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Número 836,

Internacional

Análise/Wálter Maierovitch

Os irmãos Mattarella

por Wálter Maierovitch publicado 11/02/2015 06h03, última modificação 17/06/2015 16h47
O assassínio pela Máfia de Piersanti levou Sergio a abandonar a carreira universitária para dedicar-se à política por 35 anos, até assumir a Presidência da República italiana
ALBERTO PIZZOLI / AFP
Matarella

Sergio Matarella é o pacato e desassombrado jurista que assume a Presidência da Itália

Palermo, 6 de janeiro de 1980. No calendário litúrgico católico era o Dia da Epifania dos Magos. Em toda a Itália – e o presidente da República era o socialista Sandro Pertini – sentia-se a violência dos “anos de chumbo” protagonizada pelo terrorismo fascista, à frente o Nuclei Armati Revoluzionario (NAR), e pela esquerda radical das Brigate Rosse e de outras organizações menores.

Na Sicília, a secular Cosa Nostra desafiava ao matar magistrados e policiais incômodos: Pietro Scaglione, Cesare Terranova, Gaetano Costa e Boris Giuliano, este da esquadra móvel de Palermo.

O clima político e social insular era o do pós-Vito Ciancimino, mafioso de ponta eleito, em 1970, prefeito de Palermo, cassado pelos vínculos associativos mafiosos e falecido em 2002 sob suspeita de intermediar uma tratativa entre Estado e Cosa Nostra para pôr fim aos atentados contra monumentos, que provocavam a morte de civis inocentes, e contra a vida de juízes antimáfia, como mais tarde se daria com Giovanni Falcone e Paolo Borsellino.

Em 1978, para governar a Sicília elegeu-se Piersanti Mattarella, empenhado em afastar a influência mafiosa da administração regional. Tornou-se, assim, personagem-símbolo da antimáfia, bem como da correção e da transparência administrativas. À época, mandava em Cosa Nostra o vencedor da chamada segunda “guerra de máfia”, ou seja, o sanguinário grupo de Corleone, comandado por Totò Riina e Bernardo Provenzano. O capo anterior, Stefano Bontate, da famiglia de Palermo, fora metralhado e o seu vice, Gaetano Badalamenti, da famiglia de Cinisi, fugira para o Brasil e mantinha-se sob proteção da comunidade mafiosa fundada por Tommaso Buscetta e Antonino Salamoni.

Na companhia da esposa e da sogra, Piersanti, naquele fatídico 6 de janeiro, deixara a residência da Via Della Libertà para acompanhar a missa da Epifania. Ele guiava um Fiat 132 e havia dispensado a escolta para os policiais passarem em família a festa religiosa. Mal tirou o veículo da garagem, um killer solitário e até hoje não identificado, mas a mando de Riina-Provenzano, aproximou-se e descarregou a pistola em Piersanti. Oito projéteis atingiram o governador e um raspou o dedo da mão da sua esposa. Assim iniciou-se a chamada “estação do terrorismo mafioso” e a produção em série de cadaveri eccellenti, expressão criada por Leonardo Sciascia.

Mattarella e Ciancimino eram filiados à Democracia Cristã, mas o governador integrava a ala de centro-esquerda, que fora liderada por Aldo Moro, sequestrado e eliminado pelas Brigadas Vermelhas em maio de 1978. Foi nesse ano que Mattarella elegeu-se com o apoio do Partido Comunista. Na véspera do seu assassinato, dois anos depois, estivera em Roma reunido com o ministro Virginio Rognoni, responsável pela segurança pública, nomeado após a execução de Moro. Um dos temas da conversa foram as ameaças de morte que o governador vinha recebendo.

O corpo agonizante de Piersanti foi retirado do seu carro pelo irmão Sergio, professor universitário distante da política, mergulhado no mundo dos livros, figura reservada e austera. Piersanti morreu pouco depois de dar entrada no hospital. Tinha seguido a vocação política do pai Bernardo. Os irmãos eram muito próximos, e casados com as irmãs Chiazzese. Só depois de 22 anos, graças às delações premiadas de Tommaso Buscetta, descobriram-se os mandantes do assassinato: Riina, Provenzano, Pippo Caló, Michele Greco, Nene Geraci. A própria cúpula da Cosa Nostra.

Aquele 6 de janeiro ficou conhecido na Sicília como o dia do “Kennedy di Palermo”. Deu-se também que, a partir de então, o irmão Sergio Mattarella mergulhou na vida política. E é ele, o pacato e desassombrado jurista, quem assume a Presidência que até poucos dias atrás foi de Giorgio Napolitano.