Você está aqui: Página Inicial / Revista / O Circo Brasil / A Grécia e o euro
Número 836,

Economia

Análise/Paul Krugman

A Grécia e o euro

por Paul Krugman — publicado 13/02/2015 05h53
Se o país se retirar do sistema, será porque Bruxelas e Frankfurt tornaram refém o seu setor bancário
LOUISA GOULIAMAKI / AFP
Grécia

Por que a Grécia poderia ser tirada do euro?

A tirania da grécia sobre a Alemanha é o título de um livro clássico de Eliza Marian Butler, que afirma que a cultura alemã foi deformada por uma obsessão pela antiga Grécia, o que não tem absolutamente nada a ver com os atuais problemas da política macroeconômica.

Mas lembrei-me do título quando li a meditação do economista Simon Wren-Lewis sobre duas hipóteses diferentes para a virada desastrosa para a austeridade em 2010 (leia no site bit.ly/1CWutmd). Uma hipótese, segundo ele, é que foi apenas má sorte. A Grécia estourou no fim de 2009 e falsas analogias entre os problemas econômicos da Grécia e os de outros países logo dominaram o debate político. Você pode chamar essa helenização do discurso de tirania da Grécia não tanto sobre a Alemanha, mas sobre a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico como um todo.

A outra hipótese é que a Grécia simplesmente foi um instrumento útil para pessoas que teriam orientado a política na direção errada de qualquer maneira. Se os problemas econômicos da Grécia não tivessem acontecido, essas pessoas teriam encontrado outras desculpas. Considere, se quiser, o fato de que Nick Clegg, o vice-primeiro-ministro da Grã-Bretanha, declarou recentemente em uma coluna do jornal The
Telegraph
que os recentes acontecimentos na Grécia são um argumento a favor das políticas de austeridade.

Concordo principalmente com a segunda hipótese, não exatamente pelos motivos que Wren-Lewis menciona, mas por causa do que ouvi no outono de 2009, pré-crise da Grécia, qual seja, que mesmo dentro do governo Obama, e apesar dos custos muito baixos dos empréstimos, muitas autoridades tinham conseguido convencer a si mesmas e umas às outras de que a posição fiscal dos Estados Unidos era frágil. Outros ouviram a mesma coisa.

A Grécia certamente facilitou essa venda. Mas a determinação a obcecar-se pelo déficit, diante do desemprego em massa, era profunda.

Um ponto que parece relevante para as discussões sobre a “Grexit”, a saída grega do euro. Nesta altura não está claro que a Grécia precise de um grande reforço em competitividade. A “desvalorização interna” mediante a queda dos salários é incrivelmente cara, mas a Grécia já está pagando custos incríveis e conseguiu uma redução acentuada em salários relativos.

Por que, então, poderia acontecer uma saída do euro? A principal resposta seria os bancos gregos, que dependem da disponibilidade de um credor de último recurso, papel que o governo grego não pode desempenhar porque não possui moeda.

Mas o que isso significa é que, se a Grécia for tirada do euro, o será porque Bruxelas e Frankfurt na verdade decidiram fazer refém o sistema bancário grego, e a Grécia não quis pagar o resgate. É uma perspectiva um pouco diferente, não é?

Olivier Blanchard, Ben Bernanke, Ken Rogoff, Mario Draghi e este que vos escreve, todos se encontravam no MIT em meados dos anos 1970. Larry Summers estava em Harvard na mesma época, fazendo cursos no MIT e praticamente todo mundo foi aluno de Stan Fischer. A maior parte desse grupo tem opiniões razoavelmente semelhantes sobre como funciona a política. É sempre engraçado quando as pessoas me retratam como uma espécie de marxista louco, com opiniões sobre política monetária e fiscal completamente fora da corrente dominante. Posso escrever com intensidade, mas na substância geralmente há muito pouca diferença entre o que eu digo e o que dizem meus ex-colegas ultrarrespeitáveis.

O que me traz ao ponto. De modo incomum, Blanchard, o economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, e eu temos uma discórdia significativa neste momento sobre a política monetária americana (e isso não é informação privilegiada – ele falou a respeito na conferência mais tarde naquele dia). Estou muito preocupado que o conselho do Federal Reserve possa estar se preparando para aumentar as taxas de juro cedo demais. Ele é otimista, considerando mínimo o risco de uma armadilha do tipo Japão nos EUA, e sólida a tese para um aumento de taxas este ano.

Quando olho ao redor, percebo que nossa discórdia faz parte de uma divisão maior. Entre a máfia de Cambridge e, em geral, entre sujeitos voltados para políticas, mais ou menos keynesianos, existe uma divisão surpreendentemente acentuada sobre a política monetária de curto prazo nos EUA. E a divisão parece depender de uma coisa: se o economista em questão está atualmente em um cargo político. Summers teve seu momento dirigindo o mundo, mas agora fala exatamente como eu.

registrado em: , ,