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Número 845,

Cultura

Papinho Gourmet

Vou virar chef

por Marcio Alemão publicado 18/04/2015 09h08
Chef moderno, descolado, transado, tem de ter tatuagem e raspar a cabeça
Marty Desilets/Flickr
Chef

"Arroz e feijão tá super na moda, sabia? Tem chef da pesada que tá focando forte no arroz feijão e fazendo uma grana"

No início deste ano, pedi a conta e declinei do café, considerando o preço. Disse-me farto da atual cena gastronômica e continuo. Mas existe algo de que não me farto jamais: manter esse contato com vocês, leitores. Tentei achar uma maneira de voltar, diferente daquela que pratiquei ao longo de 11 anos. Pois fui me lembrar de que ao longo desse tempo ouvi muita coisa divertida. Muitas besteiras, muitas joias, pensamentos brilhantes, equivocados, alucinados.

Juntei lé com cré e imaginei que a ficção me serviria bem. Reproduzir, inventando e relembrando, diálogos, papos que sempre vão estar ao redor de uma mesa, de uma ideia gastronômica. Uma brincadeira saborosa, feita de garfos, facas, copos e agulhas.

A acidez prevalecerá sobre a doçura e, caso você tenha alguma história divertida, bizarra e acredite que eu possa transformá-la num PAPINHO GOURMET, meu e-mail segue no pé do texto.

O namoradão chega em casa, todo enrolado em papel filme. A namoradinha pergunta:
- Vai passar uns dias na geladeira?
- Quase. Decidi que vou virar chef.
- Chefe do quê? Nem pra ser empregado você tem talento.
- Chef de cozinha.
- Ah, tá!  Legal. Boa sorte.
- Como assim? Só isso? Não vai pular no meu pescoço, me cobrir de beijo, ficar toda excitada?
- Você realmente acha que eu deveria fazer tudo isso? Nessa ordem ou, sei lá, de repente eu poderia ficar excitada primeiro?
- É... acho que assim também rola.
- Só que não.
- Eu acho que você ainda não realizou o que te falei.
- Pode ser. Eu sou meio lenta. Ou talvez eu tenha ficado impressionada com você desse jeito, parecendo um frango velho todo enrolado.
- Sabe por que eu tô assim?
- Você leu que isso faz bem; papel filme no corpo elimina radicais livres.
- Não. Quer tentar mais uma vez?
- Acho melhor você me contar e a gente encerrar essa estimulante conversa.
- Lembra o que falei?
- Agora você me pegou. Você falou tantas coisas importantes desde que chegou...
- Que vou virar chef.
- É verdade. Você nunca ferveu uma água, preparou um Miojo, temperou uma cenoura, mas vai virar chef.
- Calma. Eu sei que não é tão simples.
- Sério? Você andou lendo, seu danadinho?
- Um pouco. Mas tô ligado direto no que tá rolando na tevê.
- Faz sentido. São quantos programas de cozinha? Sete mil?
- E você sabe que sou um cara superantenado.
- Super.
- E o que saquei?
- Meu Deus, que medo de perguntar.
- Posso falar?
- Vai. Manda.
- Chef moderno, descolado, transado, tem de ter tatuagem. Sacou o papel filme?
- Caraca! E não é que você tem razão?
- Ouve o plano: primeiro as tatoos...
- Raspar o cabelo. Chef moderno é careca.
- Eu tinha pensado num rabo de cavalo.
- Mas aí você tinha de ter sotaque argentino.
- Então eu raspo. Careca e com tatuagem...
- 50% do caminho andado. E grana pra abrir o restaurante.
- Pensei num truck.
- Truque de mágica?
- Truck, caminhão, van. Tô pensando em dar uma tunada na Veraneio do velho. Precisa fazer o motor.
- Nem precisa. Food truck em Sampa não anda. O problema da Veraneio é que pra toda uma galera, lembra o tempo da repressão.
- Meu! Que ideia gênia! ABAIXO A REPRESSÃO. VEM COMER ARROZ FEIJÃO!
- Isso seria o slogan?
- Não. O nome do truck. Arroz feijão tá super na moda, sabia? Tem chef da pesada que tá focando forte no arroz feijão e fazendo uma grana.
- Só arroz feijão?
- Pensei em paleta mexicana também. E tapioca.
- Hambúrguer gourmet, formiga, barriga e bochecha de porco, não?
- Depois. Agora vou focar no arroz feijão, paleta e tapioca.
- Já deu água na boca. E você vai aprender a cozinhar quando?
- Tem certeza de que precisa?

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