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Número 836,

Economia

Economia

Guerras monetárias

por The Observer — publicado 14/02/2015 08h18
O suprimento de dinheiro aumenta e a estagnação espalha-se no mundo
Tax Credits/Flickr
Euro

Uma enxurrada de liquidez amortece a expansão das exportadoras

O mundo parece pronto para uma batalha monetária entre vizinhos. Todos os sinais indicam que o pacote de estímulo de 1,1 trilhão de euros do Banco Central Europeu desencadeará um longo período de guerras monetárias em prejuízo dos países da área. Talvez não exatamente da maneira como arrasou a economia global na década de 1930, com tarifas comerciais retaliatórias e a produção industrial em uma espiral descendente. Mas com intensidade suficiente para amortecer o entusiasmo das empresas exportadoras para expandir a produção.

Esta é uma guerra que coloca os bancos centrais dos principais blocos comerciais  uns contra os outros e, conforme as moedas ganham e perdem valor alternadamente, gera nervosismo e cautela entre investidores, com risco de levar a anos de estagnação.

Dois economistas que advertiram sobre a possibilidade de um achatamento do crédito em 2007 hoje avisam sobre o início de desvalorizações competitivas orientadas por políticas dos bancos centrais. Antes de Davos, William White, da OCDE e ex-economista-chefe do Banco de Compensações Internacionais (BIS, em inglês), disse: “Estamos vendo verdadeiras guerras monetárias, todo mundo está fazendo isso e não tenho ideia de onde vai terminar”.

Antes do Natal, no Guardian, o economista Nouriel Roubini, conhecido como Dr. Catástrofe por suas previsões anteriores de calamidade, advertiu que, embora fosse possível um ou dois países pequenos fazerem desvalorizações silenciosamente, quase todos os demais estavam depreciando suas moedas em relação ao dólar e entre si também.

O euro caiu quase 20% ante o dólar nos últimos sete meses, e está destinado a dar mais um mergulho depois do anúncio, no dia 22 de janeiro, de suprimento monetário (quantitative easing) do BCE. Quem sabe o euro poderá valer menos de 1 dólar dentro de alguns meses? No ano passado, chegou perto de 1,40 dólar.

Segundo o presidente do BCE, Mario Draghi, o valor do euro não segue uma meta oficial. Em reuniões anteriores, no entanto, manifestou a sua preocupação com o fato de a moeda estar fora de compasso em relação ao baixo desempenho da economia da Zona do Euro. Draghi esperava que os corretores de câmbio fizessem o seu trabalho. Afinal, o banco foi obrigado a emitir dinheiro, e muito, para reduzir o valor do euro.

Draghi talvez esteja apenas reagindo aos EUA e ao Reino Unido, que imprimiram dinheiro para desvalorizar o dólar e a libra esterlina depois do colapso do Lehman Brothers em 2008, e aos japoneses, que, fazendo o mesmo, reduziram pela metade o custo de suas exportações para os EUA no ano passado. Em novembro, o Banco Central do Japão acionou novamente as impressoras com a intenção de aumentar as aquisições de ativos para 700 bilhões de dólares por ano.

Essa política é legítima como solução de curto prazo, enquanto reformas estruturais mais profundas são implementadas, dirão as autoridades de Tóquio, embora o primeiro-ministro, Shinzo Abe, não diga quanto tempo isso leva. Muitos acadêmicos no Japão e em outros lugares afirmam ser impossível um país com altos salários, em luta contra competidores com custos baixos voltar a ter um iene alto.

Existe um sentimento crescente de que o Reino Unido está na mesma situação. Os britânicos em férias vão se beneficiar enormemente da queda do euro, mas as exportações serão atingidas com força. John Mills, o empresário e doador do Partido Trabalhista, afirmará em um livro a ser publicado que a libra deveria ficar perto da paridade com a moeda norte-americana e não nos atuais 1,50 dólar. Não se pode esperar dos industriais uma expansão significativa da produção antes de a moeda cair.

Quanto aos americanos, verão sua recuperação vacilar sob um dólar alto? Em resposta, o Congresso poderá aumentar a pressão sobre o presidente para impor tarifas às importações artificialmente baratas. A irritação quanto à China por sua política de depreciação poderia transbordar para disputas com o Japão e a Europa pelo mesmo motivo. E a presidenta do Federal Reserve dos EUA, Janet Yellen, poderia sofrer pressões para bloquear o aumento das taxas de juro planejado para conter a ascensão do dólar. Se o fizer, as guerras monetárias globais avançarão a pleno vapor.

Com um agravante: torpedearão um sistema minado por fraudes de sofisticação crescente. Magnus Peterson, gerente de fundo da Mayfair, recentemente começou a cumprir 13 anos de prisão por fraude, falsificação e falsa contabilidade. Dois anos atrás, o caso contra ele fora encerrado sob a justificativa de que alguns crimes financeiros são complexos demais para a avaliação dos jurados.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves