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Número 846,

Cultura

Gastronomia

O meu marido Lineu

por Marcio Alemão publicado 27/04/2015 04h31, última modificação 24/06/2015 16h48
Lineu virou um sujeito tenso. Bebe preocupado em acertar, em polemizar, em se destacar
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Lineu

Você acredita que o Lineu gostava de vinho com açúcar e gelo quando nos conhecemos?

No estacionamento em frente à elegante loja de vinhos chegam ao mesmo tempo três Land Rover Evoque pretos.
Seguranças se comunicam. Todos muito bem treinados na arte de ostentar mau humor constante.
Depois de constatarem a ausência de presença terrorista ou marginal, liberam a porta.
A patroa muito bem-arrumada, ainda jovem, demonstra profundo tédio ao deixar o veículo.
Entra e imediatamente é recebida por um vendedor, igualmente elegante e jovem.
- Pois não. Posso ajudá-la?
- As chances são pequenas, mas vamos tentar.
- Vamos tentar.
- Meu marido é uma pessoa chata.
- Acontece.
- Não era.
- Acontece.
- Eu tenho pensado seriamente em mandá-lo para o meio do inferno, para dizer o mínimo e de modo eufêmico.
- Entendo e acredito que em algum momento eu, Elcio, vendedor da Maison Française, irei saber o real motivo que a trouxe até aqui.
- Um vinho para o Lineu, meu marido, que vai completar 40 anos.
- Temos várias opções.
- Caras?
- Caríssimas, se preferir.
- Notas altas de Robert Parker Jr., Decanter, Jancis Robinson, Wine Spectator?
- Dinheiro não é o problema, certo?
- Tampouco a solução.
- Bordeaux 2000. Tenho verdadeiras raridades.
- Duvido que supere as que Lineu coleciona. Expulsou nossa filha menor de seu quarto e montou uma adega só para Bordeaux 2000.
- Modo de falar ou...
- Nunca mais vi Lucila.
- Achados do novo mundo que cer...
- Não irá emocioná-lo. Trocou nosso filho do meio, Claudinei, por uma velha vinha em Napa Valley que produz alguns dos melhores californianos do planeta.
- Por quê? Por quê? Por que alguém chama o filho de Claudinei?
- Você não faz ideia a quantidade de erros que temos cometido ao longo de nossos 20 anos de casamento. Eu vou embora.
- Fique! Quem sabe eu possa sugerir um conjunto de copos, cristais do Sahara, raros como a cana-de-açúcar siberiana.
- Você acredita que ele gostava de vinho com açúcar e gelo quando nos conhecemos?
- Não.
- E harmonizava com churros recheados de Catupiry.
- Mas aí vieram os cursos.
- Os cursos, os arquitetos projetando as adegas, os enólogos sugerindo mudanças, os sommeliers reservando caixas de raridades, os leiloeiros antecipando barbadas.
- E ele se transformou num apaixonado.
- Num puta chato, se você me permite o uso dessa palavra de baixo calão. Perdeu o prazer. Não estala mais a língua, não enche o copo de requeijão, não enche mais a cara e me chama de lindona, paixão, churro de dulce de letche! Virou um sujeito tenso. Bebe preocupado em acertar, em polemizar, em se destacar.
- Perdeu o tesão, se a senhora me permite o uso do termo chulo.
- E tem solução?
- Acho que não.
- Suicídio?
- Antes eu recomendaria a separação. Mas, antes ainda, eu recomendaria um lingerie especial, um churro de Catupiry, Fanta Uva e uma velha canção, só de vocês.


Na intenção de arrumar um jeito pra voltar pra revista sem falar do que falava, mas ainda dentro do tema, fui me lembrar que ao longo desse tempo ouvi muita coisa divertida. Muitas besteiras, muitas joias, pensamentos brilhantes, equivocados, alucinados.
Juntei lé com cré e imaginei que a ficção me serviria bem.
Reproduzir, inventando e relembrando, diálogos, papos que sempre irão estar ao redor de uma mesa, de uma ideia gastronômica.
Daí a sugestão de iniciar o PAPINHO GOURMET.
Uma brincadeira saborosa, feita de garfos, facas, copos e agulhas.
A acidez irá prevalecer sobre a doçura e, caso você tenha alguma história interessante, divertida, bizarra e acredite que eu possa transformá-la num PAPINHO GOURMET, meu email é [email protected] que gostem.