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Número 849,

Cultura

Papinho Gourmet

O carneiro da Dona Maria

por Marcio Alemão publicado 17/05/2015 08h49, última modificação 11/06/2015 16h07
É dia de carneiro na casa da Dona Maria, com os primos, tios e mais aquele monte de penduricalho que a gente arrasta na vida
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Cedo não era, mas a casa estava cheia.

Os filhos chegando e Dona Maria nem perguntava: mexidinho neles.

Quando a conta fechava em sete, Dona Maria se recolhia. O dia seguinte seria longo no Ministério da Fazenda.

Mas foi naquele dia seguinte, beirando o feriado, que ela anunciou:

– O feriado vai ser aqui em casa.

– Sério?

– Vai ter o tal?

– O único?

– O mágico?

– Com certeza. O meu singelo carneirinho assado com vinho.

– Os primos e os tios, mãe?

– E mais aquele monte de penduricalho que a gente arrasta na vida.

– Eu pego a forma na padaria.

–Mas vê se pega só a forma, vazia, sem o pãozinho doce.

Todos riam e, assim que a mãe virava as costas, a pergunta se repetia: 

Como será que a mãe faz o carneiro?

– Nunca ninguém vai saber, ela já me disse isso.

E a turma ia chegando.

– Esta casa continua desafiando as leis da física. Quem disse que 20 corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço?

– Vai ter macarronada?

– E mais um feijão.

– E mais o carneiro.

– O famoso!

– E combina essas coisas todas juntas? – manifestou-se uma agregada com vocações gourmet que recebeu de Dona Maria a resposta.

– É meio como você na família, não orna muito, mas todo mundo gosta.

Os anos foram indo embora, assim como os sete filhos, e Dona Maria aposentou-se, do Ministério e da cozinha.

– O que você acha, agora que a mãe está de prosa com o tal Alzheimer, da gente tentar conseguir a receita do carneiro.

– Que maldade! Você teria coragem de se aproveitar da mãe neste momento de fragilidade?

–Sim. E você?

–Eu também. Mas vai você.

Dona Maria recebeu bem o filho. Chamou-o de alguns nomes diferentes durante a conversa, mas o papo seguiu até que o assunto foi à mesa:

– Sabe o que seria uma pena danada, mãe? A gente ficar sem a sua receita do carneiro com vinho

– Seria uma pena, de fato. Mas por que você não faz o seguinte: anota a receita!

– Sério? Vai passar adiante um dos maiores segredos da história da humanidade.

Dona Maria riu e foi ditando.

– Calcula 150 gramas por pessoa. Deixa na marinada. Depois de dois dias dá uma fritada nos pedaços. Depois é forno lento, com o vinho. 

– Tudo anotado. Mas que parte do carneiro eu compro e que vinho eu uso?

Com os olhos cheios de malícia ela confessou baixinho, se rindo:

– E você acha que uma funcionaria pública mãe de sete filhos ia conseguir comprar carneiro para mais de 20 bocas de cabra? Sempre usei músculo bovino, meu filho. E o vinho tem de ser aquele de garrafão meio docinho e bem ordinário. 

Esse Papinho Gourmet foi inspirado na história enviada pelo leitor Fernando Grossi, lá das Minas Gerais. A quem eu agradeço.