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Número 853,

Cultura

TV

Em Masterchef, a gastronomia é um detalhe

por Nirlando Beirão publicado 14/06/2015 08h33, última modificação 15/06/2015 16h02
O show nada tem a ver com a arte de cozinhar, mas isso é ótimo, pois a tevê já cansou de tanto falar nisso
Carol Gherardi/Band
Ana-Paula-Padrão

A gastronomia no reality show é detalhe

Fico feliz ao perceber que Paola Carosella e Erick Jacquin são hoje celebridades nacionais, ainda que a fama tenha menos a ver com seus talentos gastronômicos, desfrutados pelos happy few, do que com o surpreendente ibope obtido numa Band sempre tão olvidada pelo telespectador. Do Henrique Fogaça desconheço o engenho de fogão, mas é patente que o reality show da cozinha notabilizou ao menos suas abundantes tatuagens. Até fã-clube oficial o cara (ou as tatuagens do cara) passou/passaram a ter.

Masterchef voltou depressinha, para sua segunda fase, não somente para aplacar a saudade compreensiva que o Brasil poderia ter daquela tarte aux fraises que é Ana Paula Padrão, resgatada da insipidez do telejornalismo, como também para reiterar, agora em fase mais ácida e ainda mais azeda, o único sucesso de estima da Band além do Ricardo Boechat.

Masterchef requenta em banho-maria o sadismo de quem assiste ao gênero reality show, as vítimas negociando alegremente o sonho da notoriedade ao preço da humilhação. Não me digam que alguém está lá pelo prêmio. O sujeitinho (ou a sujeitinha) sabe que será recebido pelos jurados com a mesma cortesia com que os torcedores de La Bombonera recepcionam os rivais do River Plate. Tem hora que até imagino que Jacquin vai sacar do spray de pimenta.

A gastronomia, ali, é detalhe. Melhor assim, num veículo onde há hoje em dia um chef pedante e verborrágico espreitando você a cada clique do controle remoto. 

*Publicado originalmente na edição 853 de CartaCapital, com o título "Cozinhando Sade"