Você está aqui: Página Inicial / Revista / CBF: Barco furado / Vitória católica
Número 850,

Internacional

Polônia

Vitória católica

por Gianni Carta publicado 17/05/2015 08h49
Os resultados do primeiro turno das eleições provam que a religiosidade impregna a política
Kacper Pempel/Reuters/Latinstock
Andrzej-Duda

Duda avança em primeiro lugar para o segundo turno, contra Komorowski

A inesperada vitória de Andrzej Duda no primeiro turno da presidencial no domingo 10, demonstra como a religiosidade continua a impregnar a sociedade polonesa. Mas foi mesmo surpresa? Em tese. De saída, o advogado Duda, 42 anos, não passava de um desconhecido quando, no outono de 2014, foi indicado como candidato pelo ultracatólico presidente do Partido Direito e Justiça (PiS), Jaroslaw Kaczynski. Em segundo lugar, como nas recentes legislativas britânicas, as pesquisas de intenção de voto erraram radicalmente. Duda angariou 34,8% dos votos. Na Polônia as enquetes previam a vitória, talvez até no primeiro turno, do atual presidente Bronislaw Komorowski, da legenda centro-direitista Plataforma Cívica (PO). A PO obteve 32%. O segundo turno na Polônia acontece em 24 de maio, e o resultado servirá como barômetro para as eleições legislativas, no próximo outono.

Houve outras surpresas. O terceiro colocado, com 20% dos votos, chama-se Pawel Kukiz, roqueiro sem legenda de 51 anos. Outro “rebelde”, Jazusz Korwin-Mikke, fundador e presidente da xenófoba Coalizão para a Renovação da República - Liberdade e Esperança, levou 5% dos votos. Deputado no Parlamento Europeu, fala sobre a falta de provas concretas sobre o fato de Adolph Hitler ter estado a par do Holocausto. Korwin-Mikke, de 72 anos, quer abolir o voto às mulheres. Já o Partido da Aliança Democrática de Esquerda (SLD), ficou com apenas 3% dos sufrágios ao apostar na candidatura de Magdalena Ogórek, ex-apresentadora de televisão e atriz de novelas. Os líderes esquerdistas foram criticados por escolher a beldade loira, em lugar de uma política. Ogórek, de 36 anos, pode ser atriz de novelas, mas isso não a torna menos capaz que Kukiz, ou até Duda. Ogórek é também doutora em história, e leciona em diversas universidades.

Resultados inesperados se devem a metodologias questionáveis de enquetes de opinião pública. Vários observadores falam em votos de protesto, mas na Polônia, país proporcionalmente com maior número de católicos na Europa (95%), a vitória de um ecumênico nunca pode ser considerada uma surpresa. Durante a campanha, Duda repetiu ser “o herdeiro espiritual” do irmão gêmeo de Jaroslaw, Lech Kaczynski, este falecido em abril de 2010 em um acidente aéreo em Smolensk, na Rússia. À época, Lech era presidente e Jaroslaw premier, dobradinha cujo maior legado foi a defesa de valores da Igreja Católica. Além do apoio de duas outras legendas conservadoras, os gêmeos Kaczynski contavam com as emissões da poderosa Radio Maryja. Financiada por obscuros ouvintes, a rádio ultracatólica oferece boletins religiosos e tece análises nacionalistas, antissemitas, além de atacar os alemães. Por sua vez, os males a assolar a Polônia são as drogas e o consumismo. Incluem-se mais dois, na visão polaca: a coabitação sem casamento religioso e a homossexualidade. Todos oriundos de outros países da União Europeia.   

Komorowski cometeu erros durante a campanha. Foi o único entre 11 candidatos a não participar de debates televisivos. Talvez não tenha sublinhado o suficiente o sucesso econômico da Polônia. Em 2009, quando todas as economias do bloco europeu entravam em recessão, a economia polonesa crescia menos, mas atingia 1,9%, e nos anos sucessivos cresceu 3,9%, 4,3%, 1,6%. Neste ano, a previsão é um crescimento de 2% do PIB. A Copa da Europa de 2012, disputada na Polônia e na Ucrânia, revitalizou a terra de João Paulo II.  Estádios moderníssimos surgiram em várias cidades, a começar pela cosmopolita Varsóvia, epicentro da Europa Central e do Leste. Em dezembro, o ex-premier polonês Donald Tusk, da Plataforma Cívica, foi nomeado presidente do Conselho Europeu. Mas talvez o erro mais grave de Komorowski tenha sido o de comparar Duda a Kaczynski. Embora o ex-presidente ocupasse um cargo em parte de fachada, mas a embutir poderes como o de comandante do Exército e os de vetar e propor legislação, ele virou ícone nacional ao morrer no acidente aéreo em 2010. Lech Kaczynski foi enterrado ao lado de heróis, reis e poetas na cripta da Catedral do Palácio Wawel, em Cracóvia. Tanta pompa suscitou polêmicas e piadas de mau gosto, mas o argumento dos opositores convence: Lech Kaczynski não foi um herói. 

De qualquer forma, Duda apropriou-se da imagem do presidente falecido com, ironia das ironias, a ajuda de Komorowski. O “herdeiro espiritual” do herói tem todas as credenciais para os ouvintes da Radio Maryja. Duda foi coroinha e escoteiro. Na campanha eleitoral, prometeu um referendo sobre a fertilização in vitro sob aplausos da Igreja. No entanto, Duda fez uma única promessa que tem sentido: maiores vantagens sociais. Sim, porque mesmo se a “terapia de choque” ultraliberal dos anos 1990 fez o país crescer, a Polônia depende do investimento estrangeiro e da produtividade de multinacionais em solo polonês. E o preço tem sido alto. Embora a mão de obra seja de ótimo nível, o salário mínimo bruto é de apenas 400 euros mensais. 

Os chamados “contratos lixo” não oferecem benefícios sociais. Patrões podem licenciar sem aviso prévio. O nível de desemprego é de 13,9%. Mais: entre 2004 e 2014, 2 milhões de poloneses deixaram o país para trabalhar no estrangeiro. As transferências de dinheiro para a Polônia procedentes de outros países da UE decrescem a cada ano.

Ex-ministro e conselheiro de Lech Kaczynski, Duda tem experiência política. Ademais, é advogado formado pela Universidade de Cracóvia, sua cidade natal. A mesma do papa João Paulo II. E como diz o acadêmico Arragon Perrone, o papa polonês impulsionou a queda do comunismo na Polônia. Em suas três viagens papais à terra de origem, Wojtyla apoiou o movimento sindical Solidariedade de
Lech Walesa, mas também dos Kaczynski. Em seu mais famoso discurso,
João Paulo II deu o sinal verde aos poloneses: “Não tenham medo”. Certamente, o apoio do Solidariedade, apenas cinco dias antes do pleito no domingo 10, foi uma enorme ajuda para a vitória de Duda.