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Número 839,

Cultura

Cinema

Oscar 2015: a inesperada relevância

por Rosane Pavam publicado 04/03/2015 15h00, última modificação 04/03/2015 19h53
Birdman e Boyhood reacendem o interesse pela renovação da indústria e movimentam o Oscar das causas
Kevin Winter/Getty Images/AFP
Birdman

O mexicano Alejandro González Iñárritu, melhor diretor por Birdman (ou A Inesperada Virtude da Ignorância)

Os olhos de Hollywood voltaram-se neste ano para dois filmes que, por sua porção de ousadia, sugeriram devolver à indústria cinematográfica algum crédito perdido. Boyhood - Da infância à juventude, dirigido pelo americano Richard Linklater, e Birdman (ou A Inesperada Virtude da Ignorância), do mexicano Alejandro González Iñárritu, bem cotados durante a entrega do 87º Oscar, no Dolby Theater de Los Angeles, destacaram-se neste cenário comercial não por promover uma aguda discussão política, que talvez urgisse, mas pelo inesperado preciosismo de sua feitura.

Ao abandonar a outrora bem-sucedida estética do telefilme, mas ainda a seguir uma tendência televisiva, eles desenvolveram diálogos duros ou sutis, histórias de decadência, uma crítica interna à nação e ao entretenimento predador e, como um tributo aos seriados por assinatura, descreveram com acidez e comicidade situações à margem social. Ademais, em uma época de crise, Boyhood consumiu um orçamento de 4 milhões de dólares, enquanto Birdman, quase cinco vezes mais, valores sisudos se comparados aos 58,8 milhões sacados pelo ator e produtor Bradley Cooper para se fantasiar de Max Steel na autoajuda de estilo bélico Sniper Americano.

Os 6 mil votantes ao prêmio máximo do cinema, ao desprezar o Dirty Harry de Fallujah, talvez tenham visto nos dois primeiros filmes os sinais de uma renascença cultural. A seu modo, os diretores dessas obras propuseram invenções. Linklater filmou com os mesmos atores, por 12 anos, a história de uma família americana que se dissolve e se proletariza com a nação. Uma década se passa pelo filme de modo a simular a delicadeza e o vagar com que usualmente percebemos os fatos da existência.

Os corpos e as feições dos personagens se veem alterados pela mais convincente maquiagem que há, aquela promovida pelo tempo. E é um filme na ponta extrema de uma proposta antiga, a do neorrealismo cinematográfico, que, a seguir os pensamentos do roteirista Cesare Zavattini, exigia para o cinema a ousadia de representar o ritmo da vida.

Não que Iñárritu tenha ferido os princípios realistas, que a rigor são os da arte desde que Eisenstein filmou os marinheiros revoltosos em O Encouraçado Potemkin ou os de René Clair ao reclamar a impiedade das máquinas em A Nós, a Liberdade. O crítico André Bazin certa vez notou que o realismo está no centro das revoluções cinematográficas, essas que cheiram os passos do espectador. Birdman é de algum modo um filme neorrealista, porque representa outro instante deste movimento.

Em Sciuscià, de 1946, o diretor italiano Vittorio de Sica filmava com urgência duas crianças que engraxavam no pós-Guerra. Dois anos depois, mirava o infinito na fábula Milagre em Milão. Naquele 1948, De Sica não ganharia novamente o Oscar e seria tolhido pelo interesse massivo, muito possivelmente porque a realidade desejada pelo público fosse ainda mais crua e não fantasista. Milagre em Milão representaria para a história da arte, de todo modo, mais do que isso, uma pequena reviravolta de liberdade e uma anunciada influência para que Gabriel García Márquez mudasse sua literatura.

À moda de um Márquez, então, Iñárritu encenou a magia por todo o filme, especialmente em seu final, ainda que poucos a tenham aceitado. Em longuíssimos planos-sequência de fôlego interpretativo e fotográfico, o diretor atacou as impossibilidades de crescimento artístico em um mundo que rejeitou a autenticidade para abraçar a exposição virtual.

Para cada ousadia, uma sentença, e o público, aquela máquina sem cabeça de que falava Charles Chaplin em Luzes da Ribalta, deve ter tido suas razões para não se encaixar nessa representação suprarreal da vida. A crítica, por seu lado, parece ter apenas uma ou duas razões para rejeitar Birdman.

A primeira é seu horror ao protagonista Michael Keaton, cuja máscara se viu desgastada nas últimas décadas, um sentimento que Birdman, aliás, representa. A outra razão está na aceitação incondicional do que disse Alfred Hitchcock a François Truffaut sobre seu antológico Festim Diabólico, o arrependimento pela vaidade de o ter filmado quase sem cortes, um feito que Birdman persegue.

Os críticos, contudo, teriam se perguntado se Hitchcock rejeitava seriamente a empreitada? E alguém condenaria Festim Diabólico por irrelevância técnica se nele James Stewart encena com brilho um professor a desmascarar um psicopata, vaidoso de ter cometido o crime perfeito? O que invalidaria filmar a vaidade utilizando-se dela?

Iñárritu possivelmente tenha sido vaidoso ao filmar, mas também foi urgente ao fazer a atual técnica fotográfica caminhar uns passos e os atores, a representar no chão do teatro. Muitos espectadores, em verdade, só viram o chão do teatro, ou a cueca de Michael Keaton em uma situação do filme parodiada pelo apresentador do Oscar deste ano, o ator Neil Patrick Harris, estrela do seriado How I Met Your Mother.

Em seu anarquismo infantil, Harris teve no desnudamento a melhor performance durante a entrega dos prêmios, ele que, entre outras derrotas, pecou ao zombar da ausência de Edward Snowden na premiação de melhor documentário a Citizen Four e ao observar que Dana Perry, a produtora do curta documental Crisis Hotline: Veterans Press 1, tinha “bolas” ao usar um vestido “com bolas”, minutos depois de ela ter informado ao público que seu filho de 15 anos se suicidara.

Os discursos operaram na contramão do estilo Harris de observar as coisas. Patricia Arquette, que ganhou como atriz coadjuvante por Boyhood, gritou pela igualdade de salários para as mulheres. John Legend, autor da vencedora canção Glory, de Selma, recordou existirem nos EUA mais negros encarcerados do que escravos no país em 1850.

Julianne Moore, uma atriz injustiçada em edições anteriores, brincou com o público munida da inteligência usual, para logo apelar à necessidade de tornar visível o Alzheimer, tema do filme que protagoniza, Para Sempre Alice. O ator coadjuvante J. K. Simmons, por Whiplash, quis que os filhos vissem mais os pais e o ator Eddie Redmayne pediu atenção à doença do físico Stephen Hawking, a quem representa em A Teoria de Tudo.

Graham Moore, autor do roteiro adaptado de O Jogo da Imitação, advogou pelos homossexuais, enquanto Pawel Pawlikowski, diretor do polonês Ida, filme estrangeiro que exibe maravilhosamente, esses sim, 50 ou mais tons para o cinza, reivindicou o silêncio contra o som e a fúria do Oscar. De certo modo, um manifesto foi também promovido pela estrela Lady Gaga, ao demonstrar que ainda é preciso saber cantar quando se é um cantor, na sua interpretação que homenageava A Noviça Rebelde.

Faltaram discursos pelos índios, contra o capitalismo predador ou o terror muçulmano, mas o diretor de Birdman, vencedor de quatro Oscars (melhor filme, direção, roteiro original e fotografia), soube apimentar a cerimônia ao pedir um governo melhor para o México. E não ficou nisso, como se evocasse Cidadão Kane, o filme de Orson Welles que revolucionou a narrativa realista em 1941 e rendeu ao cineasta apenas uma estatueta, por roteiro original, dividida com Herman J. Mankiewicz.

Considerado teatral demais à época, acusado de manipular sentimentalmente as memórias de infância, Cidadão Kane vinga-se porque ainda agora pode ser visto como um filme inadiável. Iñárritu, cabelo e cavanhaque de colonizador espanhol, um ex-radialista desenvolto ao falar, não despreza a história. “Para que alguém ganhe, alguém tem de perder”, ponderou em seu discurso. “Mas o paradoxo é que a arte verdadeira, a verdadeira expressão individual, como a desses incríveis cineastas aqui presentes, não pode ser comparada, rotulada, não pode ser derrotada, porque só o tempo pode avaliar o trabalho de alguém.”

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