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Número 837,

Sociedade

Brasil Open

Tênis: estufa de craques

por Redação — publicado 18/02/2015 01h44, última modificação 18/02/2015 09h43
Competições de nível internacional já foram um desafio no esporte do Guga. Já foram
Davi Ribeiro
Brasil Open

Guilherme Clezar, promessa nativa, confronta um dos infatigáveis ases da armada espanhola

A primeira vez que foi diretor de torneio, Roberto Marcher teve de se desdobrar como juiz de linha, sparring, mestre de cerimônias, até mala dos convidados ele se lembra de ter carregado. Corria o ano de 1972, uma brilhante geração de tenistas brasileiros estava no auge, Thomas Koch, Carlos Alberto Kirmayr, Luis Felipe Tavares, Edson Mandarino, o próprio Roberto Marcher, e era hora de contemplar a plateia local com uma competição à altura daquelas com que nossos tenistas já estavam acostumados no exterior.

Não existia ainda a Associação de Tenistas Profissionais (ATP), que hoje, juntamente com (ou em oposição a) sua rival International Tennis Federation (ITF), administra o intenso calendário das competições. A improvisação que presidiu o 1º Circuito Internacional de Tênis do Brasil, com escalas no Rio, em São Paulo, Salvador, Recife, Porto Alegre, Belo Horizonte, teve sua recompensa: nascia ali a Koch Tavares. Quarenta e três anos depois, a empresa promove o seu 15º torneio da ATP. O panorama é outro. Coincidentemente, Roberto Marcher volta a ser diretor de torneio – tudo que ali acontece passa pelo crivo de sua expertise e de sua responsabilidade.

Em 2015, O Brasil Open aconteceu nesta semana pré-carnavalesca. Enquanto Tommy Robredo, 17º do ranking da ATP (e campeão do Brasil Open em 2009), Fernando Verdasco, 31º do mundo, Nicolás Almagro, tricampeão (em 2008, 2011 e 2012) e 82º do ranking, e outros craques da fecunda armada espanhola revezavam seus saques e voleios com promessas como o argentino Diego Schwartzman e o brasileiro Guilherme Clezar, o supervisor da ATP, o sueco Lars Graff, que trafega pelos torneios oficiais mundo afora, ressaltava a serena hospitalidade e o impecável profissionalismo da Brasil Open.

“O Brasil tem a cultura do esporte, e não só do futebol”, comentou Graff, a quem cabe, por exemplo, inspecionar torneios em ambientes extravagantes como Dubai, Pequim e Shenzhen, na China. “Aqui eu não preciso ensinar nada de tênis a ninguém, e quando vejo a Maria Esther Bueno circulando pelos camarotes, comentando para a tevê, recordo por que os brasileiros têm tanta intimidade com o esporte.” Há dez anos, Graff frequenta o Brasil. “O País mudou para melhor, todo o País, sem perder esse seu espírito amigável e descontraído.”

Dentro das quadras, o panorama não parece, à primeira vista, tão otimista. São poucos os tenistas brasileiros ranqueados – o intermitente Thomaz Bellucci situa-se ali na faixa dos 60 melhores do mundo, Bruno Soares vai bem nas duplas, com Marcelo Melo – e as revelações nem sempre vão em frente. Não há um Guga Kuerten à vista, embora Roberto Marcher, que fez a vida como treinador e supervisor da fina flor do tênis nacional, não goste dessa comparação. “É como esperar que apareça um novo Pelé, um novo Maradona”, protesta ele. “Guga é fenômeno, não vai se repetir. Está, ao lado de Björn Borg e Rafael Nadal, entre os três melhores do saibro de todos os tempos.”

Um evento como o Brasil Open – que em 2012 voltou para o Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, depois de várias temporadas na Bahia – aduba, de todo modo, com a ajuda de patrocinadores como a Universidade Estácio de Sá, do aficionado Rogério Malzi, a esperança de que o tênis possa ser descoberto aqui como o foi na Espanha, por exemplo. “Lá, de repente descobriram que o tênis não é elitista, pode até ser um esporte acessível e de ascensão social para garotos da classe média e até de estratos mais baixos”, diz Marcher. “Mais fácil do que o futebol, onde o funil até o sucesso é muito mais estreito.”

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