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Número 838,

Cultura

Literatura

Hilda Hilst, a mulher sem atalhos

por Ana Ferraz publicado 28/02/2015 06h43
Mostra no Itaú Cultural, em São Paulo, celebra com originais, desenhos e materiais inéditos a literatura da poeta e dramaturga
Edouard Fraipont
Hilda Hilst

Hilda Hilst, culta incompreendida

Hilda Hilst (1930-2004) era muitas. Lírica, trágica, obscena, lúcida, irreverente, satírica, densa. “Umasómúltiplamatéria”, como certa vez se definiu a escritora de cerca de 40 títulos publicados entre prosa, poesia e dramaturgia. A mulher linda e talentosa que aos 35 anos troca o bulício paulistano pelo cenário bucólico de uma fazenda em Campinas, a Casa do Sol, é a mesma cuja literatura encantou crítica e mídia, mas enfrentou dificuldades com certo leitor que a considera hermética.

“Quero ser lida”, clamava. Onze anos após sua morte, essa grande voz da literatura ganha nova chance de aplacar a súplica que perpassou vida e carreira. A Ocupação Hilda Hilst, no Itaú Cultural, oferece uma bela exposição “na primeira pessoa do singular”, nas palavras de Claudiney Ferreira, responsável pelo núcleo de Audiovisual e Literatura da instituição.

Por meio de originais, desenhos, manuscritos, fotos e quadros emerge a Hilda tantas vezes afogada em incompreensões. “As vozes são dela”, diz Ferreira, entusiasmado com o material inédito obtido com o Instituto Hilda Hilst e o Centro de Documentação Alexandre Eulálio, da Unicamp, como um diário com anotações, correções e comentários sobre A Obscena Senhora D (1982) e um caderno de 1988 em que começa a refletir sobre O Caderno Rosa de Lori Lamby (1990).

Muito do que se verá, distribuído por cinco núcleos, vai conduzir o visitante pelos caminhos trilhados por Hilda em seu processo criativo. A escritora de prosa caudalosa e língua afiada, eternamente perplexa diante das reações à sua escrita (“Fico besta quando me entendem”, disse certa vez), mostrava-se uma ciosa artesã da palavra.

“Era uma mulher sem atalhos. Quando decide escrever Lori Lamby não tem caminho fácil”, afirma Ferreira. E realça o fato de que ela estudou muito antes de se lançar à história narrada pela garota de 8 anos que descreve suas aventuras sexuais sem pejo. O texto, que Hilda definiu como “uma divertida bandalheira”, integra a Trilogia Erótica composta ainda por Contos D’Escárnio/Textos Grotescos e Cartas de Um Sedutor. Nas reflexões em torno do que é obsceno, pornográfico e erótico, escreveu logo abaixo: “É 30 milhões de famintos, 12 milhões de favelados, 4 milhões de menores abandonados, 5 milhões de velhos desamparados, 9 milhões de crianças carentes”.