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Número 837,

Cultura

Carnaval

Cemitério da folia

por René Ruschel — publicado 15/02/2015 07h05
Com a Zombie Walk, Curitiba firma-se no circuito alternativo do Carnaval
Alice Rodrigues e Manuel de Freitas
Zombie Walk

A organização estima 30 mil foliões para a próxima Zombie Walk

Se são paulo é o túmulo do samba, Curitiba é o cemitério do Carnaval. Desde 2009, as ruas da cidade no domingo de folia são tomadas não por pierrôs e colombinas, mas por fantasmas, mortos-vivos e monstros clássicos. Saem os tamborins, entram as guitarras. A Zombie Walk, animada pelo rock, é inspirada em uma festa surgida na América do Norte, não se sabe exatamente se nas ruas da canadense Toronto ou nas praias da Califórnia.

Embora genuinamente brasileira, nos seus problemas e limitações, a capital paranaense sempre deu-se ares de cidade europeia. Mesmo assim, a maioria “branca de olhos azuis” resistiu à novidade importada do Hemisfério Norte e inicialmente realizada em 2 de novembro, Dia de Finados. A primeira edição, lá se vão oito anos, foi mais desanimada que um velório. Pouco mais de 20 “zumbis” apareceram na concentração no cemitério municipal. No ano seguinte, vexame ainda maior: apenas três zumbis se levantaram dos túmulos e atenderam aos chamados dos organizadores. Seria o caso de enterrar as esperanças, não?

Não. Tudo mudou em 2009, depois de duas alterações no festejo. A primeira: em vez de Finados, o bloco dos mortos-vivos sairia às ruas no domingo de Carnaval. A outra: a concentração deixaria o cemitério para ocupar a área da Boca Maldita, tradicional ponto de encontro no coração da cidade. Naquele ano, cerca de 300 foliões toparam a brincadeira. “O Carnaval em Curitiba sempre teve seu espaço em clubes, não nas ruas. Em 2009, participei como integrante do bloco e, desde esse ano, nunca mais deixei de frequentar” afirma Docca Soares, um dos coordenadores da “caminhada”.

O crescimento foi exponencial. Em 2013, uma forte chuva não impediu que mais de 6 mil curitibanos e turistas saíssem às ruas fantasiados de zumbi e que tais. No ano passado, cerca de 20 mil foliões tomaram conta da cidade. Estima-se um público de 25 mil a 30 mil no desfile do domingo 15. O evento hoje integra o calendário de atividades da Fundação Cultural de Curitiba. “A nossa participação é apenas logística. Material de divulgação, acesso à mídia, trânsito, segurança, enfim, questões que mexem com a cidade e os moradores” explica Marcos Cordiolli, presidente da fundação.

São 15 os organizadores da Zombie Walk curitibano. O grupo não recebe dinheiro público ou privado. Os voluntários reúnem-se nos fins de semana para traçar e discutir a logística do desfile. Parece inacreditável que toda essa multidão seja mobilizada sem qualquer recurso financeiro. As ferramentas disponíveis de comunicação são os habituais registros na mídia e as redes sociais. A profissionalização parece, no entanto, inescapável. “Começamos a sentir necessidade de parcerias com empresas interessadas”, avalia Flávia Noguera, uma das organizadoras. A única exigência do grupo é que os futuros parceiros não tenham vínculos políticos, ideológicos ou religiosos. A preocupação com a segurança também tem aumentado, por causa da crescente participação de famílias nos festejos. Pelas redes sociais, os organizadores fazem uma intensa campanha de conscientização e alertam para a necessidade de controle no consumo de álcool, drogas e artefatos que simulem armas. “Apesar de o público aumentar a cada ano, até hoje não tivemos um único incidente”, orgulha-se Flávia Noguera.

O casal Rodrigo e Luciene Wiczick, ele fisioterapeuta, ela engenharia civil, ambos com mestrado, acompanhados dos dois filhos de 9 e 12 anos, planejaram a participação na Zombie Walk deste ano em seus mínimos detalhes. “No ano passado, minha mulher e filha preferiram viajar nos feriados. Fui com meu filho. Depois de verem as fotos, elas ficaram empolgadas e agora a família vai toda para a rua”, conta o patriarca. Para Wiczick, o cortejo é um mundo underground, uma espécie de catarse coletiva em que todos têm algumas identidades comuns, entre elas o rock. “É como estar num campo de futebol e, quando seu time faz um gol, todos se abraçam e vibram, mesmo que nunca se tenham visto.”

Pelo WhatsApp, grupos se comunicam para trocar informações sobre roupas, fantasias, maquiagens ou adereços. Cada um faz a sua parte e o todo se transforma em um grande espetáculo. Docca Soares, o líder desse movimento, tem, porém, um sonho: transformar a Zombie Walk em uma espécie de Mardi Gras, o carnaval de New Orleans mundialmente conhecido pelas apresentações de blues e jazz e pela desinibição do público. Por enquanto, faltam o jazz, o blues e a desinibição. Mas os zumbis aprendem rápido.

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