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Número 835,

Política

Análise/Paul Krugman

O risco dos acordos comerciais

por Paul Krugman — publicado 07/02/2015 09h35
Quando se dá enorme prioridade a tratados complexos com base em raciocínios falsos, há risco de más notícias escondidas
Sarah Elliott/Flickr
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O chefe da Câmara de Comércio dos Estados Unidos, Tom Donohue, advertiu contra o "populismo econômico"

Quando se trata de acordos comerciais, cuidado com as falsas explicações. De modo geral, sou a favor do livre-comércio. Eu diria que há uma tendência, por parte de algumas pessoas com quem concordo em muitas questões, de demonizar os acordos comerciais, tornando-os responsáveis por males que têm outras causas. E minha opinião sobre os dois acordos comerciais hoje em negociação, a Parceria Trans-Pacífico e a Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento, é que há muito menos aí do que parece.

Mas minha irritação e minhas suspeitas crescem quando escuto seus defensores. Em seu recente discurso sobre o Estado das Empresas Americanas, Tom Donohue, chefe da Câmara de Comércio dos Estados Unidos, advertiu contra o populismo econômico, que segundo ele é na verdade uma medida para criar uma “economia dirigida pelo Estado”. Pois é, basta mencionar o aumento da desigualdade de renda, que você é Joseph Stalin (a menos que seja Mitt Romney). Mas o que realmente me pega é a suposta agenda para o crescimento da Câmara. No topo da lista, como prioridade número 1, está a conclusão desses acordos comerciais.

Isso é absurdo, e perturbador. Pense bem. O problema imediato que a maior parte do mundo enfrenta é a demanda inadequada e a ameaça de deflação. A liberalização do comércio ajudaria nessa frente? Não, de modo algum. É verdade que na medida em que o comércio fosse facilitado, as exportações mundiais aumentariam, o que é muito bom para a demanda. Mas as importações mundiais se expandiriam exatamente na mesma proporção, o que é uma desvantagem. Ou, para colocar de modo diferente, a liberalização do comércio mudaria a composição dos gastos mundiais, com cada país gastando mais em produtos estrangeiros e menos em seus próprios, mas não há motivo para se pensar que os gastos totais seriam maiores. Então isso não é um estímulo econômico em curto prazo.

Poderiam esses acordos ser sobre o lado da oferta, sobre aumentar a eficiência e a produtividade? Bem, os modelos econômicos-padrão dizem que a liberalização teria esse efeito, em princípio, mas os efeitos só são grandes quando se parte de altos níveis de protecionismo.

Talvez você ainda pense que devemos fazê-los. Mas acordos comerciais como maior prioridade econômica? Mesmo? Isso é tão bizarro que nos deveria fazer perguntar por que, exatamente, alguém como Donohue gostaria que esses acordos fossem aprovados. E você tem de desconfiar que o motivo é que alguns de seus clientes importantes acham que os aspectos não comerciais dos acordos, coisas como proteção à propriedade intelectual, lhes darão muita renda de monopólios.

Há motivos para se apoiar esses acordos e motivos para se opor a eles. Mas minha ideia imediata é que, quando a Câmara de Comércio dos EUA dá enorme prioridade a acordos complexos e oferece um raciocínio obviamente falso, você deve suspeitar fortemente de que há alguma má notícia escondida nas letras miúdas.

Estive em Délhi recentemente, onde passei a maior parte do tempo em salas cheias de pessoas falando de economia. Mas saí um pouco para ver algumas atrações, e me vi pensando em história. E pensei em infligir um pouco de especulação histórica amadorística a meus leitores.

O ponto de partida, para mim, é perceber exatamente o tamanho do Império Mogol (eu sei, ocidental ignorante). Nos séculos XVI e XVII, o império era muito mais populoso do que qualquer Estado europeu. Na verdade, era comparável a toda a Europa ocidental, ou maior. E essa foi uma era em que as rendas per capita eram bastante semelhantes, por isso a economia mogol também teria superado em muito qualquer economia europeia.

Mas o Estado mogol era original? Não, na verdade. Ele floresceu em uma era de “impérios da pólvora”, grandes Estados em que a força do governo central repousava na artilharia de sítio e na infantaria profissional de lança e mosquete. Em geral, o termo é aplicado principalmente aos três Estados islâmicos gigantes, o otomano, o safávida e o mogol. Mas, do modo como eu vejo a coisa, todo o arco da China dos Ming/Qing à Espanha dos Habsburgo se encaixa basicamente nesse modelo.

Nessa era, os Estados do noroeste da Europa que acabaram tendo tamanha importância na história mundial parecem banais, e ainda pareciam banais em população e peso econômico no fim do século XVIII. Além disso, eles não tiveram qualquer vantagem visível em tecnologia militar até muito mais tarde. Mas certamente essa também é uma imagem simplista.

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