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Número 850,

Cultura

Música

Samba e poesia numa caixa de fósforos

por Ana Ferraz publicado 25/05/2015 03h00
Projeto digitaliza a obra do baiano Batatinha, que divide o pedestal de sambistas da melancolia com Cartola e Nelson Cavaquinho
Madalena Schuartz

Madrugada alta, quase ninguém desafia as baldias ladeiras do Pelourinho. O silêncio conquistado após uma longa jornada de trabalho é quebrado por uma batucada suave, imprimida por mãos ágeis numa singela caixa de fósforos.

Oculto pela sombra da noite, o filho espreita o pai, que compõe um samba na sala. A cena repetiu-se diversas vezes e foi presenciada por muitos que conviveram com Oscar da Penha, o Batatinha, compositor refinado, criador de harmonias trabalhadas e versos embebidos em tal dolência que levaram Paulinho da Viola a elevá-lo ao pedestal ocupado por Cartola e Nelson Cavaquinho, a tríade dos sambistas da melancolia. 

Numa Bahia que investe pesado na música voltada às coreografias da grande massa, com um olho no mercado de entretenimento e outro na caixa registradora, poucos hoje sabem quem foi Batatinha. “Outro dia me perguntaram se ele era capoeirista”, ressente-se o artista plástico Lucas, um dos nove filhos nascidos da união entre Oscar e Marta, ele “gráfico de profissão, sambista nas horas vagas”, ela mulher simples que vendia cuscuz para complementar a renda familiar.

A partir de julho, a obra do mestre volta à memória coletiva, quando será lançado, em Salvador, o Acervo Batatinha – Diplomata do samba, iniciativa da família viabilizada por meio de edital da Natura Musical.

O poeta do samba escreveu versos como “é proibido sonhar, então me deixe o direito de sambar” (Direito de Sambar), “se eu deixar de sofrer/ como é que vai ser/ para me acostumar” (Hora da Razão) e “todo mundo vai ao circo/ menos eu, menos eu/ como pagar ingresso/ se eu não tenho nada?/ fico de fora escutando a gargalhada” (Circo), este um lamento em forma de canção composto após constatar que não tinha como atender ao pedido dos filhos de ver as estripulias do palhaço.

A música tornou-se conhecida graças à gravação de Maria Bethânia, que ele tinha por musa, para o disco Drama (1972). Ao mestre agradavam as interpretações de Nora Ney e Alcione, revela o filho Joseval, Vavá.

Oscar da Penha torna-se Batatinha pelas mãos do diretor da Rádio Sociedade da Bahia, Antonio Maria, em 1944, que lhe põe o apelido ao chamá-lo para uma apresentação. O “homenageado” confessaria que a princípio a alcunha não o agradou, pois era passaporte para a troça dos camaradas, que eram muitos, dentro e fora da boemia. Riachão, Panela, Chocolate, Tião Motorista, Garrafão, todos talentosos, todos com profissões singelas a lhes garantir o sustento. 

Despretensioso e tranquilo, Batatinha não negava conversa a quem fosse. A melancolia enraizada nas composições não resume sua personalidade. Quem ouve o baiano diplomado no sofrimento corre o risco de imaginá-lo cabisbaixo. “Ele era bem-humorado, contava piadas”, relembra Lucas. “Gozador, sorridente, brincalhão”, analisa o historiador Rafael Rosa.

O primeiro sucesso na rádio, Jajá da Gamboa, é exemplo dessa picardia. O samba que ganhou vida na voz tonitruante de Jamelão, em 1960, fala de uma tal “cabrocha boa, apesar de ser coroa”, cujo “dono da situação” é o sujeito que intitula a música. “Meu pai fundou um bloco chamado Vai Levando e compôs muitas marchinhas de carnaval”, recorda-se o filho.

Diversas delas ganhavam a simpatia dos foliões e viravam sucesso instantâneo. Mas nada de dinheiro. Batatinha julgava que bastava a música cair na boca do povo para lhe render algum e não inscrevia as criações nos concursos de carnaval, revela Rosa. Muitas se perderam por falta de registro. As que sobreviveram, entre as quais Macumba e Bebê Diferente, “são prova inconteste do lado fanfarrão do compositor”. 

Batatinha muitas vezes compunha e dava a parceria “na humildade, na gentileza, na camaradagem”, revela o filho. Certa vez Dorival Caymmi convidou o conterrâneo para sua festa de aniversário, no Rio de Janeiro, e aproveitou para lhe perguntar o motivo de tal desprendimento. Desconcertado, o compositor não soube explicar. O autor de É Doce Morrer no Mar sentenciou: “Batatinha, dinheiro e glória não se divide”. 

Admirado nas rodas de samba, de ótimo trânsito entre o pessoal de teatro, dança, música e política, Batatinha cultivava amigos em todo lugar. “Ele se realizava quando ajudava alguém, em qualquer sentido. E não reivindicava as realizações como músico. ‘Se as coisas que faço levam felicidade às pessoas, então também sou feliz’, dizia. Ser feliz era estar com a família e os amigos”, afirma Lucas.

“Ele ficou conhecido por introduzir novos talentos no meio do samba baiano e por fazer pontes entre a antiga e a nova geração. Foi o que fez em fins dos anos 1960 com Edil Pacheco, que tinha chegado do interior da Bahia”, escreve Rosa. “Ele se dava bem com todo mundo. A alcunha Diplomata do Samba surge em razão da música Diplomacia”, explica o historiador. Na letra, “meu desespero ninguém vê/ sou diplomado em matéria de sofrer”, mais um exemplo da pungência que virou sua marca. 

A história da cantora Adriana Moreira se cruza com a de Batatinha a partir do momento em que escuta a coletânea Diplomacia (1997). “Eu havia acabado de sair da escola de música, quando fui ao lançamento do disco e me encantei. Tinha Dona Ivone Lara, Elton Medeiros, Paquito, J. Veloso.

O que era aquilo? Nunca tinha ouvido falar daquele compositor baiano. Comecei a pesquisar e descobri que a discografia era pequena e ele havia caído no esquecimento. Abusada, decidi fazer um tributo a Batatinha.” Para um show no Sesc, trouxe os parceiros do compositor, Edil Pacheco, Nelson Rufino, Riachão e Jorge Penha, este bandolinista e filho de Batatinha. 

“Foi Batatinha quem me fez cantora. Ele estará eternamente no meu repertório”, afirma Adriana. Suas melodias repletas de nuances exigem muito do intérprete, o que a fascinou desde a primeira nota. “Batatinha era intuitivo, não tocava instrumento, a não ser a caixinha de fósforo, é um desafio para o cantor. Eu, recém-saída da escola, fui ganhando segurança para perceber a sutileza, a intenção que ele dá a cada melodia, a cada letra.”

A conversão completa deu-se quando Carlos, outro dos filhos do sambista baiano, ouviu Adriana cantar Batatinha e, convencido da força da intérprete, entregou-lhe um baú com fotos e fitas cassete em que o pai conta histórias e canta músicas inéditas. “Eu ouvia e chorava.” A decisão estava tomada, Adriana contrariou vozes próximas que a aconselhavam a escolher algum compositor mais conhecido para estrear e gravou seu primeiro disco só com canções de Oscar da Penha.

Direito de Sambar (2006), com arranjos de Eduardo Gudin e Edmilson Capeluppi, é um amoroso e emocionante tributo ao mestre Batatinha, burilado com desvelo em oito faixas conhecidas e seis inéditas. 

“A faixa Direito de Sambar é meu carro-chefe, pois é como se o compositor reivindicasse estar naquele lugar. Em Imitação (ninguém sabe quem sou eu/ também já não sei quem sou), ele ironiza todo mundo, como se falasse sou um compositor da Bahia, estou no esquecimento, mas continuo fazendo. Batatinha foi realmente esquecido. Há dois anos, quando lancei Direito de Sambar na Bahia, teve quem me dissesse que o CD era um tapa na cara de Salvador, pois foi preciso uma cantora de São Paulo para gravar um disco só com músicas de Batatinha.”

Com o lançamento do Acervo Batatinha, o mestre que “tinha todas as notas musicais numa caixa de fósforo”, conforme definiu o compositor Lula Carvalho, será reabilitado. “O acervo principal vem dos filhos, mas há contribuições de amigos. Reunir tudo foi como montar um quebra-cabeça”, diz Rosa. A pequena discografia de cinco títulos foi remasterizada e cada faixa tem texto informativo. Fotos, textos e trechos de filmes e documentários estarão disponíveis.