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Número 851,

Cultura

Livro

'Cancioneiro' de Petrarca ganha desenhos de Enio Squeff

por Ana Ferraz publicado 28/05/2015 04h58
Obra impressa pela primeira vez em 1470 é lançada no Brasil em edição bilíngue e com nova tradução
Enio-Squeff

Squeff improvisou cenas como forma de homenagear a espontaneidade do poeta

Avignon, frança, 6 de abril de 1327. Na Igreja de Santa Clara, um poeta extasia-se diante da beleza de uma jovem de 18 anos. A visão nunca mais vai abandoná-lo e servirá de inspiração para uma jornada lírica consubstanciada em 317 sonetos, 29 canções, 9 sextinas, 7 baladas e 4 madrigais.

A mulher de cabelos dourados chama-se Laura, é filha de um rico burguês, Audiberto de Noves, e tem por marido Hugo de Sade. O poeta é Francesco Petrarca, homem de grande erudição e sensibilidade extremada, cujo fado é um amor impossível.

Se a sina melancólica causou momentos de sofrimento e êxtase amoroso que não raro exauriram forças e drenaram o ânimo do italiano de Arezzo, por outro lado permitiu à humanidade usufruir um legado superlativo. “Petrarca é o mais original de todos os poetas líricos da literatura universal”, decretou o crítico Otto Maria Carpeaux.

Sete séculos depois de sua criação, o manuscrito Rerum Vulgarium Fragmenta, cuja primeira edição impressa remonta a 1470, posteriormente intitulado Rime e mais tarde Canzoniere, chega ao leitor brasileiro em nova tradução. Além do dedicado trabalho do poeta, ensaísta e ficcionista gaúcho José Clemente Pozenato, a bonita edição bilíngue de Cancioneiro distingue-se por desenhos feitos alla prima por Enio Squeff.

O artista se impôs o desafio de criar diretamente sobre as provas, “algo em torno de 700 aguadas, sem quaisquer esboços, o que me pareceu no mínimo uma façanha”. Ele buscou se colocar na pele dos artistas do tempo de Petrarca: “Era assim com os afrescos, técnica dominante no século XIV”.

Ao longo de dois meses, Squeff dedicou-se de modo integral a Cancioneiro (Francesco Petrarca. Ateliê Editorial e Editora Unicamp - 536 págs., R$ 160 ). “Passava o dia lendo e desenhando. Era ler o poema e jogar no papel o que me parecia mais consentâneo com a sua mensagem.” Imbuído do espírito petrarquiano cujo estilo serviu de modelo a tantos quantos vieram depois dele, o artista gaúcho mergulhou nas árvores, rios e montanhas que “falam pelo poeta”. Pincel de cerdas amarfanhadas mergulhado em nanquim, Squeff improvisou as cenas como forma de homenagem “à franqueza e à espontaneidade de Petrarca”. 

“Sempre me vali muito da música e nela o improviso é fundamental. Acredito piamente que Petrarca compôs a maior parte dos poemas como afrescos, em que a correção é muito difícil, quase impossível. No mais, quando falo do ‘improviso’ me reporto ao repertório que todo artista tem. Petrarca hauriu muito dos latinos. No que me toca, não podia deixar de evocar os grandes mestres e experiências pessoais como pintor de paisagens, modelos-vivos, retratos”, explica o artista.

A aventura sentimental obsessiva em torno da inalcançável Laura é fonte inesgotável de encantamento. A musa tem olhos a inspirar paixão e revelar virtudes (Estrelas, céu e terra aqui à prova/puseram seu cuidado e arte mais pura/no criar a viva luz, em que a natura/se espelha e o sol parece se renova. A obra é soberba, tão graciosa e nova/que esta visão mortal deixa insegura; parece que nos olhos, com fartura/Amor doçura e graça sempre chova). Na página em que esse trecho do poema é reproduzido no original, uma Laura de semblante tristonho e distante traduz a angústia do poeta.

Como criador afeiçoado à criatura, Squeff acharia mais fácil falar sobre os resultados que não lhe agradam de todo. Mas consente em enumerar alguns que lhe são mais caros, como o desenho que abre o livro, retrato de Petrarca em momento de inspiração, o poeta e Laura, na página em que estão os créditos da obra, o escritor com a coroa de louros, um cavaleiro de escudo e lança em punho e um “mar proceloso” em que um barco luta contra a fúria das ondas.

Muitos são os desenhos que merecem voltar a página ou se deter um pouco mais. São de um “primor intimista”, conforme definiu Maria Bonomi. “Fiquei deslumbrada pela sensibilidade intensa e espontâneo grafismo das imagens, muito bem executadas (nada de carregado) na impressão ligeira e esparsa”, escreveu a artista plástica.

A leveza expressiva povoa as páginas de Cancioneiro de anjos aos quais Petrarca recorre para mitigar a dor e levar aos céus a amargura, de flores e vergel que celebram a alegria da primavera em contraste com o ânimo abatido do apaixonado, para quem florir de relvas ou cantar de aves/e as mulheres de faces tão suaves/são-me um deserto e duras feras más.

Apunhalado pela notícia da precoce morte de Laura, exatos 21 anos após tê-la conhecido, Petrarca envia suas rimas ao túmulo da amada. Neste e em outros poemas de tom soturno (volto a te pedir, pálida Morte, que me subtraias tão penosas noites), Squeff representa com traços ligeiros e etéreos a quase sempre indesejada figura da caveira, foice de prontidão, capa negra esvoaçante.

“Toda a saga do poeta é um pranto ao amor impossível. Quando Laura morre, ele se desespera, mas ela é pranteada desde que se casa com outro homem. Simbolicamente está morta para o poeta. Sob este aspecto, Cancioneiro é elegíaco desde o início. Quando o lemos, notamos claramente a influência que Petrarca exerceu sobre Camões no famoso e pungente soneto Alma minha gentil, que te partiste”, analisa o artista. Para ele, é missão inglória eleger os poemas prediletos. Há os que o enternecem de modo especial, admite, entre eles aquele em que Petrarca, “como um voyeur, a repetir o episódio de um dos velhos da Suzana no banho, da Bíblia, a vê (ou assim imagina) desnuda: Não deu Diana ao amado aquele dia/maior prazer do que ele, toda nua/a contemplou em meio à água fria”. E faz uma ressalva: “Há diferenças entre o que me tocou e o que logrei desenhar”.