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Número 852,

Economia

Análise / Thomaz Wood Jr.

Executivos narcisistas

por Thomaz Wood Jr. publicado 08/06/2015 04h29, última modificação 16/06/2015 17h28
Inflar realizações e polir com esmero a própria imagem são comportamentos frequentes entre presidentes de empresa
PBS Newshour/Flickr
David-Brooks

David Brooks em ensaio para o PBS Newshour em 2012

David Brooks é um conhecido colunista do New York Times. Seus textos unem agudas observações sobre cultura e sociedade a herméticos trabalhos científicos, convenientemente traduzidos. Brooks consegue juntar, paradoxalmente, doses civilizadas de conservadorismo e perspectivas contraculturais. Seu mais recente livro, The Road to Character, publicado pela Random House, é uma versão em longa-metragem de suas colunas e compensa a modesta profundidade com um estímulo sincero à reflexão.

A obra é construída a partir de uma perspectiva crítica sobre a nossa sociedade, na qual a competição para ser bem-sucedido, aceito e despertar admiração é absoluta e absorve atenção e recursos. O autor deplora e confronta o narcisismo hegemônico e advoga o cultivo de virtudes como simpatia, humildade, generosidade e autocrítica. Sua mensagem é singela. Em lugar de lutarmos pela construção do curriculum vitae perfeito, deveríamos dar mais atenção à vida interior e ao desenvolvimento moral. O argumento é ilustrado pela descrição da vida e obra de figuras históricas, as quais, segundo o autor, deveriam nos inspirar. The Road to Character não é uma obra explicitamente religiosa, mas o autor escreve como um hábil e esclarecido pastor.

Tivesse Brooks seguido outro caminho e buscado ilustrar seu ponto de vista com figuras que refletem e sustentam a sociedade narcisista, não lhe faltariam exemplos. Em um texto publicado recentemente pela revista acadêmica Business and Management Review, José Samuel de Miranda Melo Júnior e Carlos César Ronchi, dois pesquisadores do Maranhão, realizam esta tarefa. Os autores tomaram como lente teórica a literatura que estuda o narcisismo nas organizações. Eles analisaram dezenas de entrevistas de CEOs de grandes empresas brasileiras, concedidas a revistas e jornais de grande circulação. O resultado é tragicômico.

Melo e Ronchi classificaram trechos significativos das entrevistas em quatro categorias, denominadas: egocentrismo (exibicionismo, imponência, valorização do eu), centralismo grandioso (falta de empatia, indiferença, sentimento de suficiência), liderança ambiciosa (agressividade, propensão a riscos, intolerância à crítica) e perfeição imaginária (ambição por prestígio, idealização das próprias realizações, discurso majestoso).

As pérolas fariam enrubescer o mais blasé dos lacanianos. Um dos CEOs, especialmente intenso em egocentrismo, declarou: “Só tenho marcha para frente”. “Alguém vai ter de fazer uma estátua para mim em algum lugar.” “Eu sou um compositor que faz música. As minhas notas, por acaso, são dinheiro.” Um artista!

Outro CEO, forte em liderança ambiciosa e em perfeição imaginária, lançou ao mundo: “Eu tive de lidar com operários e foi uma das experiências mais ricas da minha vida. Ali pude entender as pessoas e soube o que querem de um líder: justiça”. “Os nossos números são impressionantes, porque o Brasil é muito grande. A empresa é boa para o País, não só para os seus acionistas.” Um verdadeiro filantropo!

Um terceiro CEO, também forte em perfeição imaginária, registrou para a posteridade: “Se uma empresa não aceitar as nossas condições, basta olhar para o lado que há outras, fazendo fila para conseguir um lugar nas nossas prateleiras”. “Vem dando certo há 57 anos, não tem razão para mudar. E não vai mudar.” “Não tem outro grande. O grande sou eu.” Bonaparte, cuida-te!

Os autores da pesquisa constataram, nas entrevistas analisadas, porcentuais altos nas quatro categorias, com forte destaque para a perfeição imaginária. Parecem comportamentos comuns aos executivos buscar obsessivamente a glória, inflar suas realizações e polir com esmero a sua própria imagem.

No livro The Culture of Narcissism, editado pela W. W. Norton, publicado em 1979, o historiador norte-americano Christopher Lasch realizou ampla análise das raízes e manifestações do narcisismo patológico na sociedade, sugerindo que as mudanças estariam relacionadas a um novo perfil de líderes. Ernst Kretschmer, psiquiatra alemão de geração anterior à de Lasch, registrou em uma carta: “Há algo curioso a respeito de psicopatas. Em tempos normais, nós, especialistas, formulamos opiniões sobre eles. Em tempos de agitação política, eles nos governam”.