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Número 849,

Sociedade

Torcida globalizada

O futebol é meu game

por Rodrigo Borges — publicado 17/05/2015 08h49
A geração PlayStation exportou para os times da Europa a paixão por um esporte que, no Brasil, já teve graça e carisma
Wanezza Soares

Na inglaterra gosto do Newcastle, na França do Lyon, na Espanha do Villarreal, em Portugal do Marítimo, na Itália da Fiorentina, na Holanda do Twente, na Alemanha do Eintracht Frankfurt, no Chile da Universidad de Chile, no Uruguai do Defensor Sporting.”

A relação de nove times aparece no link “Quem é o maluco?” do blog O Craiovano, especializado em futebol romeno. E tem mais. “Torço pro Vasco desde que nasci e pra Portuguesa desde 2007. O “maluco” é João Vítor Roberge, estudante de jornalismo que gosta “do que tem de mais desconhecido no futebol”: “Assisto à Champions League da Oceania e torci pra Eslovênia na Copa de 2010”.

João, que se dedicou ao aprendizado de romeno para ter acesso a informações do futebol local e reproduzi-las em seu blog, é parte do que, no Brasil, passou a se chamar de Geração PlayStation: adolescentes ou jovens recém-saídos da adolescência que torcem por times estrangeiros. É a primeira “geração globalizada”, que já cresceu com internet e TV a cabo em casa e jogando sofisticados games de futebol. Pessoas que conhecem times europeus, grandes ou pequenos, tão bem quanto os brasileiros.

É, no entanto, um movimento ainda incompreendido, que em muitos casos sofre preconceito dos mais velhos ou conservadores. Não é raro que um jovem negue fazer parte da Geração PlayStation, ainda que dela tenha o perfil. “Para muitos, é sinônimo de torcida mimada, que só quer títulos. Eu não me incomodo com o rótulo e prefiro pensar que tivemos a sorte de crescer em um mundo onde é possível acompanhar e torcer por um time mesmo que ele esteja distante”, diz Vinicius Alexandre, 21 anos, torcedor do Barcelona e que faz parte do ESPN FC, site que abriga blogs de torcedores. “Ligar uma geração ao videogame não é uma forma de denegri-la, mas apenas sintetizar a realidade em que ela cresceu”, afirma o dono da página de maior audiência do projeto do canal esportivo – e que tem entre seus concorrentes blogueiros dos principais times do Brasil.

A Geração PlayStation tem na diversidade como uma de suas mais fortes características. Embora os grandes clubes abriguem a maioria dos fãs, uma busca no Google mostra muitas páginas em redes sociais ou blogs dedicados a times pequenos: O Craiovano não está sozinho. “Comecei a torcer em 2007 porque jogava com o Hull City em um game. Desde então, o sentimento e a relação com o clube só aumentaram, diz Matheus Campos, 20 anos, sobre o atual 17º colocado do Campeonato Inglês. “Conheci muita gente ao redor do mundo por causa do time”, afirma o estudante.

A Geração PlayStation não tem característica de um modismo, assegura o jornalista Anderson Gurgel, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo e doutor em Comunicação e Esporte. “Futebol é um produto e paixão virou alvo de disputa de mercado. A globalização não se resume a finanças, mas a uma mudança de comportamento. Se entendermos que o futebol é um produto de consumo, fica claro o processo de disputa de mercado pela paixão e o consequente investimento de tempo e dinheiro para alimentar esse sentimento. Os clubes de futebol viraram marcas globais que oferecem ambientes de entretenimento sofisticados. Os ídolos potencializam a construção desse sentimento.”

O cenário não é nada favorável aos clubes brasileiros, ainda que o expediente recente do Sócio-Torcedor tente ir atrás do prejuízo emocional (há cinco clubes daqui entre os 20 com mais sócios-torcedores no mundo, Inter, Palmeiras, Corinthians, Grêmio e Cruzeiro, pela ordem, numa lista encabeçada pelo surpreendente Benfica, com 270 mil adeptos; o Inter, o melhor dos brasileiros, tem menos da metade). 

O fato é que desde cedo as crianças miram times europeus para torcer – muitas vezes para tristeza dos pais. A camisa infantil de futebol mais vendida em 2014 pela rede Centauro foi a do Barcelona. A conta foi feita em 186 lojas de todo o País. Apenas quatro das dez primeiras foram de times brasileiros.

“Se nada mudar no futebol brasileiro, ou se piorar a cada geração, o que é possível, a forças dos clubes globais só vai aumentar”, avaliar o professor Anderson Gurgel. Esse público consumidor do futebol, nascido da internet e abastecido a TV a cabo, já é exigente desde cedo. Entrevistado pela revista Placar depois de um jogo do Corinthians, Ugo Altobello, de apenas 8 anos, reclamou da experiência: “É muito chato, não tem nada pra fazer além de ver o jogo”. Ao mesmo tempo, a reclamação é um alerta para os times brasileiros: “vender” apenas um jogo de futebol já não satisfaz os adultos de amanhã. Para não correr riscos, é preciso mudar. Ou o risco de se ver diante de um game over será grande.