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Número 840,

Cultura

Música

Abel Ferreira: meu coração bate feliz

por Ana Ferraz publicado 15/03/2015 09h35
No centenário do clarinetista, o chorinho mostra-se mais forte que a falta de incentivo e o descaso
Paulo Dimas

No ano em que o maior clarinetista que o Brasil conheceu, Abel Ferreira, faria 100 anos, o choro dá mostras de vivacidade. É quase um paradoxo que essa riquíssima manifestação da genuína alma brasileira seja forte o suficiente para driblar a falta de incentivos oficiais, a insensibilidade dos meios de comunicação e a amnésia generalizada. “Passamos por tudo e Carinhoso, de Pixinguinha, ainda é a composição mais executada no Brasil. Por onde caminha essa música fora da mídia? Pela alma do povo”, diz o bandolinista, compositor e pesquisador fluminense Carlos Henrique Machado Freitas.

Natural de Volta Redonda, Freitas acompanha há anos o cenário musical local e nacional e garante que novos talentos não faltam ao gênero dolente, cuja arquitetura musical compara a uma harmoniosa curva que habita cada um de nós, “um elemento psicológico coletivo”. Ao comentar anúncio feito em 23 de fevereiro pelo secretário de Cultura de São Paulo, Nabil Bonduki, da criação de um Clube do Choro em parceria com o Theatro Municipal, fusão entre escola para ensino de instrumentos e espaço para realização de encontros musicais e shows, o compositor alerta para o risco de perda da espontaneidade: “Para torná-lo adequado e realmente original será necessário produzir um ambiente social próximo da base”.

Freitas considera bons exemplos institucionais a Escola Portátil de Música do Rio de Janeiro, com cerca de 1,1 mil alunos, patrocínio federal e direção do instrumentista e arranjador Mauricio Carrilho, sobrinho do flautista Altamiro Carrilho, e da instrumentista e compositora Luciana Rabello, irmã do violonista Raphael Rabello. E também o Clube do Choro de Brasília, com expressividade dentro e fora do País, “um marco que se opôs a toda nossa lógica de pensar uma instituição cultural”.

Izaías Bueno, bandolinista há 60 anos, solista do histórico Conjunto Atlântico que conviveu com figuras essenciais como Jacob do Bandolim, Pixinguinha, Canhoto e Abel Ferreira, frisa que a iniciativa de Bonduki (ainda não confirmada pelas assessorias de comunicação da Secretaria de Cultura nem do Theatro Municipal) não é nova. Em agosto de 1978 participou da criação do primeiro Clube do Choro ao lado do maestro Benjamin Silva Araújo, o jornalista Oswaldo Luiz Vitta, o radialista Gustavo Simão, o compositor Paulo Vanzolini e do cartunista Laerte. Após um ano, o lugar virou bar.  A segunda tentativa, fracassada, ocorreu em 2002. “Espero que desta vez funcione. Dinheiro vai rolar, com certeza não em benefício dos músicos, que hoje não têm do que sobreviver, além de tocar em espeluncas barulhentas a preço de comissões de couvert.”

O maestro Leonardo Bruno e sua irmã, a cantora Vânia Ferreira, filhos de Abel Ferreira, pertencem a outro clube muito frequentado, o dos que lutam sozinhos. Os herdeiros do músico de sopro divino tentam levar adiante o projeto Centenário de Abel Ferreira – A nobreza do choro. “Ainda não há apoio algum”, diz o regente, que concebeu espetáculo em que a obra do pai será apresentada em versão sinfônica com orquestrações suas e de Radamés Gnattali.

“Ele trazia a alma brasileira derramada em sua sonoridade ímpar. Artur da Távola, seguramente seu maior admirador, foi quem melhor o definiu, ‘alma sertaneja, toque mozarteano’.” O acervo do músico autodidata nascido na mineira Coromandel, autor de 50 músicas, entre as quais Chorando Baixinho (1942), que o consagrou, amigo e parceiro de Pixinguinha, com quem gravou Ingênuo (1958), permanece com os herdeiros à espera de compilação adequada. O Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro tem a guarda do sax e do clarinete, doados em 1995.

Admirador de Abel Ferreira, a quem considera um dos nomes mais importantes do choro, Freitas defende com veemência que o gênero jamais enfraqueceu e de tempos em tempos “convida a arte brasileira a um novo avanço”.  “O choro é popular, é uma expressão surgida das massas, o que não pode ser confundido com apelo comercial de moda ditado pela indústria cultural de massa. A música instrumental sempre será expressa em ambientes menores, não menos representativos. É bom lembrar que de todas as nossas expressões instrumentais, e em todas as classes sociais, o chorinho é identificado como a música instrumental mais popular do Brasil e mais ativa culturalmente.”

Na avaliação de Leonor Bianchi, editora da Revista do Choro (www.revistadochoro.com), publicação mensal online criada no ano passado, “a música instrumental fica apartada do que é popular porque não vai à sala de concerto. O público em geral tem interesse em samba, pagode e axé”. Ela atribui essa situação à falta de conhecimento e à pouca divulgação do gênero nas escolas. E conta que a revista, sustentada por assinaturas, tem boa aceitação em países como Japão, Israel, Estados Unidos e França.

Fruto de devoção de Leonor e do marido, Rúben Pereira, violonista e pesquisador, a revista prepara o lançamento do livro Pensadores do Choro. A obra é resultado de edital lançado pela publicação para incentivar a produção de materiais literários em torno do tema. “Foram contemplados os trabalhos de Sergio Aires, flautista paraibano que em crônica conta de que forma o choro mudou sua vida, e da paraense Vanessa Trópico, que aborda a importância de Adamor do Bandolim, uma sumidade do choro brasileiro de quem quase não se fala.”

Do mesmo modo que Leonor, Freitas ressente-se da ausência do estudo do choro nas universidades. “Os grandes chorões são rechaçados, desqualificados por um tipo de pensamento estúpido, movido por ignorância e leviandade. Falta consciência, falta berçário do chão brasileiro nas faculdades.” Do tipo que cultiva a aliança entre o pensamento e a ação, o compositor desmontou a tese de que o choro é uma linguagem urbana ao mostrar que ele nasce no campo, entre escravos de fazendas de café do Vale do Paraíba. O músico, que por dois anos pesquisou as manifestações musicais da Bacia do Rio Paraíba, formada por 287 municípios pertencentes ao Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, afirma que o choro não só nasce negro, como tem seus ícones a partir dos negros. “Joaquim Callado e Pixinguinha são os maiores representantes dessa linhagem.”

No projeto Vale dos Tambores (2005), caixa com dois CDs e um texto de 54 páginas, o instrumentista analisa o contexto musical e social dos primórdios do choro. Emblemática, a capa estampa imagem de 1870 da Banda de Escravos do Vale do Paraíba. Do mesmo modo que em outras agremiações musicais pesquisadas, nesta os negros das fazendas cafeeiras eram regidos por um maestro branco. O compositor devolve a eles o protagonismo do choro ao demonstrar quão facilmente desmontável é a tese do surgimento desse gênero na cidade. Mesmo no Rio de Janeiro de 1870, então capital do Império, quando Callado e Chiquinha Gonzaga lançam um manifesto que codifica o chorinho como expressão da cidade, argumenta Freitas, a existência de um conceito urbano era incipiente. “Não há como estabelecer fronteiras em um país então eminentemente rural.”

Em seu novo projeto, Tem Muito Arroz Neste Pilão, Freitas amplia o trabalho iniciado com Vale dos Tambores e usa como ponto de partida o livro Música de Feitiçaria no Brasil, de Mário de Andrade. “Estamos há três anos na tortura de busca de apoio financeiro. Essa coisa inominável de o Estado colocar o patrocínio nas mãos de empresas do setor privado, que de forma silenciosa pautam a produção cultural, torna-se mais obstáculo do que instrumento de fomento à criação. O marketing cultural quer patrocinar entretenimento e não cultura.”

*Reportagem publicada originalmente na edição 840 de CartaCapital, com o título "Meu coração bate feliz"

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