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Número 836,

Cultura

HQ

Jack, o Estripador, contra a misoginia e o poder

por Rosane Pavam publicado 20/02/2015 06h03
Alan Moore utiliza universo do anti-herói para dizer as coisas que julgava necessárias no presente, relacionadas ao modo como se estabelece o poder
Reprodução
Alan Moore

Mulheres à sombra na Londres do século XIX

Whitechapel, distrito londrino, anos 1880. A fome é endêmica, a miséria desrespeita a infância e os rostos macilentos nos cortiços úmidos justificam a ficção de Charles Dickens. Em meio à desesperança alimentada pela corte vitoriana surgem largados pelas calçadas os corpos eviscerados de prostitutas pobres. A Scotland Yard mal sabe por onde começar, enquanto a opinião pública, indiferente ao que o futuro possa reservar a mulheres assim, alimenta-se fascinada dos jornais, esses que romantizam o perpetrador dos assassínios. De Jack, o Estripador, contudo, ninguém nunca saberá se ao menos terá sido Jack.

Londres, anos 1980. A premier Margaret Thatcher impõe a ferro a “modernidade” liberal. Privatiza estatais, combate os sindicatos, diminui o Estado do Bem-Estar Social, aumenta o imposto para os pobres. A ausência de perspectivas revolta quem tem um coração para ver. O roteirista de quadrinhos Alan Moore, nascido em 1953, é um jovem intelectual inglês contra o estado de coisas. Escreve em 1986 para a DC Comics a graphic novel Watchmen, na qual os vingadores têm fraquezas, descritas em páginas cujo formato folhetinesco algo se aproxima daquelas realistas de um Gustave Flaubert. Em 1991, revisita Jack, o Estripador ao produzir o monumental Do Inferno (Veneta, 592 págs., R$ 94,90), ilustrado pelo escocês Eddie Campbell.

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O roteirista Moore

Um amontoado de obscurantismo. O mundo em 2015. O capitalismo que multiplica a exclusão, a escalada do terror. Em entrevista por e-mail a CartaCapital, Campbell reconhece que a atualidade da obra de seu parceiro Moore não se limita àqueles impiedosos anos 1990, semelhantes aos transcorridos no século anterior. “A narrativa não seria suficientemente boa se não pudéssemos tê-la usado com o objetivo de observar uma história ainda maior, plural.” Alan Moore utilizou um universo estabelecido na imaginação popular, o do anti-herói Estripador, para dizer as coisas que julgava necessárias no presente, relacionadas ao modo como se estabelece o poder.

“Não estávamos interessados em especular a verdadeira identidade de Jack”, diz Campbell. “Para Moore, a narrativa dos assassinatos em Whitechapel era uma armação na qual se enganchava um complexo de ideias em torno da geografia psíquica e da arquitetura do tempo. Precisávamos de uma grande história para alcançar isto, mas não nos importávamos com sua estrita veracidade. Quero dizer, não há dúvida de que os assassinatos ocorreram, mas o resto é especulação.”

Do Inferno baseia-se grandemente em um livro de 1978 que investiga os assassinatos. Em Jack the Ripper: The Final Solution, Stephen Knight não dá a prometida solução final ao caso, mas inclui a rainha Vitória em uma poderosa teoria conspiratória em torno dos assassínios. Jack seria William Gull, um cirurgião pioneiro na vida real ao descrever a anorexia nervosa. A rainha de ferro teria pedido a Gull que tocasse o terror sobre as prostitutas ao fim executadas. Isso porque elas chantageavam a Corte, determinada a esconder a existência da amante católica de um descendente, jogada ao sanatório onde enlouqueceu.

Descrito o argumento, Moore aprofunda as tintas de um ideário. Gull é um maçom para quem cada região de Londres esconde a chave da retomada de poder. Deve-se restabelecer a ordem antiga masculina, representada pelos obeliscos que apontam ao sol. Às mulheres, seres lunares desprovidos de razão, é preciso vetar a autonomia, exercida e representada no passado mitológico pela caçadora Diana. As mulheres que vivem por si seriam tão perigosas quanto os primeiros comunistas.

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A misoginia e a violência, sem que Freud as explique

Gull é um vilão típico, misógino e violento, e não há justificativas psicanalíticas para suas atitudes. Mas Campbell nega que o objetivo com isso tenha sido o de simplificar o personagem. Em direção contrária, o trabalho teria colocado um terrível espelho diante de quem o lê. “Há uma espécie de armadilha no modo como apresentamos a história. Os leitores podem ser levados a concordar com as avaliações que o suposto Jack faz do mundo. Mas, repentinamente, no decorrer da narrativa, perceberão que aplaudiram um lunático. O doutor Gull ficcional é um vilão das proporções de Hannibal Lecter. Contudo, tenho quase certeza de que o Gull verdadeiro não foi realmente Jack.”

No compêndio, as mulheres extenuadas jamais descansam pela sobrevivência. Viver é sua petulância. “Há uma grande porção de feminismo envolvida nesta ficção”, acredita o artista. “Recentemente li um texto em que alguém detectava misoginia em nosso trabalho. Claramente a pessoa não entendeu o que leu. As mulheres nessa narrativa são encurraladas em uma armadilha porque um estado de coisas permite isso. Sem dúvida sua história é sombria. A tentativa de escapar dessa situação miserável resulta em simples destruição.”

Campbell diz ter sido “suave” o trabalho com Moore. “Nunca discutíamos ideias, somente um ou outro problema de logística, quando um desenho parecia se situar na região errada de Londres.” Para Campbell, outro roteirista como ele será difícil encontrar. “Não há certamente uma escola Alan Moore. Muitos tentaram imitar pequenas características de seu trabalho, sem nem desconfiar de que jamais haviam atingido a mesma profundidade.” Desenhista que esteve na lista de best sellers do New York Times com esse trabalho adaptado ao cinema em 2001, com Johnny Depp no papel principal, Campbell atualmente parece ter apenas um temor. “Os protestos no Oriente Médio contra os desenhistas mortos no atentado ao Charlie Hebdo me fazem indagar se o mundo inteiro não estará mergulhando em um buraco escuro.”