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Número 836,

Cultura

Teatro

Duas décadas de críticas de Sábato Magaldi

por Ana Ferraz publicado 18/02/2015 01h45
Autoridade incontestável na área, crítico chegou a assistir 156 espetáculos por ano
Olga Vlahou
Magaldi

Magaldi, "cansado" com os palcos

A biblioteca que o crítico Sábato Magaldi mantém em seu amplo apartamento em Higienópolis tem 10 mil volumes dedicados ao teatro. A paixão avassaladora pelo assunto que o levou a tornar-se referência incontestável surgiu em 1951, quando foi estudar Estética na Sorbonne. Até então, preparava-se para seguir a carreira de crítico literário, que exercia desde os 18 anos, em Belo Horizonte. O amor intenso despertado em Paris mostrou-se incurável e conduziu o jovem mineiro a tamanho frenesi pelo objeto de veneração que chegou a assistir a 156 espetáculos por ano. Privilégio que não cansou de louvar.

“Ele era casado com o teatro. E isso só não era concorrência porque eu ia junto aos espetáculos”, conta a escritora e dramaturga Edla van Steen, há 35 anos ao lado do crítico. É a mulher e companheira quem melhor define a relação de Magaldi com seu objeto de adoração: “Ele não é aquele tipo de crítico que vai ver a peça, escreve a respeito e acabou. É conivente, cúmplice do teatro”. O ritual de seu fazer devocional compreendia ler o texto, assistir ao espetáculo e, em casa, anotar impressões num caderninho, referências para a crítica a ser escrita no dia seguinte. Ao todo, os cadernos somam 49 de 400 páginas cada um, todos manuscritos com caneta esferográfica. No total, quase 20 mil páginas que registram parte considerável da história da dramaturgia no Brasil.

Com a obstinação que atribui à herança genética belga, Edla debruçou-se nos últimos três anos sobre os arquivos de Magaldi, distribuído por caixas guardadas na biblioteca. Como a se valer de dons premonitórios, quando se casou com o crítico recorreu à Biblioteca Mário de Andrade para copiar a produção do marido no período em que escreveu para o Jornal da Tarde. Mino Carta recorda-se de uma ocasião especial, em que pediu ao crítico que escrevesse sobre um clássico do futebol, um jogo entre Palmeiras e Corinthians. “Ficou divertidíssimo.” Edla organizou o material em pastas. O resultado sai agora sob a forma de um alentado volume de 1.224 páginas que compreende mais de duas décadas de textos, publicados entre 1966 e 1989, sob o apropriado título Amor ao Teatro.

A escritora escolheu o título sem ter conhecimento de que certa vez, ao responder sobre quais as qualidades fundamentais ao exercício da crítica, Magaldi declarou que seriam o amor pelo teatro e a boa-fé. Coisa de sintonia fina. De quem compreende a necessidade de o marido ir ao teatro toda noite, vontade que se mostrou insaciável até pouco tempo atrás, quando dias mais serenos sobrevieram, em acordo com os 88 anos a ser completados em maio. “Em 1985, quando moramos na Europa por quatro anos, ocorria de ele ler os jornais estrangeiros e de repente deparar com o anúncio de uma apresentação de obra de Tadeusz Kantor ainda não vista. E lá íamos nós pegar um avião para assistir ao espetáculo. Eu já apreciava muito teatro, mas o envolvimento foi aumentando. Para o casamento durar tinha de gostar”, brinca.

Na mesma proporção da disciplina que o levava a estudar e analisar detidamente cada obra dava-se uma paradoxal falta de ordem. Ela não se recorda de ter visto o marido devolver às pastas pacienciosamente organizadas as páginas retiradas para consulta. “A mesa era uma desordem, muita coisa se perdeu.” Concluído o trabalho de organizar o material, Edla acaba de encontrar mais uma caixa. De todo modo, foi preciso ser rigorosa na seleção. “Se não fosse severa teria de incluir as 3 mil críticas que li. Deixei de lado os textos em que as avaliações eram muito negativas e as pessoas não seguiram carreira. Críticas de dança e teatro infantil ele mesmo pediu para não entrar, por não se sentir seguro. Quando viu o catatau que o volume virou, disse, ‘você acha que vale a pena?’”

Na avaliação da organizadora de Amor ao Teatro, o livro é um manancial de consulta. Há muitas histórias que registram a evolução da dramaturgia e revelam o modo como Magaldi exercia a crítica com elegância e isenção. No texto dedicado à análise de As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant (1984), considerou errada a decisão de o diretor Celso Nunes colocar Juliana Carneiro da Cunha a executar uma dança que julgava não existir no original. Seis meses depois, ao rever o filme de Rainer Werner Fassbinder e constatar o engano, refez o texto. “Ele é muito ético.”

Amigo de uma vida inteira de Nelson Rodrigues, Magaldi conversava quase diariamente com o dramaturgo. Ao escrever sobre a encenação de Bonitinha, mas Ordinária (1974), sob direção de Antunes Filho, elogia o texto que “agarra o espectador pela teatralidade espontânea, pelo brilho do diálogo e pela arquitetura da história, tramada com nervosismo e incrível economia de meios”. A admiração confessa não o impediu de expressar descontentamento com outro texto de Rodrigues, Serpente. E a crítica negativa jamais abalou a amizade, condição que não se deu em outros casos. Poucos, diga-se, dado o volume de textos produzidos.

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Mirian Mehler em 'Bonitinha, mas Ordinária', dirigida por Antunes Filho em 1974

“Como ele era cúmplice, jamais destruía totalmente alguém, a não ser em caso extremo, como na crítica de As Mãos de Eurídice”, relembra a escritora acerca do texto de Pedro Bloch encenado em 1970. Com fina ironia, Magaldi desconstrói o monólogo que teve 30 mil récitas em 45 países, elogios em massa e “uns poucos renitentes que não ficaram seduzidos por essas mãos. Sobra-nos o pequeno consolo de achar que o mau gosto e a subliteratura não são privilégios brasileiros, argentinos ou mexicanos, mas se repartem um pouco por todos os continentes”.

Entre os escritores que buscavam conselhos do mestre estavam Osman Lins, Jorge Andrade e Plínio Marcos. Magaldi sugeria mudanças, cortes, comentava o que não funcionava. Modificado, o texto voltava às suas mãos e muitas vezes esse caminho era refeito uma dezena de vezes. “Ele fazia isso sem cobrar, por devoção. Gostava dos autores brasileiros, Gianfrancesco Guarnieri, Oduvaldo Vianna Filho, Maria Adelaide Amaral. Antigamente era comum os autores lerem os textos uns dos outros. Otto Lara Resende corrigia o Fernando Sabino, que lia o Rubem Braga, que lia o Sabino. É muito bom ter alguém com quem discutir antes de publicar.”

Outra característica marcante do crítico que evitava estreias, por considerar que o nervosismo e a falta de alguns ajustes prejudicassem a encenação, era a capacidade de descobrir talentos. Foi assim com um jovem José Wilker em O Arquiteto e o Imperador da Assíria (direção de Ivan de Albuquerque, 1970), “que já aparece como ator completo, e dominando como poucos a expressão corporal. Dotado de espantosa agilidade, ele é bem o arquiteto de Arrabal, ser primitivo que reina sobre os elementos na ilha deserta”. Durante um teste na Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo, bastou a Ney Latorraca “abrir a boca e dar dez passos para Magaldi decretar ‘você é um ator nato’”.

O intelectual que alunos, diretores e dramaturgos consideram mestre costuma dizer que se acertou em 10% do que escreveu se dá por satisfeito. Mesmo na hipótese de se acatar a modéstia excessiva o número não é desprezível, pois Magaldi é autor de 18 livros e milhares de resenhas que ainda vão render ao menos mais um volume.

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