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Número 852,

Internacional

Análise / Wálter Maierovitch

O camorrista e o herói

por Wálter Maierovitch publicado 08/06/2015 04h29, última modificação 17/06/2015 16h22
A história do assassino que já foi braço direito do chefão da Camorra e a celebração do 26º aniversário do assassínio de Giovanni Falcone pela máfia siciliana
Divulgação / Polícia Federal)
Pasquale Scotti

Pasquale Scotti durante sua prisão

1. O posato. Foi preso no Recife o camorrista Pasquale Scotti, 56 anos, dado como foragido da Justiça italiana desde o Natal de 1984. Os jornais esqueceram de informar tratar-se de um posato, que em  jargão mafioso significa “expulso”. No presídio de Milão, nos anos 70 do século passado, Raffaele Cutolo tentou mudar a Camorra e se tornar o “chefe de todos os chefes”. Numa organização delinquencial até então horizontalizada e com famiglie (bandos) independentes, Cutolo quis estabelecer regras hierárquicas e um órgão de governo. A essa outra camorra deu o nome de Nuova Camorra Organizzata (NCO) e chamou de “Evangelho” o seu núcleo de cúpula. Quis ele imitar a Cosa Nostra siciliana, que tem na secular “Comissão” o seu vértice de mando.

O braço direito de Cutolo era Pasquale Scotti, com condenações definitivas por mais de 20 homicídios. A velha e horizontalizada Camorra, onde seus bandos se unem ou se separam conforme os interesses econômicos em jogo, resistiu a Cutolo, que, no início dos anos 80, perdeu a guerra intestina para o grupo de resistência apelidado de Onorata Fratellanza ou Nuova Famiglia (NF). Como é comum nas guerras de máfia, os vencidos são expulsos do território.

Em 1984, segundo informe da Interpol, Scotti teria chegado ao Brasil e se fixado no Recife. Não se tem, ainda, informações sobre reatamento de vínculos de Scotti com alguma famiglia de modo a lavar dinheiro sujo e reciclar capitais no Recife. Ou mesmo traficar drogas e explorar a prostituição, crimes perpetrados permanentemente enquanto existiu a NCO (1983). Pelo sabido, Scotti mantinha no Recife uma luxuosa casa noturna. Quando fugiu para o Brasil na condição de posato, o seu ex-capo Cutolo estava custodiado em presídio de segurança máxima na ilha siciliana de Asinara.

Preso Scotti, antes da extradição a Polícia Federal deveria fazer um levantamento das atividades que desenvolveu, em especial a financeira. Outro posato famoso a escolher o Brasil como esconderijo foi o falecido Tommaso Buscetta, integrante do grupo da Cosa Nostra siciliana que perdeu a guerra intestina quando o governo da organização criminosa transferiu-se para a famiglia da cidade de Corleone, comandada por Totò Riina, por ordem de quem o magistrado Giovanni Falcone foi dinamitado e morto em 23 de maio de 1992.

2. Para jamais esquecer. No sábado 23, recordou-se na Itália e em várias cidades do mundo, como Nova York e São Paulo, o 23º aniversário do assassínio de Giovanni Falcone, o primeiro a desnudar a Cosa Nostra siciliana, os seus chefes e vínculos. A Palermo, para participar da cerimônia, foi o siciliano Sergio Mattarella, presidente da República, e irmão de Piersanti, governador da Sicília assassinado pela Cosa Nostra em janeiro de 1980. O presidente do Senado, Piero Grasso, acompanhava Mattarella. Grasso foi procurador nacional antimáfia, e, como juiz, participou do julgamento do maxiprocesso instruído por Giovanni Falcone, a gerar a histórica condenação da cúpula mafiosa.

Enquanto transcorria a celebração em Palermo, o cônsul-geral da Itália em São Paulo, Michele Pala, em evento na sede do Instituto Italiano de Cultura, destacou o pronunciamento do seu presidente. Aos jovens, Mattarella frisou: “Recordar uma tragédia não se limita à memória do sucedido, mas engloba o empenho civil de prosseguir na estrada de lutas e dos ideais de Falcone”.

Enquanto Falcone é recordado, o Conselho da Magistratura italiana, na escolha do procurador da República de Palermo, elegeu o magistrado Lo Voi (apoiado por políticos), até então em função na União Europeia, longe da Sicília. Assim, preteriu-se Guido Lo Forte e Sergio Lari, dois magistrados que, há anos e com permanentes riscos de perda de vida, combatem a Cosa Nostra em primeira linha. A decisão do Conselho foi suspensa, felizmente, pelo TAR (Corte administrativa de Roma). Em termos de surpresa, seria algo semelhante à presidenta Dilma propor a recondução do procurador Janot (em setembro vence o seu mandato) e o Senado reprovar a indicação, por tramas de Renan Calheiros, Fernando Collor de Mello e Cunha, inimigos de Janot.