Você está aqui: Página Inicial / Revista / Joaquim manda / A geografia andarilha em gravuras no MAC
Número 844,

Cultura

Artes Plásticas

A geografia andarilha em gravuras no MAC

por Rosane Pavam publicado 08/04/2015 03h50
Museu reúne as artes aproximadas no tempo dos artistas Oswaldo Goeldi e Evandro Carlos Jardim
Folhapress
Evandro Carlos

Tamanduateí, Contraluz 2, de Evandro Carlos Jardim, a arquitetura para entender a vida

Cada traço é um pedaço de nervo com a veemência de um coração bárbaro.” Assim definiu o próprio ofício o gravador, desenhista, ilustrador e professor Oswaldo Goeldi. Era como se estendesse à arte seu contínuo vagar pelas noites sem estrelas. O cenário das ilustrações e gravuras oscilava entre as ruas da misteriosa cidade e os pescadores em luta antes que a aurora chegasse. O discípulo Marcelo Grassman o entendia pessoalmente torturado como uma de suas composições noturnas. A obra era também o artista.

Inconformado com a injustiça social, o artista facilmente dividiria com um cão o sanduíche que matasse a própria fome no bar. Certa vez, Goeldi pensou em aceitar a imposição familiar e voltar a morar na Suíça, onde nasceram seus pais e ele estudara nos anos 1920. Ali talvez o compreendessem melhor, longe do provincianismo local. Mas o impediram de deixar o País Manuel Bandeira, Rachel de Queiroz e Raul Bopp, entre tantos outros luminares da cena carioca que sem ele não mais poderiam estar, nem mesmo pensar a própria escritura. Goeldi engrandecera de tons quase kafkianos a literatura desses autores ao ilustrar seus livros pela José Olympio.

Dos nervos sulcados com seu coração bárbaro um dia jorraram pequenos tons de sangue. Os vermelhos projetaram-se em suas xilogravuras. Ganharam essa cor nítida e urgente os guarda-chuvas, o sol, a lua, o mar, uma porta que dava em nada, o objeto aleatório dentro de um sonho ruim. Goeldi tornou-se vermelho como seu inconsciente artístico inconformista.

Eis que o Museu de Arte Contemporânea de São Paulo, no Ibirapuera, permite-nos agora assistir a essa expressão de cor em muitas das 12 preciosas obras de seu acervo, 11 gravuras e um desenho. Goeldi estará ali até novembro, gratuitamente. A mais bela surpresa na série será quase certamente a menor obra, aquela xilogravura sobre papel Pão de Açúcar, que, sem data, transforma o marco mágico do Rio em distopia. A natureza surge como um sonho preto em mínimo formato, 12 por 15 centímetros. As linhas do contorno do morro são, em realidade, indefinições da paisagem. Não parece haver um Rio ali, antes um impedimento triste aos sonhos tropicais.

As obras expostas no MAC são do fim de sua vida. Goeldi morreu na Quarta-feira de Cinzas de 1961, sozinho em seu apartamento no Rio. Era muito diferente de Evandro Carlos Jardim, 26 anos à época dessa morte. Tímido e sereno, morador de São Paulo, Jardim convivera com os personagens importantes da história do modernismo, como o crítico Sérgio Milliet. Estudara na Escola de Belas Artes e percorrera as bienais para admirar Edvard Munch, Oskar Kokoschka e Giorgio Morandi. No início, sua gravura era quase um desenho e pouco a pouco aumentaram as zonas gravadas nas chapas.

Na exposição do MAC estão seus trabalhos de início, dos anos 1960, em que ele misturou registros técnicos e estéticos. São intensos os exemplares da série Interlagos, de 1967, em que grandes formas negras invadidas pela luz revelam desenhos manchados na paisagem urbana.

O curador da exposição Goeldi/Jardim: A gravura e o compasso é também um gravador e professor. Luís Cláudio Mubarac, de 56 anos, aprendeu sobre o mestre durante as aulas que Evandro Carlos Jardim ministrou na Escola de Comunicações e Artes, em 1978. “Desde então, são duas referências fundantes para mim”, afirma o artista, que incorporou a 14 obras do acervo 16 peças vindas de um colecionador particular.

“O curioso da coleção do MAC é que boa parte das gravuras traz o Goeldi maduro e o jovem Jardim. A proximidade temporal me chamou atenção. Trabalhos estilisticamente tão diferentes mantêm uma luz crispada na elocução de suas cenas.” Mubarac não pretendeu construir uma tese sobre a coexistência dessas duas obras. “É uma aproximação afetiva aos seus universos. Há alguns pontos de contato nas errâncias dos dois, nos seus olhares para as margens das cidades, como geógrafos andarilhos da noite moral sobre a noite física, os ‘papeizinhos borrados que a gente guarda em pastas discretas’, como disseram Drummond e Mário de Andrade sobre Goeldi.”

As obras de Jardim são exuberantes desde seu ponto de observação. Ele não interfere na cena geral, apenas a particulariza em objetos. Não há tortura, só silêncio. Seus animais são espectadores melancólicos, estáticos. É um universo intimista o que surge com delicadeza das sombras das construções. O artista retrabalha as chapas e cria variações de suas ideias, como na série Tamanduateí, em que à torre referencial podem se somar cada vez mais colagens, como se atualizassem a eternidade arquitetônica com a banalidade das manchetes de revistas.

O que é desenho, o que é o sulco que se aprofunda, fica difícil determinar. Novembro, 1964 seria uma pintura aos olhos rápidos, mas em verdade trata-se da água forte e buril sobre papel. Interlagos XIV, Luz e Sombra, xilo e água- -forte sobre papel, de 1967, talvez passasse por fotografia contrastada. Verão, vento, noite, eis as sensações tão paulistanas reproduzidas com beleza pelo artista gentil, hoje com 80 anos.