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Número 847,

Sociedade

Brasiliana

O cinema mostra o rosto da Amazônia

por Felipe Milanez publicado 28/04/2015 21h42, última modificação 10/06/2015 18h41
Em Eldorado do Carajás, documentos visuais que servem de espelho perturbador
Felipe Milanez/CartaCapital
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Fronteira. Exibição de Matando por Terras na Curva do S.

"Eu nasci em Jacundá, mas não conhecia essas histórias. Eu não conhecia a minha história”, disse Mainara Rodrigues. “Cada filme me escandalizou de uma maneira única, me aterrorizou e me fez querer saber um pouco mais da minha terra.”

A história que ela não conhecia era a dos detalhes de violentos homicídios por terras nos anos 1980, tal como são mostrados no filme Matando por Terras, de Adrian Cowell e Vicente Rios.

Cinema: um estranho espelho na fronteira da Amazônia. Espelho é uma metáfora. Podemos pensar que estamos vendo as coisas como elas são. Mas, na verdade, os espelhos fazem distorções da realidade. Eu pensava nisso quando, a convite do professor da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), Evandro Medeiros, escolhi os filmes que iriam ser mostrados no primeiro festival de documentários na região.

O professor Evandro é organizador do Festival Internacional Amazônida de Cinema de Fronteira (Cinefront), e eu o curador. Achei que o público iria se interessar em enxergar a sua realidade, de muitos conflitos ao longo de muitos anos, pelo olhar de pessoas que vieram de lugares distantes e fizeram documentários ali. Pensei em como essa distorção da realidade poderia ajudá-los a refletir sobre a própria história. 

Os filmes foram mostrados no antigo Cinema Marrocos, em Marabá, no campus da universidade em Rondon do Pará, umas das áreas mais violentas e com maiores conflitos por terras na Amazônia, e na Curva do S da estrada PA 150, em Eldorado do Carajás, local do massacre de 19 sem-terra em 17 de abril de 1996. Na Curva do S ocorria, naquela semana, um acampamento da juventude do MST. 

O filme O Sal da Terra, de Juliano Salgado e Wim Wenders, que conta a história do famoso fotógrafo Sebastião Salgado, multiplicou os reflexos do espelho. Ele começa com as fortes imagens de Serra Pelada, o quintal de todos que estavam ali. Mas daí segue a viagem para a África, América Latina, e as pessoas começam a se ver mais longe.

“O filme transporta a nossa realidade. Faz a gente se encontrar em diversas situações”, comentou o advogado Lafayette Nunes. Sensação parecida da de Nenzinho, indígena gavião, após ver o filme sobre a queniana Wangari Maathai, de Lisa Merton e Alan Dater, Criando Raízes. “Isso que ela lutou lá na África é como a gente luta aqui. Desde que os europeus chegaram, querem dizer como as coisas devem ser.”

Mostrar O Sal da Terra na Curva do S teve outro sentido. Os jovens ficavam fascinados com as imagens e descobriam quem havia registrado o massacre, cuja memória estavam, naquele momento, lutando para não ser perdida. Do México, Juliano enviou-me uma mensagem dizendo que era “uma honra” o filme ser mostrado na Curva do S: “Não poderia haver um lugar mais forte e mais simbólico”. 

Ali mesmo mostramos o filme sobre a história do casal que foi assassinado, em 2011, em Nova Ipixuna, José Cláudio e Maria, Toxic Amazon, que eu dirigi com Bernardo Loyola. E a juventude no acampamento começou a cantar:

Não há o que temer. Aqueles que mandam matar, também podem morrer.

“A gente lembra de muitas coisas tristes nesses filmes. Mas temos de tomar como um impulso para continuar na luta”, comentou Maria Raimunda, liderança do MST que sofre ameaças de morte. Era uma situação delicada, pois o espelho refletia também no filme de Julia Mariano, Ameaçados, no qual a própria Maria Raimunda aparecia como personagem. “O programa de proteção aos ameaçados do governo é uma farsa. Todos sabem quem está mandando matar. Por que não viram a câmera e prendem aqueles que ameaçam?”

Vicente Rios e Adrian Cowell eram os diretores homenageados – Cowell, em memória, faleceu em 2011. E deles também foram exibidos outros trabalhos: Barrados e Condenados, sobre Tucuruí, e Montanhas de Ouro, que conta a chegada da Vale na região e a disputa com os garimpeiros de Serra Pelada. 

O próximo Cinefront vai ter como tema o universo indígena, anunciou Medeiros. No encerramento, foi dada a palavra a Zeca e Concita, duas lideranças do povo gavião. Naquele mesmo dia, eles protestaram no entorno dos trilhos da Vale, e uma liminar da Justiça Federal mandava a polícia expulsar os índios (ainda que dentro da terra indígena).

A decisão corroborava uma da Justiça Civil, de dois meses antes, que concedeu um interdito proibitório a favor da Vale contra os índios, pela caneta do juiz Cesar Lins. Indígenas cobram da Vale o pagamento de uma compensação por seus trilhos cortarem a reserva, com base numa resolução dos anos 1980. Depois da decisão do juiz Lins, a empresa suspendeu o pagamento.

O espelho do filme sobre a história da Vale abriu a porta para Concita falar: “Quando a Vale chegou, ela não nos perguntou se o local onde iria passar a estrada era importante para nós”. Hoje, disse: “Usam uma série de considerandos para não cumprir as suas obrigações”. 

Na plateia, por acaso, estava o juiz Lins, que até esse momento se vangloriava de sua decisão, comentando o filme a um amigo sentado a seu lado. Mas acabou assistindo também ao discurso de Concita, que só foi possível pelas posições invertidas pelo cinema. Sua fala foi registrada e ela queria passar o vídeo, juntamente com o filme, na escola da aldeia. O juiz foi tocar bateria na banda que se apresentou depois do festival.