Você está aqui: Página Inicial / Revista / Se não fossem eles / O dever do poder é continuar
Número 852,

Economia

Análise / Delfim Netto

O dever do poder é continuar

por Delfim Netto publicado 07/06/2015 09h04, última modificação 10/06/2015 18h08
Esperar que as maldades corretivas sejam aprovadas pelo patriotismo dos outros pode parecer esperto, mas supõe que eles são idiotas
Divulgação
Volskwagen

Fábrica de automóveis da Volskwagen: a industrialização está ocorrendo antes da hora no Brasil

A profunda deterioração da situação econômica do País ao longo de 2014 não foi um acidente. Nem resultou de formulações pouco iluminadas da política econômica. Pelo contrário, seus formuladores foram politicamente constrangidos pela prioridade da reeleição. Tanto que deixaram prontas as medidas corretivas tomadas pelo governo tão logo assumiu o seu segundo mandato. No fundo, ela é consequência do primeiro axioma da política: o primeiro dever do poder é continuar poder! Quer para continuar seu “sucesso”, quer para corrigir seus “estragos”.

O quadro geral é muito desagradável, principalmente quando se levam em conta: 1. O descuido com o déficit público. Em 2009, na crise do Lehman Brothers, quando o crescimento do PIB foi de -0,2%, o déficit público foi de 3,2%, o que mostra a desproporcionalidade de 2014. 2. Que o desenvolvimento medíocre de 2014 (0,1%), ante 2,8%, em 2011/2013, teve muito mais a ver com as intervenções pontuais que causaram a quebra da credibilidade do governo do que com a conjuntura mundial. 3. Que o desequilíbrio fiscal corroeu a ação da política monetária e aumentou o custo para fazer a expectativa inflacionária convergir com maior rapidez para a meta de 4,5%. 4.

Que a política de usar recursos da dívida pública para financiar investimentos, que não fica de pé sem substanciais e permanentes subsídios, elevou a relação dívida bruta/PIB a 58,9% (praticamente 7 pontos porcentuais desde 2010, 51,7%). Não deixa espaço para corrigir uma eventual deficiência de demanda global. E, seguramente, pressiona o nível da taxa de juro real que aumenta a relação juros da dívida/PIB. Em 2015, o montante de juros pagos para remunerar a dívida será da ordem de 400 bilhões de reais (400 seguidos de nove zeros!), o que distorcerá até a distribuição de renda.

Mas o que explica o baixo crescimento que vivemos é a tragédia que se impôs ao setor industrial brasileiro. Em 1984/1985 ele exportava 1% das exportações mundiais e crescia a 15% ao ano desde 1963. Hoje, mal chega a 0,7%, com um declínio de 1,2% ao ano desde 1985. Este é um indicador acima de qualquer suspeita de que estamos nos desindustrializando antes da hora. O Brasil investiu pouco.

A produtividade do trabalhador, que depende da relação capital/trabalhador e da sua capacidade de operar o capital cada vez mais sofisticado, está praticamente estagnada. A política de valorizar o câmbio para combater a inflação, a redução da desoneração da exportação e a prática de taxas de juro reais inacreditáveis retirou-lhe as condições isonômicas de competir.

Vale a pena insistir, no setor industrial nunca houve “falta” de demanda global. O que houve foi uma perda da demanda da exportação industrial no início da valorização do real. E quando ela se acentuou, houve transferência da demanda interna para a importação. É isso que explica o grande aumento da demanda total de bens industrializados, em resposta aos programas de inserção social, do salário mínimo e do crédito, combinados com uma redução do crescimento da produção industrial interna por falta de sua demanda e pelo colapso da sua exportação.

Foi a valorização do câmbio que modificou a relação consumo de bens de produção nacional/consumo de bens importados, enquanto a soma das duas (a demanda global) crescia por efeitos da política interna (subsídios, crédito, salários), mas foi insuficiente para superar o tremendo malefício do câmbio.

Estamos tentando corrigir esses problemas, mas o furo é mais embaixo. A necessária “ordem” fiscal que precisamos apressar é apenas o primeiro passo. O PT não tem ajudado. É bom lembrar que foi ele que deu aval e beneficiou-se eleitoralmente do “desastre fiscal” apontado acima. Agora, com novo movimento oportunista, tenta beneficiar-se da desinformação dos cidadãos, esperando que as “maldades” corretivas sejam aprovadas pelo “patriotismo” dos outros. Pode parecer esperto, mas tem uma dificuldade. Supõe que os “outros” sejam idiotas... 

registrado em: , ,