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Número 846,

Política

Rosa dos Ventos

O jabuti de Cunha

por Mauricio Dias publicado 18/04/2015 09h10, última modificação 11/06/2015 17h36
Enxerto ilegal em MP, apoiado por Eduardo Cunha, torna incêndio de shopping em desastre natural e pode liberar 50 milhões de reais do BNDES
Zeca Ribeiro/Fotos Públicas

Após botar grande parte do bloco do “baixo clero” da Câmara sob seu sovaco, o deputado Eduardo Cunha, presidente da Casa, ao sabor do duvidoso objetivo de resgatar a independência do Legislativo, virou vedete da direita escrita, falada, televisada e, assim, estabeleceu como prioridade a velocidade e não a qualidade dos resultados aprovados em plenário.

Não há partido que não se curve aos desígnios dele, até porque, justiça se faça, poucos conhecem como Cunha os labirintos e os mistérios regimentais. Em compensação, depois de três mandatos, a Câmara conhece bem os vícios do atual presidente. Antes de alcançar a presidência era costume dele enxertar nas Medidas Provisórias emendas sem vínculo com o teor das mesmas. Agora, para se resguardar, usa seus sequazes.

Quinta-feira 9, a partir de um bate-boca iniciado às 15h22 em torno da MP 661/2014, relatada pelo deputado Leonardo Quintão (PMDB-MG), escudeiro de Cunha. O qual subjugou aos parlamentares do governo e da oposição para manter o enxerto na MP, que, entre outras causas estranhas, transforma em desastre natural um incêndio no Shopping Nova América, no Rio de Janeiro, domicílio eleitoral de Cunha. Abaixo o diálogo.

Silvio Costa (PSC-PE) - Sr. presidente, uma questão de ordem.

Eduardo Cunha - Qual o artigo?

Costa - Eu vou ler. Tenho cinco minutos.

Cunha - Não tem não. Se não disser o artigo, não tem um minuto.

Costa - É baseada no artigo 95.

Cunha - Não há questão de ordem no artigo 95.

Costa - Eu quero alertar o plenário para uma indecência. O deputado Leonardo Quintão está autorizando o BNDES a conceder 50 milhões de reais para um shopping. Desde quando incêndio é desastre natural? É um jabuti, dos maiores que já vi aqui.

Cunha - Não há questão de ordem. O parecer já foi votado e aprovado na admissibilidade e no mérito.

Esperidião Amin (PP-SC) - É muito triste dar como fato consumado algo tão gritantemente casuístico e descabido.

Costa - Isso é uma imoralidade.

Mendonça Filho (DEM-PE) - Ao longo da minha vida pública, eu nunca vi se aprovar uma lei em que conste um artigo ou um parágrafo que obriga a concessão de empréstimo a uma empresa especificada no diploma legal. Isso é uma coisa que desmoraliza o Parlamento, depõe contra nós. Situação constrangedora.

Roberto Freire (PPS-PE) - Sr. presidente, apenas para...

Cunha - Sou obrigado a conduzir a sessão dentro daquilo que está no regimento.

Costa - Presidente, artigo 96, é uma reclamação.

Cunha - Não existe isso.

Costa - Eu quero fazer a reclamação.

Cunha - Não cabe neste momento.

Costa - Cabe.

Cunha - Não cabe.

Costa - Eu quero fazer!

Cunha - Não cabe.

Depois desse desfecho, sem ter conseguido ser ouvido ao longo do bate-boca, o deputado Roberto Freire dizia nos corredores da Câmara: “Ele é um cara de pau”.