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Número 846,

Sociedade

Brasiliana

Tigrinho e o Diabo

por René Ruschel — publicado 03/05/2015 05h15
Norberto Domaradzki e sua vida (quase) isolada em um arquipélago no Rio Paraná
René Ruschel
Tigrinho

O apelido Tigrinho veio das Sardas e a cadela Princesa é companhia frequente.

Na linha imaginária entre o lago de Itaipu e o Rio Paraná, em Guaíra, a 680 quilômetros de Curitiba, fica a Ilha do Diabo. O nome não faz jus à beleza e à paz de um local cercado de vegetação rasteira, arbustos e uma pequena casa de madeira que retrata a arquitetura ribeirinha. Ao anoitecer, os pássaros chegam em bandos como legítimos proprietários do lugar. Ao amanhecer, uma sinfonia anuncia outro dia de absoluta calmaria e previsibilidade. Não são os únicos. Tigrinho faz companhia às aves. Princesa, uma cadela vira-lata, é sua fiel escudeira. O rádio de pilha o conecta com o mundo. Um pequeno barco de popa é seu meio de transporte. O dia e a noite não têm hora. Basta o sol nascer e se pôr.

Aos 72 anos, Norberto Domaradzki, descendente de poloneses e ucranianos, vive sozinho em uma área com menos de 0,4 hectare. “Não vivo isolado porque tenho seis filhos, amigos, e eles estão sempre por aqui.” O apelido, Tigrinho, surgiu por causa da pele ruiva e das inúmeras sardas. Nascido em São Paulo onde hoje é o bairro do Brooklin, não guarda lembranças da metrópole. O pai, proprietário de uma chácara de 6 alqueires, criava galinhas poedeiras e trocou a capital paulista pelo interior do Paraná por questões de saúde. “Foi em 1946 e eu tinha 3 anos de idade.” Pelo imóvel, localizado onde hoje é um dos bairros mais valorizados de São Paulo, a família recebeu como primeira parcela de pagamento a quantia de 250 mil réis. Nunca mais voltou à Pauliceia.

A primeira parada dos Domaradzki foi em União da Vitória, no sul paranaense. Depois Toledo, no oeste. A viagem de carroça durou oito dias. Em 1948, o pai recebeu um convite para ser gerente de um hotel em Porto Britânia, às margens do Rio Paraná. À época, o movimento de navios era intenso entre a paulista Presidente Epitácio e Guaíra. As Sete Quedas, maravilha da natureza engolida pela Hidrelétrica de Itaipu, interrompia o fluxo mercante, mas Porto Britânia ficava logo abaixo. Lá começava o tráfego fluvial do Serviço de Navegação da Bacia do Prata, do Sul do Brasil ao Paraguai, Argentina e Uruguai. Em 1950, a família se mudaria de vez para Guaíra, o novo oásis da navegação.

O menino Tigrinho cresceu nesse universo. Em vez de carros, sonhava com barcos e navios. Aos 12 anos pilotava pequenas embarcações pelas águas barrentas do “Paranazão”. Aprendeu com os mais velhos os segredos do rio, seus perigos e emboscadas. “Tenho um enorme fascínio pela natureza e pela água. Não sei viver longe desse mundo encantado e cheio de mistérios.” Em 1957, acompanhou o pai em sua primeira aventura: viver e trabalhar em Ilha Grande, no mesmo Rio Paraná, hoje transformada em Parque Nacional. A experiência durou até 1964, quando uma enchente destruiu a produção agrícola e as poucas benfeitorias.

A alternativa foi retomar o trabalho nos barcos. Mais experiente, expandiu fronteiras em busca de outros portos. Mato Grosso, ainda não dividido em dois, era o caminho natural. Subiu o Rio Paraná até encontrar o Iguatemi, seu afluente. Daí, o porto 1º de Outubro, à época o último ancoradouro navegável e de onde saía a erva-mate para ser exportada aos países do Cone Sul.  A viagem podia durar até quatro dias. Na embarcação exercia todas as funções, de comandante a mecânico ou marujo. Em 1979, o Rio Paraná ficou pequeno e ele fincou raízes no Tocantins. Depois, Belém e Santarém, na foz do Rio Tapajós, no Pará. Queria mais e foi parar em Rondônia. A serviço do IBGE, navegou por mais 800 quilômetros pelo Guaporé. “Fui trabalhar no Recenseamento e naveguei pelas margens e braços do rio em busca de gente e de boi.”

No início dos anos 2000, voltou a Guaíra. Mora na Ilha do Diabo em companhia dos cinco filhos do primeiro casamento. A filha mais nova, fruto de outro relacionamento, ficou em Manaus. Ganhou o direito de viver na ilha pertencente à União e de lá não pretende sair. Recebeu uma boa proposta financeira para transferir os direitos de usufruto a um grupo de empresários, mas a rejeitou, apesar de ganhar apenas um salário mínimo por mês, fruto de uma aposentadoria. “Pra mim, dinheiro não tem o menor valor. Quero viver em paz com a natureza, pescar o meu almoço e jantar, ouvir o canto dos pássaros e receber amigos e familiares.”

Talvez faça uma última aventura. Em 2013, obteve da Marinha a Caderneta de Inscrição e Registro, autorização para trabalhar como marinheiro em qualquer embarcação. A filha, pela internet, descobriu o endereço de parentes na Polônia e Romênia. Quem sabe Tigrinho se aventure em uma nova odisseia e cruze o oceano em busca de suas raízes. Só assim para deixar por um tempo a ilha na qual pretende assistir ao último pôr do sol.