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Número 842,

Cultura

Exposição

O oposto da morte

por Ana Ferraz publicado 30/03/2015 03h41
Museu Afro Brasil reaviva interesse pela obra de Henrique Oswald, mestre da gravura, do desenho e da pintura

Henrique Oswald pintava porque não lhe bastava o que via. Precisava materializar o que somente sua imaginação era capaz de conceber, uma miríade de visões internas em busca de escape. Imagens que tanto poderiam surgir inundadas de luz cálida como mergulhadas em sombra e solidão. “Se as cidades fossem como eu as pinto, a mim me bastaria contemplá-las. Há muita gente que se contenta com isso, com olhar o que lhe parece ser 100% belo. O pintor é justamente quem não se satisfaz com tal coisa”, escreveu ao crítico de arte Jayme Maurício Rodrigues Siqueira, em carta de 1964. Àquela altura, havia sido premiado diversas vezes pelo Salão Nacional de Belas Artes, tinha obras nos principais museus brasileiros e participação em quatro Bienais de São Paulo.

De linhagem de artistas, o avô, de quem herdou o nome, foi pianista e compositor respeitado, o pai, Carlos Oswald, mestre gravurista do Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro, Oswald conquistou a admiração da crítica, mas a vida interrompida pelo câncer aos 47 anos não lhe permitiu, transcorridos 50 anos de sua morte, chegar ao público de hoje. Em busca de reavivar o interesse em torno do artista, o Museu Afro Brasil realiza a exposição Henrique Oswald – Um gravador, um desenhista, um pintor: Uma obra em transmutação. Significativa, a mostra reúne 60 pinturas, gravuras e desenhos.

Durante oito meses, o restaurador Raul Carvalho trabalhou para recuperar cores e texturas. À exceção de três obras pertencentes ao diretor do Museu Afro Brasil, Emanoel Araujo, o acervo estava em posse da família de Oswald, em Salvador, e sofreu um processo de desgaste natural provocado pelo tempo. “Esta exposição vai suscitar uma redescoberta da obra dele em São Paulo, no Rio de Janeiro, na Bahia e no Paraná”, diz Araujo. Ex-aluno de gravura do mestre, o curador relembra que a última exposição de Oswald por aqui ocorreu em 1960, numa galeria particular, quando toda a obra foi vendida. Ele lamenta o fato de muito do que o artista produziu ter se perdido em razão de uma técnica de tratamento aplicada sobre a pintura. Por ser mais forte que o suporte, a solução provocou o craquelamento da tinta.

O curador lastima ainda o desprezo que recaiu sobre a arte da gravura. “Caiu no esquecimento. O Brasil não valoriza papel, que precisa de conservação. Há uma classe social aqui que rejeita o papel até pela questão do vidro que protege a obra. O que muitos não sabem é que por ter fibra longa o papel é mais resistente que o tecido. Os gravadores foram desaparecendo e a gravura caiu numa situação difícil pela própria técnica, que exige tempo, paciência e habilidade.”

Homem de bela figura, jeito tímido e elegância que o levava a considerar ter aprendido mais do que ensinado, Oswald dominou todas as técnicas. No retrato de família projetado na parede, ele é o garoto eleito para dividir a cadeira com o avô músico, o olhar sério e profundo projetado ao longe, os braços cruzados apoiados sobre a perna do patriarca. A seriedade sem tristeza e a presença cordial que se cristalizaram na maturidade, associadas ao talento e à alma que declarou baiana encantaram Jorge Amado. “Foi aqui, diante desses sobrados, dessas igrejas, dessa humanidade cordial que ele se encontrou”, escreveu o autor de Capitães de Areia, livro cujo tema o artista plástico retratou em óleo sobre tela. Em tons de sépia, lá estão quatro garotos negros e magros  no cais, um mordisca uma fruta retirada de um cesto posto ao lado, displicente. A economia de cores faz sobressair o jogo de luz e sombra que Oswald dominava. “Impressiona”, comenta o curador.

“Ele usava uma técnica à maneira holandesa de pintar, aplicava uma camada muito fina de tinta sobre tinta, até alcançar as cores mais densas. A lavagem do pigmento com o verniz processa as diferentes camadas. Oswald sempre utilizou tons ferrosos com pequenas introduções de azul e verde”, explica Araujo, que era um jovem de 20 anos apaixonado por gravura quando iniciou as aulas com o mestre que exercia o ofício com gosto, generosidade e interesse em descobrir talentos. “Ele ensinava os caminhos, dividiu muito a vida de professor com a obra. Ensinar é um ato de verdadeira abnegação, pois a arte fica num plano quase secundário.”

A exposição começa de trás para a frente, inversão da ordem cronológica que favorece o impacto. Casarão Vermelho (1965) e Casarão Rosa (1965), ambos na técnica de óleo sobre duratex, estão dispostos lado a lado. Luz e sombra delineiam o casario envolto em transparência e mistério. Na casa rosada, o craquelado involuntário confere um ar de passagem do tempo. Com técnica mista de pintura e colagem, Oswald inclui-se na obra A Igreja e o Artista, o olhar perscrutador que mira de dentro para fora do cenário criado em variações de amarelo-terroso. Os retratos da amada Jacyra, pintados com um intervalo de dez anos, em 1952 e 1962, imantam o visitante. Vestido listrado, rosto virado de lado, uma flor delicada pende dos dedos da bonita mulher de cabelos negros. Madura, posa para o artista de braços cruzados e sóbrio vestido preto, uma sombra tolda o rosto e dissolve-se na composição.

Em algumas obras Oswald assinou várias vezes. Em outras, incluiu pequenos escritos. “Ele era muitos”, comenta o curador. A série de desenhos é a última do artista. “São grandes desenhos com tinta gráfica em que utiliza o espaço branco de forma geométrica para fazer uma figuração expressionista. Aqui usa diversos tons de cinza, uma espécie de volta à gravura. É uma obra muito rica de soluções gráficas, de espaços, de claros e escuros. Essa série forma um conjunto expressionista muito importante, é uma metamorfose do ser humano.”

Homem de grandes preocupações sociais, Oswald transmitiu o entorno de forma dramática. Entre as gravuras, Inflação (1954) é eloquente. O homem debruçado sobre si mesmo, o chapéu a esconder o rosto e a mão cerrada, é a imagem do desespero. Para Oswald, num país que “luta para a solução de problemas de vida ou morte”, a arte é o antídoto. “A arte é o contrário da luta pela vida, o contrário da luta, o contrário da guerra, o contrário da morte.”