Você está aqui: Página Inicial / Revista / Joaquim manda / Sarkozy no contra-ataque
Número 844,

Internacional

França

Sarkozy no contra-ataque

por Gianni Carta publicado 04/04/2015 09h04
Nas eleições departamentais, Hollande colhe o resultado do seu governo medíocre e Marine Le Pen mostra não ser por hora a ameaça mais temida
Michael Bunel/Nurphoto
Sarkozy

De volta à liderança da UMP, Sarkozy confirma ter a política nos genes

De Paris

Supostos especialistas em política se apressam a prever a ascensão, e até a vitória, da legenda de extrema-direita Frente Nacional na eleição presidencial de 2017, por causa de um impressionante resultado na eleições departamentais no primeiro turno em 22 de março da FN, e, apesar de uma trágica sequela no segundo turno um semana mais tarde, dia 29, quando não levou um único, escasso departamento. Por quê? Por dois motivos. No primeiro turno, a sigla direitista União por um Movimento Popular (UMP) aliou-se a legendas centristas. No segundo turno, os socialistas, inquietos com a vitória de radicais de direita, votaram na chamada “direita republicana”, que assim se autodenomina para tomar distância de inclinações direitistas da UMP próximas às da FN. O escrutínio era majoritário, não proporcional, e isso de fato prejudicou uma FN isenta de alianças. Mesmo assim, Marine Le Pen, líder da FN, mostrou que está implantada no mapa político do país. Mas ela tem chances de ser presidente?

Por ora, tudo não passa de especulações. Como diz François Hollande, “nada acontece como previsto”. De fato, a eleição do presidente Hollande, em 2012, é a maior prova de seu próprio refrão. Ademais, faltam dois anos para a presidencial. Nesses dias globalizantes, raras análises mais aprofundadas são secundadas pela informação veloz, acrítica. Para as plataformas de mídia, importa o lucro, cada vez mais resvaladio. Diletantes ignoram as diferenças entre pleitos locais. Não sabem avaliar o impacto de eleições locais em um pleito presidencial. Esclarece o sociólogo Jean-Yves Camus: “A Frente Nacional pode se consolidar, e assim exercer maior poder. Mas isso não repercute necessariamente em nível nacional. Da mesma forma, houve bastiões comunistas que duraram longos períodos, sem que o Partido Comunista Francês chegasse ao poder”. Em miúdos, o mesmo pode acontecer com a Frente Nacional.

Trata-se de um clássico. Escrutínios intermediários, isto é, entre pleitos presidenciais, não passam frequentemente de referendos contra o governo em qualquer país democrático. Presidentes e premiers são punidos. Vários são reeleitos. No entanto, essas departamentais alteraram, de forma excepcional, o tablado político francês. Evitemos inúteis especulações e mergulhemos nos fatos. E, em seguida, nas conclusões. De saída, o grande vencedor foi o direitista Nicolas Sarkozy. O grande perdedor, François Hollande. A FN tornou-se a terceira força política do país. A França deixou de ser um sistema bipartidário, agora é tripartidário.

Desiludido com sua derrota contra o socialista Hollande, em 2012, Sarkozy anunciou sua retirada da vida política. Significante parte dos franceses, pouco satisfeitos com sua performance, não chorou por Sarkozy. Mas o homem tem política nos genes. Em novembro, retomou a liderança da UMP. Um retorno no mínimo difícil. A UMP estava dividida. Sarkozy soube se impor. O plebiscito foi disputado. Sarkozy venceu com 65,4 % dos votos. Os derrotados cogitam das primárias, em 2016, para a presidencial. Entre os candidatos mais fortes destacam-se os ex-premiers Alain Juppé e François Fillon. Para tomar distância das posições direitistas de Sakozy, Juppé disse que a vitória nas departamentais foi “coletiva”. Mais: deveu-se à guinada para o centro da UMP.

De qualquer forma, a vitória de Sarkozy, em 2017, está longe de ser uma certeza, embora possível. Seus discursos são enérgicos, nada trazem de inovador. Ao vencer 67 em 101 departamentos, Sarkozy torna-se, porém, o político com maiores chances de ser o candidato presidencial da UMP, agora a maior legenda da oposição. E Sarkozy pode vencer Hollande. Além disso, a UMP está em alta, apesar das divisões na liderança. Além de ter vencido as departamentais, no ano passado levou as municipais. Há, é verdade, o contrapeso de um resultado bastante ruim nas europeias. E em dezembro terá de disputar as regionais, sob o sistema proporcional, que favorece a FN. Neste terreno, as previsões não são nada otimistas.

Outro problema para Sarkozy são as alianças. Como visto acima, centristas apoiaram a UMP nas departamentais. Será assim novamente nas regionais? E como se comportarão na presidencial? O ex-presidente precisa, ainda, reconquistar vários direitistas, agora eleitores da FN. Isso, é claro, sem ofender a “direita republicana”. Há outros percalços. Sarkozy tem de resolver contendas judiciárias espinhosas, como supostos financiamentos ilícitos de campanhas eleitorais.

Certamente, Sarkozy teria, é claro, o suporte dos centristas e dos socialistas no caso de uma derrota de Hollande no primeiro turno, pela simples razão de que no segundo turno a rival seria Le Pen. De certa forma, o cenário repetiria 2002. Jean-Marie Le Pen, pai de Marine e então líder da FN, venceu o candidato socialista, Lionel Jospin, no primeiro turno. Assim, os eleitores de esquerda correram às urnas para votar no conservador Jacques Chirac no segundo turno.

Por sua vez, Hollande parece ter ainda mais trabalho pela frente. No pleito recém-concluído, o Partido Socialista manteve apenas 34 departamentos. Nas municipais do ano passado, 150 cidades deixaram de ser lideradas por prefeitos socialistas. O quadro é altamente simbólico quando se considera que a Corrèze e a Essone, feudos de Hollande e de Manuel Valls, o premier no cargo há um ano, fazem parte dos departamentos reconquistados pela direita. Antes dos ataques terroristas de 11 de janeiro em Paris, Hollande tinha se tornado o presidente mais impopular na história da V República. Na ocasião, no entanto, portou-se como estadista. Seus discursos foram dignos, sempre em tom apropriado. A opinião pública o apreciou naqueles momentos trágicos que deixaram 17 mortos e uma população traumatizada. Mas a lua de mel durou pouco. O nível de desemprego continua a galopar.

Para piorar o quadro para os socialistas, Valls, que já propôs tirar o nome “socialista” da sigla, diz: “Não vou desviar da minha rota”. A rota, é claro, imporá reformas para liberalizar a economia. A ala esquerdista do PSF, a incluir o Parti de Gauche, os Verdes e o PCI, entre outros, diz que a derrota nas regionais tem o seguinte motivo: Hollande, ao vencer em 2012, prometia lutar contra a austeridade. Fez o contrário. Confessou até não ser socialista. Será difícil, portanto, ver uma esquerda unida para confrontar o UMP de Sarkozy, em 2017. Mas, como diz Hollande, nunca se sabe. E em dois anos poderia surgir outro candidato de esquerda.

Por sua vez, Marine Le Pen declarou, com razão, ao vespertino Le Monde: “Testemunhamos a maior reconfiguração do cenário político nos últimos 40 anos”. Mesmo assim, a FN não levou sequer um departamento, embora liderasse o pleito em 43 deles no primeiro turno. Como se não bastasse, apenas 62 conselheiros departamentais da FN foram eleitos. Detalhe: há 2.054 conselheiros no país. De qualquer forma, Le Pen virou uma personagem política, e mais hábil do que o truculento pai. Ao contrário de Jean-Marie, ela é convidada para entrevistas em todas as plataformas midiáticas. Acabou com o discurso antissemita. Atraiu mais eleitores na sua luta contra a globalização e contra a austeridade imposta pela União Europeia. Ela não poupa, porém, os estrangeiros, principalmente os muçulmanos, muitas vezes franceses, pela escassez de empregos. Nem por isso Le Pen é uma ameaça premente. Por ora.