe rendeu uma pesadíssima campanha difamatória de escala mundial promovida pelos ex-sócios ressentidos.

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Com Natalie Portman e Benjamin Millepied (Paris, 2013) / Crédito: Vacheron Constantin/AFP

Lily foi a companheira certa nessa briga de cachorros (muito) grandes em que Edmond se meteu. Ao longo da década de 1990, o casal revezou-se entre ações de benemerência e a rotina de festas memoráveis na Leopolda, a mansão em Villefranche-sur-mer, na Riviera francesa, até que os primeiros sintomas do mal de Parkinson surpreenderam Edmond. Pouco depois do diagnóstico, ele doou 50 milhões de dólares para a pesquisa da doença.

Notório por sua fortuna e forçado a lidar com figuras nem sempre castas no mercado financeiro, por anos, Safra fez negócios com uma miríade de instituições russas. Lá, o mercado financeiro é especialmente pantanoso, o crime organizado domina a cena, algumas operações de clientes russos apresentaram indícios de lavagem de dinheiro. Safra sentia-se por demais exposto. Ficou obcecado por sua segurança, contratou homens treinados pelo Mossad e cercou-se da mais cara parafernália eletrônica. A seu redor vivia um pelotão de homens armados, médicos e enfermeiros. Foi quando o casal comprou uma cobertura na avenida que sobe até Montecarlo, decorada com muito luxo e com itens de segurança que a tornavam uma fortaleza aparentemente inexpugnável.

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O Giacometti recordista (104,1 milhões de dólares) mora no flat de Londres / Crédito: LTD. Wireimage/Getty Images
Com a saúde em franca deterioração,  Safra decidiu vender seu banco, desta vez para o HSBC. As longas e complexas tratativas para a venda ocuparam o banqueiro ao longo do ano de 1999. Uma avaliação inicial chegou a pouco mais de 10 bilhões de dólares, nada mal para quem começou com meros 11 milhões de dólares – emprestados, reza a lenda. O próprio banqueiro conduzia a venda a partir de seus aposentos no novo bunker. Como queria muito garantir o negócio, Safra chegou a reduzir o preço da venda em algumas centenas de milhões de dólares.

Tudo se encaminhava para o mais feliz dos finais. A venda só aguardava a necessária aprovação dos órgãos reguladores, quando, na madrugada de 3 de dezembro,  Ted Maher, enfermeiro norte-americano da equipe de Safra, surgiu ferido e sangrando na portaria do prédio, gritando que havia dois homens armados dentro da cobertura, cujas portas blindadas permaneciam fechadas. Ele mesmo alertou Lily, que dormia em outra ala do imóvel e conseguiu escapar por uma janela, tendo chamado pelo celular o israelense responsável pela segurança, o qual, por sua vez, teria chamado a polícia e os bombeiros. Os 11 homens da caríssima equipe de segurança, treinados pelo Mossad, ficavam na Leopolda, a cerca de 20 minutos dali, e nenhum havia sido designado para a cobertura naquela noite.

O que se seguiu é até hoje objeto de controvérsia. A ação descoordenada dos policiais e bombeiros de um dos mais abonados territórios do mundo foi digna de comédia de pastelão. Da calçada, observando passivamente rolos de fumaça saindo pelas janelas da cobertura, os bombeiros eram impedidos de agir pelos policiais, que alegavam haver homens armados lá dentro. Safra e uma de suas enfermeiras se trancaram num banheiro e pediam socorro pelo celular. Recusava-se a sair com medo dos tais bandidos de que o enfermeiro falara. O chefe da segurança de Safra logo chegou à Leopolda e tentou tomar o controle da situação. Trazia as chaves das portas blindadas, mas dentre as dezenas de policiais e bombeiros do principado dos Grimaldi apenas um falava inglês. Sem compreender sequer quem era ele, os policiais monegascos acabaram dando-lhe voz de prisão e o algemaram. Safra e a enfermeira morreram asfixiados. Nenhum bandido foi encontrado.

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Ted Maher, o enfermeiro que queria se fazer de herói, simulou um ataque depois de botar fogo na cobertura de Montecarlo / Crédito: Fabrice Coffrini/AFP

A versão do enfermeiro Ted Maher mostrou-se inconsistente. Acabou confessando que ele mesmo montara uma situação na qual surgiria como herói ao salvar o patrão de uma ameaça que não existia. Tomando o cuidado de se anestesiar antes, ele feriu a si próprio e, gritando com o patrão para se fechar no banheiro, deu início ao incêndio antes de buscar socorro na portaria. Levado a julgamento após longo inquérito, Maher acabou condenado, passou oito anos preso e protagonizou outro episódio mais a envergonhar as autoridades de Mônaco ao fugir da prisão com um companheiro de cela. Seria logo capturado. Hoje, estálivre.

Muitas perguntas que ficaram sem resposta, alimentando a natural atmosfera de folhetim de escândalo. O jornalista norte-americano Dominick Dunne, que durante décadas cobriu crimes fotogênicos e julgamentos de celebridades, dedicou ao nebuloso affair páginas e páginas na glamourosa revista Vanity Fair. Buscou a colaboração de Lily Safra para seus artigos. Como não conseguiu, elegeu Ted Maher como inocente bode expiatório e a viúva como vilã. Surfando alegremente sobre a polêmica, sugeriu que Maher era vítima de uma mulher ambiciosa, que teria usado de toda a sua influência para abafar as verdadeiras razões da tragédia. Após a condenação do enfermeiro, Dunne reviu sua opinião na própria Vanity Fair, sem contemplar, contudo, mrs. Lily com a elegância de um pedido de desculpas.

Edmond Safra foi enterrado no cemitério judeu de Genebra diante de sua família e de inúmeras figuras imponentes. Numa terrível coincidência, enquanto seu corpo descia à sepultura, a Bloomberg noticiava a aprovação da venda de suas operações ao HSBC, seu derradeiro negócio.

Incêndio
O prédio pós-incêndio é tardiamente protegido pelos trapalhões da polícia e dos bombeiros locais / Crédito: Stefan Wermuth/Reuters/Latinstock
Se herdar uma fortuna é visto como sorte, herdar duas fortunas só pode ser abuso, principalmente quando ela atinge as dez casas decimais em moeda forte. Lily Safra virou herdeira de seu quarto marido e se tornou uma das mulheres mais ricas do mundo – o que é para muita gente imperdoável. Já que o veneno alheio é inesgotável, Lily decidiu encarar a vida com uma altivez recatada, em seu pied-à-terre de Londres.

Suas prioridades mudaram. Em 2009, vendeu sua participação no Ponto Frio ao grupo Pão de Açúcar de Abilio Diniz por cerca de 300 milhões de dólares. Em 2010, bateu o recorde mundial ao comprar por 104,1 milhões de dólares a escultura L’Homme Qui Marche I, de Alberto Giacometti, o mais alto preço jamais pago até então por uma escultura. Nos dois anos seguintes, voltaria aos noticiários, desta vez vendendo em leilões na Sotheby’s de Nova York e na Christie’s de Genebra muitas das obras de arte que guarneciam suas paredes, assim como boa parte de suas joias. Obteve 46 milhões de dólares no primeiro leilão, e 38 milhões no segundo. Doou o total amealhado para obras sociais.

Por mais que tente se manter à margem dos holofotes, a dimensão de seu patrimônio e os segredos que a envolvem ainda têm o condão de mesmerizar a mídia em todos os idiomas. Distribui tanto dinheiro para a educação e causas sociais que a Wikipedia a qualifica como “filantropa” – e não como socialite. Lily Safra nunca caiu na armadilha de sair a campo para responder às intrigas, mesmo quando ferinas e perfurantes, como no Guilded Lily de Isabel Vincent. Não dá satisfação de seu dinheiro. Tentar ser feliz não é um pecado. E o destino, no caso dela, digam o que digam as pessoas, nunca lhe foi suave. 

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