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Número 851,

Política

Editorial

Meu pai enganou-se

por Mino Carta publicado 25/05/2015 03h00
O Brasil tinha tudo para ser o país do futuro, mas ao longo do tempo reforçou sua ligação com o passado
Estadão Conteúdo
Praça-da-Sé

Praça da Sé em São Paulo, anos 40, a catedral em gótico anacrônico ainda em construção

Ao chegar a São Paulo em agosto de 1946, meu pai tinha certeza de aportar no país do futuro. Com ele vinham a mulher e dois filhos, ou seja, meu irmão Luis e eu, ambos rapidamente remetidos ao Colégio Dante Alighieri. São Paulo era uma cidade composta e pacata, não abrigava favelas ou exibia pobreza nas ruas, os homens, todos sem exceção, assim me pareceu, usavam chapéu no inverno e meias brancas quase sempre.

A cidade tinha 1 milhão e meio de habitantes e 50 mil carros, e as chapas dos senhores apresentavam números baixos, às vezes um apenas, até o 9. O conde Chiquinho Matarazzo tinha direito ao número 1 para o seu carrão preto, não recordo se Cadillac ou Lincoln Continental. Quando chegamos, nos postes da Avenida São João, a mais importante do Centro, estavam pendurados cartazes que apresentavam uma perturbadora Rita Hayworth no papel de Gilda, em tamanho gigante, a convidar a população ao Cine Ipiranga para assistir ao filme homônimo. 

Morávamos no Jardim Paulistano e meu irmão e eu andávamos 10 minutos até o ponto final do bonde. Jogava futebol na rua, quando toda pedra ou lata merecia meu chute, e nas manhãs de domingo no campo do Corintinha da Maria Carolina, de terra e desnível de dois metros entre um gol e outro. Cedo vinham os carrinhos carregados de verdura para bater à porta das casas, e um coxo passava com seu aviso em tom de ladainha: cinco cá-beças de alho, dois cruzeiros. Telefone era luxo, a pagamento usava-se o da venda na esquina mais próxima. Os graúdos moravam nos casarões da Avenida Paulista, eram quatrocentões, ou seja, originários de Portugal que pretendiam ter chegado pouco após Cabral, ou italianos e árabes enriquecidos, às vezes muito, estes últimos chamados de turcos por terem desembarcado com passaporte do Império Otomano.

Diluídas nos tempo as histórias aventurosas do mítico ladrão Amleto Gino Meneghetti, capaz de escalar as paredes das mansões e de dizer: “A diferença entre um banqueiro e eu é que aquele tem paciência”. Os carcamanos e os descendentes de espanhóis ficavam nos bairros operários, Brás, Bexiga, Mooca, Pari, onde havia décadas representavam o braço válido da transformação de São Paulo no maior centro industrial do Hemisfério Sul.

O Brasil mudaria a partir desta região da cidade, em sentidos diversos. De noite, as famílias levavam as cadeiras para as calçadas, tomava-se vinho e jogava-se aos gritos a morra, um palitinho em que os dedos da mão substituem os palitos. Illo tempore, e me refiro ao período que vai de 1946 até o golpe de 64, estavam vivos, só para lembrar alguns, Gilberto Freyre, Raymundo Faoro, Sérgio Buarque de Holanda, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Candido Portinari, Nelson Rodrigues, e havia jornalistas como Claudio Abramo.

Que sobrou daquela cidade e daquele Brasil? Sabemos dos efeitos trágicos do golpe civil-militar. Mas já naquela risonha quadra paulistana as oligarquias esticavam seus tentáculos. Vínhamos da época das monoculturas, dos coronéis, dos senhores de engenho, que plantaram hábitos antes que raízes. Vínhamos das greves de São Paulo nas duas primeiras décadas do século passado, resolvidas por Altino Arantes com a expulsão de 400 anarquistas. Mesmo assim, Getúlio Vargas cuidara de criar Volta Redonda e a Petrobras, a CLT e o salário mínimo.

O mal irreparável causado pelo golpe é escancarado aos nossos olhos, interrompeu um processo habilitado a levar o Brasil à contemporaneidade. Vivemos até hoje as consequências do golpe, e das tradições e dos humores gerados pela colonização predatória e pela escravidão. Baseados na inesgotável vocação golpista, na corrupção endêmica, e até na vocação da rasteira e do passa-moleque, própria do agir necessariamente subdoloso do escravo.

Quando cheguei ao Brasil, a nossa cultura olhava para Paris, os filhos dos senhores haviam estudado na França, embora os pais viajassem para Marselha em companhia de vacas leiteiras, a garantir a qualidade do café da manhã. Logo nos entregamos ao exemplo dos Estados Unidos, e com esta escolha erguemos uma caricatura. Foi o primeiro passo da desgraça, estética, se quiserem, a qual não é de modo algum secundária, a alimentar e fecundar provincianismo, ignorância, insensibilidade, mau gosto, arrogância, bem como inúmeros recalques. O momento que atravessávamos não é inútil, ao menos é revelador.

Meu pai, está claro, enganava-se.

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