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Número 841,

Economia

Análise/Delfim Netto

Ainda dá tempo

por Delfim Netto publicado 16/03/2015 04h07, última modificação 10/06/2015 18h19
Diante das dificuldades enfrentadas, Dilma escolheu um caminho mais realista, é preciso reconhecer
Roberto Stuckert Filho /PR
Dilma

Dilma se aproximou da administração "normal" dos países mais bem-sucedidos

O objetivo final da nossa organização social é permitir a cada um construir a sua própria humanidade, que não se esgota no trabalho exigido para sua pura subsistência. Pelo contrário, é preciso deixar a cada cidadão mais tempo para realizar-se plenamente, o que exige dele cada vez maior produtividade no trabalho de atender às suas necessidades materiais. Há, aqui, um velho trilema produzido pela natureza humana e comprovado historicamente. Depois de uma seleção quase natural, que dura pelo menos 150 mil anos, os homens não encontraram, ainda, uma organização social que maximize, ao mesmo tempo, a liberdade individual, a igualdade e a eficiência produtiva que lhes permitiria gozar plenamente as duas primeiras.

Desde o começo do século XVIII, ficou claro que elas só poderiam ser acessadas assintoticamente. Trata-se de um jogo entre a eficiência da organização da economia pelos “mercados” (que ignoram a igualdade e aceitam a liberdade) e a diabólica invenção do sufrágio universal (a “urna”) gestada pela pressão da organização dos trabalhadores, que insiste na igualdade, mesmo à custa de alguma redução no aumento da eficiência. O jogo progride sob o efeito “catraca”: a melhora de qualquer uma delas (liberdade, igualdade, eficiência) só é aceita pela urna quando não exige o retrocesso significativo de nenhuma das outras duas.

A Constituição de 1988 deixou abertas diversas possibilidades para papel interventor do Estado no campo da organização econômica, todas sujeitas ao controle que ela mesma instituiu. Está mais do que na hora de o Brasil tentar encarar como será o seu encontro com o futuro, digamos 2050. A população mundial terá atingido 9,6 bilhões de habitantes, 1,2 bilhão a mais do que a de 2010, principalmente na África e na Ásia (ex-Japão) que têm baixo nível de renda e farão tudo (até guerra!) para ampliá-lo, aumentando a pressão sobre os recursos naturais e a deterioração ambiental. A nossa, depois de crescer até 2040, terá diminuído para 226 milhões, 14% dela com idade de até 14 anos e 23% com idade superior a 65 anos. Estaremos condenados a ser apenas uma sociedade de velhos que não tiveram a coragem de tentar ser ricos?

Se a nossa política continuar oscilando entre uma direita truculenta, vítima da mais profunda idiotia, e uma esquerda primitiva, de assustadora ignorância e não menos agressiva, que têm como contrapartida intelectual no campo da economia, respectivamente, o assassinato do Estado e a sua divinização, vamos cumprir aquele destino.

É hora de abandonar a filosofia laxista que se impôs nas últimas três décadas, segundo a qual 70% de nossos problemas o tempo resolve e os outros 30% são insolúveis! A falta de pensar o futuro é visível nas tragédias recorrentes que estamos vivendo. Não pode ser por acaso que em pleno 2015 estejamos revivendo a marchinha-sucesso dos carnavais do início dos anos 60 do século passado, em que se cantava o Brasil como o “país em que de dia falta água e de noite falta luz”. Isso sugere, sem surpresa, que as mesmas causas sempre produzem os mesmos efeitos...

Por mais preconceituosas que sejam as desconfianças de parte da sociedade, é preciso reconhecer que, diante das dificuldades enfrentadas em 2011-2014, a presidenta Dilma escolheu um caminho mais realista que nos aproximará da administração “normal” dos países mais bem-sucedidos: Estado forte, mas regulado; mais regulador do que interventor; finança pública bem organizada; reforço das garantias jurídicas; liberdade de empreender e reter os seus benefícios: estímulo à competição, ao investimento e à exportação; intolerância com o abuso do poder econômico e, finalmente, coordenação das políticas fiscal, salarial, cambial e monetária para obter alto nível de emprego pelo crescimento do PIB, com equilíbrio interno (taxa de inflação parecida com a externa) e equilíbrio externo (déficit em conta corrente financial).

O caminho é claro, mas é também íngreme, duro e pedregoso. Só nos conduzirá ao destino se for honesto e fortemente apoiado por toda a sociedade. É, de fato, uma razoável alternativa, dentro dos limites políticos hoje exploráveis, para que em 2050 não sejamos aquele país de velhinhos que jogou fora a chance de eles se realizarem mais plenamente...