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Número 854,

Cultura

Livros

A dor revolucionária

por Rosane Pavam publicado 27/06/2015 08h43
Dois clássicos apontam a singularidade do Romantismo e verificam a extensão da mudança proposta por seus defensores
Edward Hopper
New-York-Office-1962

Liberalismo e tolerância seriam resultados do Romantismo, acreditava Berlin

O inglês Dante Gabriel Rossetti havia pintado as mais belas mulheres quando, subitamente, decidiu encenar em versos a busca do Cálice Sagrado. O empreendimento daquele cujo talento poético era imensamente reconhecido no século XIX pareceu, contudo, incompreensível para muitos à sua volta. Um conhecido arriscou: “Mas, senhor Rossetti, quando encontrar o Graal, o que vai fazer com ele?” O poeta não ligou para a insinuação. Ele sabia que o cálice usado por Jesus na Última Ceia jamais seria descoberto. Seu interesse, ao reviver a aventura, seria exaltar o heroísmo cristão simbolizado por ela. À moda de outros que viram resultar em terror a luta francesa por igualdade, fraternidade e liberdade, Rossetti entendia que o Graal deveria ser buscado metaforicamente, como um ideal em movimento. O mais importante entre todas as coisas seria expressar-se, qual fosse o tema. E jamais terminou seu poema.

Rossetti era um romântico como outro ilustre conterrâneo, o também pintor e poeta William Blake. Estes dois não queriam nem saber dos iluministas que decretaram a morte do espírito. Contra a razão, os românticos professavam a expressão subjetiva. Queriam viver o agora, a imanência das coisas, não sua transcendência. Contra as cidades onde as indústrias da miséria operavam, idealizavam a vida no campo, lá onde as máquinas do capitalismo ainda não haviam chegado, transformando os homens em mercadorias. Julgavam urgente experimentar a vida em liberdade, exaltar o lugar de nascimento, a língua falada pelos seus. Entendiam não haver uma verdade universal, ela pertencia a cada um.

 E em que esses desejos ardentes pela unicidade e pela mudança de um estado de coisas nos sugerem semelhança? O desencanto romântico parece não abandonar o presente. Nestes tempos em que os privilégios sociais se afunilam, a destruição do meio ambiente é contínua, a fome cresce e o extermínio dos desfavorecidos caminha ao ritmo de uma atordoante naturalidade, a tentação de pensar como Rossetti ou Blake parece irresistível. Pior que isso, as armas com que lutar contra esse estado de coisas se assemelham, próximas do isolamento. Quanto mais desiludidos nos tornamos, mais românticos arriscamos ser.

Löwy-e-Berlin
Revolta e Melancolia ressalta a ação anticapitalista dos românticos. E o clássico de Berlin, sobre a tolerância gerada pelo movimento
Dois livros lançados ao mercado editorial brasileiro nas últimas semanas, contudo, alertam para o anacronismo de estender o romantismo ao infinito presente. O primeiro deles, As Raízes do Romantismo (Três Estrelas, 256 págs., R$ 49,90), tem por autor Isaiah Berlin. Nascido na Letônia e emigrado em 1921 da Rússia à Inglaterra após a revolução soviética, o filósofo estudara o Romantismo por toda a vida. Aos 89 anos, em 1997, ensaiava escrever um grande volume sobre esse entendimento, mas morreria antes de iniciar a empreitada. Restavam suas palestras sobre o assunto proferidas em 1965 na National Gallery of Art, de Washington, organizadas por Henry Hardy. Como informa esta preciosa edição, em uma carta ao promotor das conferências, Berlin temia pela dificuldade do que estava por empreender, e até mesmo lamentava ter aceitado o convite. “Me sinto aterrorizado. Sua escolha foi estimulada por uma fé infundada, e a minha, pela frivolidade e pela vaidade.”

Berlin avalia mal o alcance de seu raciocínio e de suas palavras diretas. Ele fala sobre o assunto como quem conversa sobre seres próximos. Torna-os visíveis, resume seus pontos de vista, quase os coloca em uma idêntica sala, prestes a começar o debate. Sua primeira e revolucionária preocupação é ressaltar, no tempo, a singularidade romântica. Nada, portanto, de estendê-la ao que somos. Os românticos tiveram seu tempo e sua razão, ele diz. Foram diferentes até mesmo entre si, a depender dos países de origem, diversos a ponto de ser quase impossível resumir uma linha principal de suas crenças, exceto que descendiam do pietismo, um ramo do luteranismo que enfatizava a vida espiritual, desprezava a pompa e se retirava às profundezas. Era a crença dos socialmente esmagados daquele tempo, dos politicamente miseráveis, sua forma de resistência, como se afirmassem: “Quem não pode obter do mundo o que realmente deseja deve ensinar a si mesmo a não querer”.

Os alemães foram os motivadores. Vinham do esfacelamento de sua grandeza, Martinho Lutero havia muito acontecera, dera-se a Guerra dos Trinta Anos e eles se dividiam em principados sem um centro motivador. Em sua maioria, excetuado Goethe, os grandes pensadores da corrente tinham de se ver com a pobreza, como Kant, Herder, Fichte, Schelling, Schiller ou Hölderlin. Eles se distanciavam dos franceses da cena iluminista, que, exceto Diderot e Rousseau, eram nobres “sem alma”, como Herder descreveu Voltaire, Montesquieu, Condorcet e D’Alembert após vê-los na Paris dos anos 1770. Para Berlin, se não entendermos isto, mal alcançaremos a vivacidade desse pensamento. Depois dos românticos, ele diz, aprendemos a respeitar a experiência autoexpressiva. Entendemos a incompatibilidade dos ideais humanos, enquanto, de forma quase miraculosa, apreciamos a “necessidade de tolerar os outros e preservar um equilíbrio imperfeito nos assuntos humanos”. Eis que, para Berlin, o resultado do Romantismo “é o liberalismo, a tolerância, a decência e a apreciação das imperfeições da vida”. 

Karl-Marx
Ideias românticas influenciaram Marx, entusiasta de um comunismo primitivo
Talvez não se possa aceitar esta conclusão sem restrições. Presente enquanto o movimento se dava, mas distanciado dele a ponto de se encaminhar à dialética, Karl Marx encarnou a luta contra o capital a partir das movimentações de massa de 1848. E sem a capacidade de compreender um romantismo revolucionário, como entender o surgimento de Marx? Eis que outro livro, reeditado com nova introdução depois de 20 anos, dá ao tema uma dimensão que o autor de As Raízes do Romantismo evitara como desastrosa. “Berlin escreveu um ensaio inteligente e sofisticado, embora de uma perspectiva burguesa, liberal, quase conservadora, exatamente oposta à nossa”, dizem a CartaCapital Michael Löwy e Robert Sayre, autores de Revolta e Melancolia (Boitempo, 288 págs., R$ 57).

Seu livro original desenvolve o conceito de um “anticapitalismo romântico”, apontado por György Lukács, o autor de O Romance Histórico (Boitempo), em 1931. O ensaio de Löwy e Sayre, que começou a ser escrito nos anos 1980, entende o romantismo como um “protesto cultural anticapitalista”, em sua maioria distante das posições conservadoras. “O fascismo é mais um movimento reacionário moderno que um pensamento romântico, embora às vezes ele se utilize do imaginário romântico”, dizem. Segundo eles, essa crítica cultural da sociedade burguesa foi representada por uma literatura rica, extemporânea, como a de Oscar Wilde e T. S. Eliot, mas principalmente por romancistas como Honoré de Balzac e Charles Dickens, muito admirados por Marx e Friedrich Engels. E quanto romantismo haveria no que o autor de O Capital construiu?

“Não entendemos Marx e Engels como pensadores românticos”, afirmam os autores de Revolta e Melancolia. “Sua perspectiva é de uma síntese dialética, para além do romantismo e do iluminismo. Mas autores românticos como Balzac, o economista Sismondi ou o historiador Thomas Carlyle foram decisivos para a evolução de seu pensamento. E há, especificamente, um movimento romântico naquilo que pensam, quando, por exemplo, celebram o ‘comunismo primitivo’ da tradicional comunidade camponesa russa.” Negar que o romantismo extravase um tempo e que forneça um oxigênio mental para as gerações seguintes não parece ao final tão descabido assim, especialmente quando os autores ligam ao espírito romântico os quadros de Edward Hopper (1882-1967) nos quais os personagens em paisagem solitária, rendidos à melancolia, resignam-se a vender e a consumir o vazio das coisas.