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Número 839,

Cultura

Brasiliana

Meu Fusca, meu lar

por Rodrigo Casarin — publicado 06/03/2015 04h32
O modelo 1964 dos palhaços Trevolino e Dona Lelê vira circo, cinema e casa
Cia da Sorte
Fusca

"As coisas realmente importantes cabem m um carro", afirma Rafael Trevo, um dos criadores do projeto

Todo artista tem de ir aonde o povo está, canta Milton Nascimento em Nos Bailes da Vida. Trevolino e Dona Lelê cumprem à risca o ditame. Em um quilombo nas imediações de Riacho de Santana, Semiárido baiano, o único ponto de energia ficava na pequena igreja que atende os moradores da região. A dupla de palhaços não se fez de rogada. Puxou um fio para o lado de fora, transformou os bancos da igreja em acomodações para os 400 espectadores e fez do chão de terra batida um palco de gala. Famílias vestidas como se fossem a um casamento se divertiram e se emocionaram com a sequência de palhaçadas e uma sessão de cinema. Pudera. Muitos nunca tiveram a chance de experimentar uma diversão daquele tipo. Outros não se lembravam da última vez.

Trevolino chama-se Rafael Trevo e tem 28 anos. Dona Lelê, 29, é Letícia Martins. Durante um ano, os palhaços rodaram o Brasil em um Fusca 1964. Paravam, principalmente, em lugares carentes de tudo, principalmente de cultura. Dormiram em assentamentos de trabalhadores rurais ou na casa de alguma alma caridosa. Comeram o que lhes era oferecido. Mas se sentem afortunados. “Graças à arte, tivemos a oportunidade de conhecer lugares incríveis e fazer grandes amigos”, recorda Trevolino.

Há mais de oito anos Trevo trabalha como palhaço. Formado em Turismo, fez cursos de teatro e de artes circenses. Em 2011, largou um emprego formal de professor de circo e, com o pouco dinheiro economizado, somado aos trocados obtidos com as apresentações nas ruas de São Paulo, sobreviveu o ano seguinte. Em 2013, viajou de bicicleta por mais de 6 mil quilômetros da capital paulista ao Ceará, enquanto apresentava seu show em um projeto denominado Rumo ao Norte.

A viagem de bicicleta ensinou Trevolino a arte de viver com pouco dinheiro e tornou-se uma espécie de rito de passagem. Seus pais se convenceram de que ele seria capaz de sobreviver provocando o riso da plateia. De quebra, viveu uma jornada de autoconhecimento. “Tinha de arrumar um jeito de ficar bem sozinho.” Por último, descobriu por experiência própria a disposição dos brasileiros simples de ajudar o próximo.

Durante sua passagem por Brasília, Trevolino conheceu a arquiteta Letícia Martins. A relação não terminou quando o artista deixou a capital federal. Ao se reencontrarem, Trevolino a convidou para embarcar na aventura. Morria uma arquiteta, nascia a palhaça Dona Lelê. O casal fundou a Cia da Sorte, companhia de circo e educação ambiental. Para bancar as despesas na estrada, lançaram o projeto Semente da Sorte. Criaram um site, pediram dinheiro por meio do chamado financiamento coletivo, venderam alguns de seus pertences. No fim, juntaram cerca de 8 mil reais. Com parte do dinheiro, consertaram o Fusca 64 de Trevolino e o adaptaram para servir de circo, cinema e casa.

A turnê começou em 25 de fevereiro do ano passado. Descontados os gastos para a preparação da viagem, sobraram mil reais. A opção foi refazer o trajeto percorrido de bicicleta por Trevolino, uma maneira de rever os amigos feitos pelo palhaço em 2013.  Aos poucos, o casal montou a estrutura da companhia com espetáculos circenses, intervenções artísticas, oficinas e a projeção de filmes com uma “pegada” ecológica.

À medida que avançavam na turnê, Trevolino e Dona Lelê passaram a não depender mais exclusivamente do dinheiro arrecadado durante as apresentações. Enviavam o material com antecedência às secretarias municipais de cultura e começaram a receber convites para se apresentar em diversas cidades. Raramente recebiam cachê, mas obtinham hospedagem, alimentação, além de combustível para o Fusca. Ao todo, a dupla fez mais de 80 apresentações nos rincões brasileiros. “Atuávamos não somente como artistas, mas como indivíduos que viviam no Fusca, com a vida toda lá dentro. Acabávamos influenciando os insatisfeitos com a vida pessoal, com seu trabalho. Muitos diziam que nos ver transmitia coragem”, afirma o palhaço. “É preciso muitas renúncias, principalmente não ter dinheiro, não acumular coisas.” A recompensa? “Você se aproxima da plenitude da vida. Percebe que as coisas realmente importantes cabem em um Fusca.”

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