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Número 836,

Economia

Análise/Delfim Netto

Xadrez: a abertura grega...

por Delfim Netto publicado 12/02/2015 06h18, última modificação 10/06/2015 18h23
Há uma margem de compromisso possível entre as instituições financeiras e as necessidades do país
ARIS MESSINIS / AFP
Tsipras

Na Grécia, Tsipras assumiu quebrando a louça

A experiência grega é arriscada, mas fascinante. É um exemplo vivo de que só o jogo continuado entre a Urna e o Mercado é capaz, por caminhos raramente lineares, de colocar a sociedade na vereda civilizatória. Vereda, porque a estrada virtuosa é estreita e pedregosa. Segui-la exige uma liderança forte, confiável, inteligente e com sorte. O voluntarismo desinformado que às vezes emerge das urnas nunca leva a ela.

Honestamente, alguém pode pedir a um cidadão que depois de cinco anos de austeridade, sem ver qualquer sinal de esperança, tenha a paciência e a crença religiosa de prosseguir com a duvidosa solução “científica” que lhe foi imposta pelo poderoso sistema financeiro internacional para proteger seus interesses? Não, porque a austeridade sem esperança briga com a democracia!

A verdade é que todos sabiam que, apesar da conveniência política, a inclusão da Grécia na Zona do Euro era muito pouco recomendável do ponto de vista econômico por sua secular tradição de desrespeito às restrições orçamentárias. Cansado de tomar o remédio amargo e de aceitar humilhado a reprimenda moralista que “ele comeu demais e agora é hora de descomer”, o cidadão grego, em legítima defesa, decidiu-se por uma mudança radical. Quando ficou óbvio que a trágica “receita” da Troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional) não funcionou e que ele já não tinha mais nada a perder, entregou-se ao seja lá o que um ateu quiser...

Tsipras, com o apoio de radicais nacionalistas de direita, assumiu quebrando a louça. Anunciou algumas medidas emergenciais: vai rediscutir a “receita”, suspendeu as privatizações (que ajudariam a pagar os credores internos e externos), anunciou um aumento de 30% no salário mínimo e a revisão da dispensa de funcionários públicos. Isso gerou um enorme estresse no sistema financeiro grego que poderá piorar se, a partir de 28 deste mês, o Banco Central Europeu não continuar a dar-lhe liquidez em condições favoráveis. Acendeu a luz vermelha em Bruxelas e em Frankfurt, que vai exigir mais capital para seus bancos.

Tenho dúvidas se o desgravatado tem clara consciência da confusão em que se meteu e se será capaz de controlar o seu sucesso político e conformar-se com as limitações do seu voluntarismo na economia. A minha esperança reside no seu importante ministro das Finanças, o conhecido economista Yanis Varoufakis, que tem um amplo domínio do mainstream e do keynesianismo, além de um bom olho no marxismo. Isso lhe dá os nítidos limites do exercício da política social e econômica que terá de discutir com a troika. Ele sabe que não há saída sem dor e que a solução do problema grego (como o brasileiro) está menos no numerador (controle do crescimento da dívida) e mais no denominador (o aumento do crescimento do PIB e do emprego), o que exige confiança e competitividade. Para entender como pensa Yanis Varoufakis, nada melhor do que ler o seu Foundations of Economics – A beginner’s companion, 1998.

Sou tentado, talvez ingenuamente, a acreditar que o “barulho” inicial foi um movimento da autoridade grega para colocar melhor as suas peças no xadrez que terá de jogar contra a Troika. Aliás, Varoufakis é um especialista em teoria dos jogos. Os dois contendores têm muito a perder (três quartos dos cidadãos gregos querem continuar na Zona do Euro). Por um lado, o experimento grego pode estimular cidadãos de outros países a imitá-lo, o que poderia ser o fim do mais notável esforço para a paz definitiva num continente que registra milhares de anos de luta fratricida, sem ser, necessariamente, a salvação da Grécia. Por outro, o seu colapso poderá deixá-la sozinha, moralmente ainda mais enfraquecida e destinada a trilhar por muito tempo nas sombras do subdesenvolvimento.

É evidente que existe uma margem de compromisso possível entre os desejos da troika e as necessidades dos gregos. A dose de blefe e de realismo nesse jogo que Tsipras e Varoufakis utilizarão será decisiva para encontrá-la, porque os parceiros não aceitarão a chantagem crua. Nos meus curtos 87 anos já vi, sem aviso prévio, mas com os bolsos vazios, muito leão virar gato depois de rugir algum tempo assustando apenas a si mesmo...

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