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Número 845,

Cultura

Exposição

Masp, o museu das luzes

por Rosane Pavam publicado 17/04/2015 03h22
A arte brasileira do século XX é exibida no Masp de modo a recuperar as ideias do fundador Pietro Maria Bardi
São Francisco

São Francisco, óleo sobre tela de Portinari, 1941

Fora dos limites e sem adjetivos. Este era o Museu de Arte de São Paulo criado por Pietro Maria Bardi em 1947. O Masp não privilegiaria a produção antiga ou a moderna. Segundo acreditava o crítico, historiador e antigo diretor da Galleria d’Arte di Roma, seu museu trabalharia apenas com arte. Eis por que, naquela São Paulo imberbe de referências culturais, a novíssima instituição internacional por ele planejada navegaria contra a tradição, não apenas conservando obras, mas ensinando e promovendo o fazer artístico. Deste modo situado no centro do mundo cultural, São Paulo ganharia seu mais autêntico “antimuseu”, capaz até mesmo de mudar a cidade, como saudara o arquiteto Le Corbusier.

Quase sete décadas depois de sua fundação, no primeiro andar do edifício em obras dos Diários Associados, à Rua 7 de Abril paulistana, o Masp, que ocupa desde 1968 a sede projetada por Lina Bo Bardi na Avenida Paulista, talvez estivesse muito próximo de armazenar a “arte catalogada, encaixotada, pendurada numa parede, isolada numa vitrine”, na contramão do desejo inicial de seu diretor por quatro décadas. Mas agora um movimento na direção de recolocar o propósito inicial do museu parece se estabelecer. Para que o Masp recupere suas luzes como o “organismo em atividade” projetado por seu fundador, voltam no segundo semestre os cavaletes de vidro idealizados pela arquiteta Lina Bo Bardi. Criados para ampliar o vislumbre das obras, eles também impedem a classificação por períodos. A exposição simultânea de telas de diferentes épocas nos cavaletes segue, assim, a crença de Bardi de que “a arte é uma só, não tem limites de tempo, não tem limites de espaço”.

A partir desta semana, até 28 de junho, a mostra Arte do Brasil no Século 20
retoma no primeiro andar a série de exibições que a equipe curatorial do museu (Fernando Oliva, Luiza Proença e o diretor artístico Adriano Pedrosa) organiza para 2015, sempre a partir de seu acervo. Trata-se de um complemento à mostra Arte do Brasil até 1900, no segundo subsolo desde 26 de março. As quase cem obras da nova exposição, algumas delas até então mantidas em reserva técnica pelo museu, representam o caminho percorrido por Bardi desde que seu projeto se tornou uma realidade levada a cabo por Assis Chateaubriand. Da pintura a óleo às gravuras, da colagem à fotografia, imprime-se a marca do civilizador europeu. Por meio de cartas, fotografias, folhetos, catálogos e textos diversos, o visitante conhecerá seu esforço em adquirir obras e promover doações dos artistas, esses a quem, como ocorreria com Anita Malfatti ou Lasar Segall, o diretor ofereceria bem-sucedidas retrospectivas.

Bardi entendia também como seu papel escrever de forma didática sobre a arte. Fez isso especialmente durante a ditadura, como um combate ao empobrecimento político, humano e cultural do Brasil. A seu estilo pessoal, os textos eram diretos. Aquele de 1948, intitulado Portinari, um Pintor Popular, celebrava a sofisticada interpretação do País promovida por um de seus principais artistas. Seria do mestre o primeiro quadro adquirido para o museu, o óleo sobre tela São Francisco, de 1941. Uma carta de Bardi ao pintor, apresentada nesta exposição, é um delicioso comentário a este apreço.

Tarsila
A pintora Tarsila do Amaral segundo Flávio de Carvalho (1971)

“Como você sabe, já encerramos sua exposição e abrimos a de arte popular nordestina”, escreve em janeiro de 1949. “Se de um lado tivemos uma afluência de público nunca vista no Museu visitando os seus quadros, a tal ponto que fomos obrigados a retirar o livro da porta, com uma venda de mil catálogos em cinco dias, de outro lado não correspondeu à nossa esperança a venda dos quadros.” E prossegue, sabedor de como levantar os ânimos: “De qualquer maneira você sabe com que alegria adquirimos os três grandes dos retirantes. Serão das melhores peças do nosso Museu. Espero que ao menos você me responda a esta carta, seu grande preguiçoso”.

A missiva é exibida nesta mostra, que, se ainda não pode contar com os célebres cavaletes, pelo menos repete os painéis suspensos confeccionados pela arquiteta Lina Bo Bardi para a sede da 7 de Abril. As obras, que ganham em transparência com esse modo de expor, obedecem a uma ordenação cronológica, da mais antiga à mais recente, mas não se veem destacadas por escolas, estilos ou períodos, a seguir o intento de Bardi, para quem seria sempre necessário exaltar o que a arte contivesse de “clássico, isto é, de acertado, de persuasivo, de moderno e de eterno”.

Modernos e eternos seriam, para ele, tanto Segall, que julgava desvalorizado no Brasil por ser estrangeiro, negado à seção brasileira da Bienal Internacional de Arte de Veneza, quanto Flávio de Carvalho, a quem reverenciava por seu “prazer em desmanchar tudo o que era por demais canônico, sempre presente nas raras primeiras filas das poucas, aliás pouquíssimas, polêmicas”. O pintor está representado em duas obras na exposição, o óleo sobre tela Nu Feminino Deitado, do início de sua carreira, em 1932, e a tinta acrílica sobre tela Retrato da Pintora Tarsila, de 1971. Apesar de o museu jamais ter feito uma retrospectiva da artista modernista, exibe agora, além dessa homenagem de Flávio de Carvalho, o pastel sobre papel Retrato de Tarsila, sem data, de Anita Malfatti, cujo óleo sobre tela A Estudante (1915) também está presente.

As vozes do modernismo foram aquelas que o diretor ecoou a partir de suas relações pessoais. Perto de 905 das obras expostas, informa a curadora Luiza Proença, vieram de doações dos 50 artistas representados na exposição. Embora não privilegiasse os trabalhos abstratos, geométricos ou performáticos, Bardi deu extremo valor, por exemplo, a obras fotográficas como aquela Yanomami, de Claudia Andujar (1974), doada ao acervo pela Fundação Pirelli. E para sempre destacou a arte popular de nomes como o de José Antonio da Silva, que surge na exibição com o óleo sobre tela Colheita de Algodão (1939), e a maestria das paisagens de Alberto da Veiga Guignard, como o óleo sobre madeira Paisagem de Ouro Preto (1950). É da artista Liane Chammas, intérprete insistente da discriminação e da intolerância, um dos destaques da exposição. Na tinta acrílica sobre tela Christiane e Anabella, de 1976, jamais exibida antes no Masp, duas jovens parecem surpreendidas pelo olhar intruso de quem as retrata. Uma delas, negra, está sentada e tem os cabelos acariciados por uma menina branca situada atrás, de pé.