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Número 837,

Cultura

Cariocas

Carnaval: Yolhesman Crisbelles

por Carlos Leonam — publicado 14/02/2015 08h18
O dístico no abre-alas da Banda de Ipanema nada significa. Mas esse bloco de 50 anos renovou o Carnaval de rua no Rio
Carlos Leonam
Cariocas

História. Entre os fundadores da Banda de Ipanema estavam Albino e Jaguar

Evoé, Momo!!! O Carnaval carioca chegou sacudindo a cidade com grandes blocos em vários bairros, desde os clóvis de Santa Cruz e Campo Grande, na zona oeste, ao Cordão do Bola Preta, no centro, ao Simpatia É Quase Amor, em Ipanema. Centenas de foliões nas ruas e avenidas, milhares de turistas nativos e forasteiros de todos os pontos da aldeia global.

Não há mais o bloco do Eu Sozinho, em que um folião tristonho perambulava pela Avenida Rio Branco, pra lá, pra cá, sem se envolver com os mais animados. O tempo foi passando, o carnaval dito “de rua” foi sumindo, o desfile das grandes sociedades, na terça-feira gorda, acabou também, os grandes bailes duraram até os anos 1980, as marchinhas, que até hoje todos sabem de cor, deram lugar aos caudalosos sambas-de-enredo – longe dos temas históricos, agora com letras patrocinadas até por países estrangeiros...

E daí? Bem, neste ano da graça de 2015, a Banda de Ipanema, responsável pela volta dos blocos e que tais que regurgitam pelo Rio, completa 50 anos, meio século de muita alegria e companheirismo e amizades. Mas como tudo nesta vida, a Banda foi perdendo também a sua inocência, embora Albino Pinheiro ainda viva, graças à pertinácia de Claudio Pinheiro, que não deixou o legado de seu irmão morrer.

Foi a primavera de Ipanema. A Banda nasceu, em 1965, sem nenhum cunho protestatário, naqueles anos sombrios que durariam até 1979. Cinquenta anos depois, as lembranças nos dão uma imensa saudade, na certeza de que, apesar do mau tempo que reinava no Brasil, éramos felizes. E sabíamos.

Como me disse Jaguar, num papo que viraria o único depoimento que existe:

“A esquerda festiva foi para a rua. Albino Pinheiro fez a turma, ao que chamou de Banda, desfilar pelas ruas de Ipanema, e o povo de Ipanema descobriu, encantado, que era extremamente provinciano. As pessoas saudavam das janelas da Prudente de Moraes e Visconde de Pirajá, as crianças corriam atrás de nós. Levávamos nossos filhos, foi, durante muitos anos, uma festa de família.

“Foram 29 os fundadores, a maior parte deles já falecida. Vestidos de terno branco e chapéu-panamá, fingindo soprar os instrumentos, seguidos por uma furiosa verdadeira a tocar as marchinhas que todos conheciam. Entre os fundadores, que ajudaram criar a Ipanema mítica que também não existe mais, estavam Ferdi Carneiro, Ziraldo, Haroldo Costa, Hugo Bidê, Caio Mourão, Paulinho PomPom, Raul Hazan, Ferreira Gullar, Armando Rozario, Paulo Goes, Glaudir Castro,  Manlio Marat, Darwin Brandão, Roniquito Chevalier...”

A Banda, desde então leva uma imensa faixa de abre-alas, com o seu dístico: Yolhesman Crisbelles – que, explicou Jaguar, “não quer dizer porra nenhuma”. Albino descobriu-a numa estrofe de um mendigo-poeta que fazia ponto na Central do Brasil. O que, entretanto, bastou para os arapongas do SNI detectarem uma mensagem subversiva cifrada. Até hoje não se sabe qual.

A Banda de Ipanema cresceu tanto que perdeu mesmo aquela inocência, tornou-se, para os fundadores que restaram, “insuportável”. Não terá mais uma Leila Diniz como madrinha, nem Hugo Bidê com uma rolha na boca, num “carro alegórico”, vestido de maiô com uma faixa de Miss Imprensa.

Não há dúvida, porém, de que renovou o Carnaval de rua, inspirando o aparecimento de outras bandas cariocas e em outros estados. Graças à teimosia de Albino Pinheiro e, hoje, de seu irmão Claudio.