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Número 850,

Cultura

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As reflexões do crítico Mário Pedrosa

por Rosane Pavam publicado 27/05/2015 03h39
Coletâneas reapresentam o estilo claro de escrita do autor que via no artista um visionário destinado à transgressão
Luciano Martins

O crítico Mário Pedrosa (1900-1981) teria ocupado no Brasil um lugar semelhante àquele assumido pelo historiador da arte Giulio Carlo Argan, raciocina o arquiteto Guilherme Wisnik em um dos prefácios às duas coletâneas de seus textos para jornal, agora publicadas.

Ativo institucional e politicamente, um pouco à moda daquele exímio analista da arte moderna, Pedrosa teria feito da sua crítica frequente um apelo à mobilização do artista, alguém que ele parecia acreditar ser fundamentalmente um visionário, destinado à transgressão técnica e social. 

Nestes textos relativamente curtos, Pedrosa serve-se de um estilo claro de escrita para propor o avanço da arte em campos diversos como a pintura, a escultura ou a arquitetura. A seu ver, ela prosseguiria mais seguramente em terreno solidário, contra os privilégios de classe. Por exemplo, nessas linhas lamenta, para depois voltar atrás, a guinada de um Picasso que se desumanizava, “restringindo o seu plano social e as suas preocupações estáticas a um puro jogo pueril de formas e naturezas-mortas”.

Em contrapartida, celebra a arte de Gauguin como perfeita continuadora daquela de Cézanne. “Com sua atitude de desprezo pela realidade natural, Gauguin salta vários séculos”, escreve sobre o artista cuja acidez de tom “arrepiou a pele” de requintados simbolistas e permaneceria em nossa sensibilidade moderna pelo gosto “simples, primário, do nosso cajá nativo”.

É como se em Pedrosa ainda habitasse o espírito mobilizador das massas europeias na segunda metade do século XIX, pronto a compreender o espírito romântico e a ação utópica. “Sonhem diante da natureza, mas dela não extraiam a arte. As duas coisas são incompatíveis.”

A Cosacnaify, que reedita a obra completa do crítico, pretende recolher mais textos esparsos. A previsão para este ano é de mais uma coletânea em torno da arte, organizada por Lorenzo Mammì, e outra para seus textos políticos, coordenada por Isabel Loureiro e Dainis Karepovs, ambos com previsão de edição em outubro. 

Mário Pedrosa – Arte ensaios

Org. Lorenzo Mammì. Cosacnaify, 623 págs., R$ 79,90

Mário Pedrosa – Arquitetura ensaios críticos

Org. Guilherme Wisnik. Cosacnaify, 207 págs., R$ 49,90

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