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Número 847,

Cultura

Estilo

Tempos cabeludos

por Willian Vieira — publicado 02/05/2015 05h42
A barba está em alta. Mas por quanto tempo sobreviverá ao hipsterismo?
Istockphoto
barba

Emblema de uma virilidade radical, a barba aderiu ao repertório coxinha

No dia 3 de outubro, centenas de homens se juntarão para uma épica batalha entre machos. Enquanto esperam no lobby do centro de convenções do hotel Marriott, em Portland, nos Estados Unidos, o pronunciamento de seu nome para subir ao palco sob os aplausos dos visitantes, os viris concorrentes cofiarão barbas e bigodes há muito tratados com afeto, loções e ceras especiais – como a que dá nome ao Just for Men World Beard & Moustache Championship. A briga, aqui, é pelo título de barba mais incrível da América e ilustra como a barba tem retomado status e ganhado atenção mundo afora. Pois, do barista da cafeteria da esquina ou o vendedor hipster da loja de camisetas aos mais bem pagos atores de Hollywood e mesmo os sacrossantos galãs das novelas da Globo, a barba parece ter fisgado corações e mentes masculinos. 

O fenômeno ganhou tal proporção que o músico Jack Passion, vencedor de diversos concursos pelo mundo e participante da segunda temporada de um reality show voltado apenas para os barbudos, Whisker Wars, decidiu lançar um livro, The Facial Hair Handbook, dedicado “a qualquer homem que queira parecer como um”, segundo a resenha. Mas a história da barba projeta-se bem além do hipsterismo de ocasião. O apreço por pelos faciais é pendular ao longo da História e molda-se a questões culturais. 

Durante os séculos XVI e XVII, ao menos na Europa e logo nos EUA e em outras colônias a gravitar em torno do continente branco, a barba era vista como símbolo de virilidade e apetite sexual, como escreve o historiador do corpo Alun Withey. Já o século XVIII decidiu barbear-se como regra, na esteira do surgimento das navalhas individuais: e assim os dândis surgiram com seus rostos lisinhos e perucas perfumadas. Quando a supremacia masculina parece estar em perigo, afirma Withey, o status da barba ganha nova força – teria sido o caso do fim do século XIX, quando as mulheres começaram a achar seu lugar na Inglaterra vitoriana e a definir o rosto liso como ideal para elas e para eles. Num dos muitos livros que então pipocaram em defesa do cultivo da barba, Why Shave?, o argumento era claro: se Deus deu a barba ao homem para demonstrar a superioridade do gênero viril, por que não cultivá-la?  

Uma constante parece, porém, verdadeira: barba e transgressão cultural sempre andaram juntas. Do hippie feliz da contracultura americana nos anos 1960, envolto em panos coloridos e empapados em LSD, fugindo do capitalismo como o diabo da cruz e buscando na sexualidade livre o sentido da vida, aos esquerdistas à Che Guevara e suas camisas vermelhas dos anos 1990 no Brasil, estudantes ou sindicalistas opostos ao mainstream coxinha, ao hipster nova-iorquino, londrino ou mesmo (mais recentemente) paulistano, que hidrata os pelos faciais e os penteia bem bonitinho antes de levar suas tatuagens à passeata pelos direitos dos imigrantes ou pelo passe livre – e isso para não falar de Jesus e incorrer no risco de reafirmar a representação historicamente datada do moço –, ser contra o sistema sempre vai bem com uma barba. 

Verdade, os hipsters elevaram o status da barba a suprassumo da discussão estética masculina atualmente e mesmo à condição de divisor de águas, de pomo da discórdia estético. Se, nos anos 40, quando o termo surgiu, hispter era o jovem branco urbano das grandes metrópoles que ouvia jazz negro (entre os negros), nos 50 eram os beatniks e, nos 70, os hip-
pies, dos anos 1990 em diante o termo passou a refletir uma espécie de paródia comercial de um estilo de vida alternativo e transgressor, cujo símbolo máximo do estilo era, para os homens, além de tatuagens e roupas milimetricamente calculadas para parecerem deslocadas, ter uma bela e escandalosa barba. Na Inglaterra e nos Estados Unidos, já se fazem implantes de barba, por até 8 mil reais.

Com certo atraso de sempre, a tendência chegou às metrópoles brasileiras, sobretudo São Paulo, originando um fluxo incessante de jovens (e nem tão jovens) machos barbudos subindo as ruas do Centro e descendo as da Vila Madalena, entre lojas de skate e bicicleta, de hamburguerias com temática rockabilly a cafés orgânicos e lojas de CDS (isso mesmo), entre estúdios de tatuagem e uma das muitas barbearias masculinas que abriram nos últimos cinco anos. Em alguns lugares de Pinheiros, não se pode abrir os braços na rua sem encostar numa barba. Do hipsterismo mais tradicional, porém, a barba parece estar ganhando varões desavisados sobre a moda mundial, mas interessados em ter uma estética só sua, uma beleza ainda assim tão masculina.

Vide as Playboys oferecidas à espera (longa, de até duas horas) para picotar a barba (por 30 reais) na Barbearia 9 de Julho. Massagens, toalhas quentes, navalhas à moda antiga e decoração retrô completam a ambience. Se uma fila de homens barbados a cofiar seus peludos troféus jaz sentada no banco de madeira da Galeria Ouro Velho, na Rua Augusta, região central de São Paulo, não é por falta de locais oferecendo o serviço. “Vale a pena a espera, os caras são foda”, garante o professor tatuado, cuja barba de 20 centímetros de comprimento grita por um aparo. Bruno decidiu parar de cortar a barba um ano atrás. “Sempre gostei, mas nunca deixei. Agora decidi investir.”

Ali há alguns quarentões, uma figura tatuada perto dos 50 e muitos rapazes jovens com cabelos diversos (de carecas a topetes), a maioria tatuada, alguns pendendo para a estética punk, outro para o rock e outros ainda para o hipsterismo mais “clássico”; nas três cadeiras, um tem topete lambido, bermudinha florida e olhar lânguido sobre o barbeiro; outro tem tatuagem da bandeira de São Paulo no braço e olhos azuis vidrados na menina que passa. Em comum, são todos homens, e todos amam suas barbas. 

Mas quanto tempo a barba deve sobreviver ao hipsterismo do momento? Impossível prever. O fenômeno parece longevo. O tal “pico da barba” já foi anunciado em 2013 e 2014, mas os barbudos não param de se multiplicar mundo afora. “Mas não importa o quão longa, essa será apenas mais uma era de pelos faciais que surgiu e terá um fim ao longo do tempo”, escreveu o historiador do corpo Alun Withey. “Não podemos evitar: o modo como os homens se veem está sempre escrito em suas caras.” 

BarbaridadePor Nirlando Beirão

As penugens faciais dos revolucionários de Sierra Maestra emolduraram, a partir da virada dos anos 50 para 60, a expressão dos jovens enragés com enfado do capitalismo e sede de justiça. Entronizado na galeria dos ícones clássicos, 

o retrato do Che pelo fotógrafo Alberto Korda multiplicou-se em mil e uma utilidades, mesmo aquelas que exprimissem um consumismo banal que não tinha nada a ver com o que o Che e os outros rebeldes aspiravam. 

De todo modo, a barba historicamente fez bonito no altar da esquerda, emblema de um compromisso ideológico que começou com o peludo Karl Marx e chegaria, no Brasil, ao metalúrgico Lula da Silva, cuja trajetória política, aliás, espelharia o emblemático desenho de seus pelos, de um radicalismo hirsuto a uma acomodação asseadinha, bem-comportada.

Mesmo assim, a facção do Brasil que insiste em continuar lutando a Guerra Fria ainda não conseguiu engolir o Sapo Barbudo – na inspirada definição de Leonel Brizola. O impenitente ódio ao ex-presidente é tanto que pode produzir até inesperados efeitos, digamos, colaterais.

Quem acabaria provando desse fel, dias atrás, foi o fotógrafo mineiro Beto Novaes, experiente profissional da imprensa cujo pecado consiste numa espantosa semelhança com Lula – barba grisalha incluída. 

Novaes cometeu a ousadia de, a serviço do jornal Estado de Minas – por ironia, um dos militantes mais aguerridos do golpe –, ir cobrir no domingo 12 o protesto dos fãs do capitão Bolsonaro e da revista Veja. O fotógrafo já se acostumou à espantada reação das pessoas, mas, naquele dia, o que geralmente resulta em brincadeira e gargalhadas desandou em agressão e pancadaria.

Quatro rapagões bem alimentados, típicos brucutus do Fora Dilma, atacaram Beto Novaes a pontapés e o escorraçaram da parada. O cartunista Quinho, colega de redação do fotógrafo, denunciou a barbaridade. Curiosamente, quem acabou noticiando mais esse episódio da caricata fúria anti-PT foi o jornal O Tempo, concorrente daquele Estado de Minas para o qual Beto Novaes, sua câmera, sua competência e sua arriscada semelhança atuam.

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