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Número 840,

Economia

Análise/Delfim Netto

A urna civiliza o capitalismo

por Delfim Netto publicado 12/03/2015 04h52, última modificação 10/06/2015 18h21
O bom funcionamento do mercado exige um Estado regulador constitucionalmente limitado
Institut der deutschen Wirtschaft Köln/Flickr
Wofgang Streeck

Para o professor Wofgang Streeck "o capitalismo democrático do pós-Guerra está claramente desaparecendo desd o fim dos anos 70"

O ilustre professor Wolfgang Streeck, atualmente no Instituto Max Plank, foi entrevistado (por e-mail) pela competente jornalista Vanessa Jurgenfeld, do Valor. O resultado foi publicado numa brilhante página daquele jornal em 26 de dezembro de 2014. Streeck é um sociólogo-historiador-economista (melhor apetrechado, na mesma ordem, nas três disciplinas) que sofreu grande influência do pensamento de Karl Polanyi. Trata-se do gigante historiador-economista húngaro, que em 1944 publicou o livro hoje um clássico A Grande Transformação, onde, corretamente, insiste “que toda economia é embebida nas relações sociais”. Historicamente, ela é obra datada, mas a sua articulação sobre as consequências da irrestrita mercadização da “terra, do trabalho e da moeda” mostra os inconvenientes desse processo, os limites dos mercados completamente desregulados e explica por que eles são momentos de exceção na história do homem.

Para o professor Streeck, “o capitalismo democrático do pós-Guerra está claramente desaparecendo desde o fim dos anos 70”. Na entrevista ele afirma: 1. “O capitalismo como tal sempre foi uma ordem social fundamentalmente instável. E, também, sempre foi contestado” (o que é verdade). 2. “Extrair bens coletivos da busca privada por interesses materiais particularistas exigia instituições políticas complexas que o capitalismo foi e é incapaz de criar” (a história mostra que é meia-verdade, veja o item 4 abaixo). 3. “O capitalismo precisa de adversários fortes o suficiente para civilizá-lo” (o que é verdade. O grande adversário foi criado pela organização política do proletariado que recusou a completa “mercadização” do trabalho e inventou o sufrágio universal, o mais poderoso instrumento civilizador dos mercados). 4. “Hoje em dia, nossas sociedades podem ter perdido a capacidade de conter e controlar os mercados e, assim, tornar o capitalismo socialmente aceitável” (há uma contradição, pois no item 2 se afirma que elas nunca tiveram) e, finalmente, 5. “Parece que os agentes políticos atualmente estão ficando sem solução em vários fronts” (mas, se não for a política, quem nos salvará?).

Mais desconcertantes são as conclusões finais do professor Streeck, que aumentam a probabilidade de não existir qualquer solução. Já que o capitalismo sobreviveu até aqui, diante de todas as suas “contradições”, a arguta e provocadora entrevistadora lhe perguntou: “Nem mesmo há movimentos revolucionários capazes de fazer frente ao capitalismo?” Ao que ele respondeu: “No que se refere às revoluções, elas são difíceis de ser organizadas mundialmente. Vejo muito descontentamento social que, entretanto é improvável que seja capaz de consertar (sic) ou derrubar (sic) o capitalismo. E não esqueça de que consertos pró-capitalistas nem sempre são agradáveis. Tivemos uma série deles na primeira metade do século XX e no Chile, na segunda”. “Eles incluíram guerras, regimes ditatoriais e muita destruição e devastação.” (E os do pró-socialismo o que produziram, pergunto eu?) Termina enigmático: “Vamos ver que medidas virão a seguir, quando o dinheiro dos bancos centrais, enfim, tiver se tornado demasiado tóxico” ...

Streeck deixa no ar (ainda que rejeite explicitamente) a mesma e melancólica conclusão de todos os que preveem (ou desejam?) o “fim do capitalismo”. O “caos” será superado por um misterioso caminho “não político”: um ente metafísico estabelecerá a “ordem” que proporcionará a todos a “liberdade”, a “igualdade” e a “eficiência” produtiva...

O problema é que a evidência histórica mostra que esses três objetivos não são inteiramente conciliáveis e que só podem ser perseguidos por movimentos políticos de “catraca”: a melhora de um (liberdade, igualdade, eficiência) não pode ser feita à custa da piora dos outros, mas pelo aperfeiçoamento institucional que os combine num nível superior. Esse é o papel do jogo entre a Urna (cujo funcionamento depende das instituições que regulam o voto, do nível da educação da sociedade e do reconhecimento dos limites dos recursos físicos) e o Mercado (cujo bom funcionamento exige um Estado regulador constitucionalmente limitado).

É assim que nos aproximaremos da sociedade civilizada, sem “curtos-circuitos” que sempre a atrasaram e terminaram mal porque têm o endereço errado: exterminar esse camaleão adaptativo cheio de problemas, que chamamos de “capitalismo” ...