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Número 836,

Cultura

Livro

Henfil detalha seu método de criação humorística

por Rosane Pavam publicado 19/02/2015 08h59, última modificação 19/02/2015 09h57
Cartunista falou a Tárik de Souza em 1988, quatro anos antes de sua morte, sobre seu modo de corrigir pelo escárnio o ridículo país ditatorial
Henfil

Corrigir pelo escárnio, o método de Henfil para combater um país mergulhado no ridículo

A ideia não é nova. O humor pode matar o humorista. Ou, como tão bem sabia Henrique de Souza Filho, o Henfil, o humor pode matar o humor. Por decorrência das artes da criação, o personagem concebido pelo artista ganha o entendimento que for de seu público. Mais do que isso, obrigado a refazer constantemente a natureza de seu personagem, o humorista dará ao ser fictício a vida que este exigir. E o que o artista terá imaginado engraçado no início corre o risco de jamais o ser.

Neste pequeno grande livro, o crítico musical e colaborador de CartaCapital Tárik de Souza conversa com o amigo, “frequente sparring de embates políticos, religiosos, estéticos, futebolísticos, mulherísticos”, quatro anos antes de sua morte, aos 44 anos, em 1988. Era para ser um compêndio em que a Editora Vozes indicasse um caminho para a construção do humor político. Mas Henfil cismou com o “como” contido no título sugerido e não conseguiu escrever. A Tárik, então, detalhou seu método de corrigir pelo escárnio o ridículo país ditatorial.

HenfilNa Disneylândia corrosiva e nada lucrativa de Henfil, o cangaceiro Zeferino, criado para ser herói, com o tempo ganharia o fim da fila. Seu segundo personagem seria Bode Orelana, o filósofo. O Cabôco Mamadô, personagem que mais feriu o artista, segundo ele conta, e que no cemitério dos mortos-vivos enterraria de Maluf a Elis Regina, um dia sepultaria o próprio Henfil (e a si). Baixim talvez fosse ele próprio. E, embora a Graúna tivesse nascido para o comentário lateral, receberia asas de avião. “Hoje, a Graúna é o principal personagem, o Bode é o segundo e o Zeferino virou aquilo que a Graúna ia ser. E eu não controlo a Graúna. Eu controlo o Zeferino”, anotou.

A criação de Ubaldo, o Paranoico, foi-lhe sugerida por Tárik, a quem Henfil atribuía uma característica “de paranoia, de gozação”. Principalmente, o artista fala sobre a necessidade de “pegar o bonde” da história para fazer o riso funcionar. “A chave para fazer humor engajado é estar engajado. Não há chance de você ficar na sua casa vendo os engajamentos lá fora e conseguir fazer algo. Esse talvez seja o humor panfletário. Aquele que você faz de fora.”

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