Você está aqui: Página Inicial / Revista / Contra a austeridade / Futebol alegria
Número 835,

Cultura

Futebol prazer

Futebol alegria

por Redação — publicado 08/02/2015 09h08
Um time amador inglês diverte-se com a bola. A torcida brasileira fica sem entender
Rodrigo Gazzanel/Futura Press/Estadão Conteúdo
Casuals

Os craques do Casuals bateram seu recorde de audiência no Itaquerão

Ao contrário do que sugere o nome imponente, o King George’s Field de Tolworth, subúrbio 20 quilômetros a sudoeste de Londres, não tem mais do que uma plebeia arquibancada, onde mal se acomodam 250 pessoas e as últimas partidas do time local têm acolhido uma centena de espectadores, se tanto. Mas, no sábado 17, o Corinthian-Casuals exibiu-se para um público próximo dos 30 mil aficionados, tendo sido acolhido com festa, apesar daquele singular uniforme que lhe inspirou o apelido amigo de “Pink and Chocolate”, mas que, em circunstâncias outras, teria suscitado na plateia alienígena uma saraivada de obcenidades para lá de homofóbicas.

Dentro do possível, comportaram-se com respeito os quase sempre coléricos Gaviões do Itaquerão, onde o Corinthian-Casuals, que disputa – se é que esta é uma palavra conveniente – a oitava divisão da Liga Inglesa, veio desfilar o esquecido prazer de jogar futebol apenas pela alegria do próprio jogo. For the fun of it, como disse o arisco atacante Jamie Byatt, aliás Busy Jamie. No Brasil traumatizado do pós 7 a 1, nem sempre é possível entender essa alegria. Raiva e intolerância são hoje os temperos de nossa humilhação.

Futebol suave e prazeroso é o que praticam os Corinthian-Casuals, como aconteceu quando por aqui estiveram seus antecessores, em 1910, em turnê engravatada para divulgar a jovem arte do football association, embora a bagagem dos visitantes exibisse, além daquela bola de couro costurada à mão, raquetes de tênis para o desfrute das horas vagas. Causaram tão boa impressão que um punhado de artesãos paulistanos, três meses depois, batizou o time que acabava de fundar com esse nome – Corinthians.

São todos amadores os atuais craques londrinos do Corinthian-Casuals, continuam sendo desde sempre. Tanto o Corinthian, de 1882, quanto o Casuals, de 1883 (vieram a se fundir depois de terem seus elencos dizimados nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial), recusaram-se a aderir ao profissionalismo em 1888, quando a Liga Inglesa foi criada. Embora bons resultados não lhes faltassem. Naqueles tempos de football risonho e franco, surraram equipes tradicionais, como o Blackburn Rovers e o Sheffield. Coube ao Corinthian impor ao Manchester United a pior derrota de sua história: 11 a 3, em 1904.

Por mais talento que apresentem hoje no manejo da pelota, a ponto de terem dado um sufoco, no Itaquerão, numa esquadra que tem dois títulos de campeão do mundo no currículo, os militantes do Corinthian-Casuals são obrigados a ganhar a vida fora das quatro linhas, tendo o time já abrigado em suas linhas um coveiro, um refugiado e, simultaneamente, um policial e um ex-presidiário. A torcida do Itaquerão não pegou bem o espírito da coisa, mas, se algum cavalherismo faltou aos anfitriões, que levaram a sério o que era para ser só diversão, São Paulo compensou os convidados com uma tarde chuvosa capaz de lembrar Londres.

Da outra vez que o Casuals por aqui esteve – a vantagem do amadorismo é a agradável possibilidade de excursionar ao esterior o tempo todo, ou quase –, pelo menos um craque adversário decidiu estender para os londrinos o tapete vermelho da melhor fidalguia. Na tarde de 5 de junho de 1988, no Pacaembu, o Dr. Sócrates, depois de cometer a imprudência de fazer um gol, decidiu trocar de camisa e se empenhar, trajando o rosa-tabaco dos Casuals, em estabelecer a igualdade. Não conseguiu, mas valeu o gesto de cavalheirismo.

Neste féerico tour de sete dias por São Paulo – com despesa compartilhada com a Great, a agência oficial de promocão comercial da Grã-Bretanha –, um dos locais visitados, com aroma de nostalgia, foi Paranapiacaba, hoje distrito de Santo André, no ABC Paulista, o local onde, em 1910, os nobres bigodudos do Corinthian se exibiram diante dos engenheiros ferroviários patrícios seus. O Brasil começava a se encantar com aquela coisa chamada futebol. Um século depois, o encanto murchou.

Os idiotas da objetividade

Será que eles sabem quem somos nós?”, pergunta o inesperado cartola inglês de bermuda e Havaianas, no camarote do Itaquerão. Difícil responder. Não há corintiano da gema que não saiba que o tal Corinthian-Casuals Footboll Club está nos primórdios da história de seu time do coração, que os visitantes são coirmãos, que jogam pelo prazer, à margem do profissionalismo. Ainda assim...

Ainda assim, o público do Itaquerão comportou-se como se o amistoso não fosse nada amistoso, com gritaria digna de final de Brasileirão, impropérios geralmente reservados aos rivais e vaias rabugentas contra jogadores... do próprio Corinthians. Os gols levianos provocam uma explosão descabelada. A vitória é uma descortesia. Os convivas brincalhões sentem vergonha – por nós.

“Você sabe: a torcida sempre acha que é o último jogo da vida”, tento aliviar. O cartola nada cartola, que é torcedor do proletário Fulham, concorda, indulgente: “Entendo o que você está falando”.

Não, ele não entende. O torcedor brasileiro cultiva nos menores gestos o fetiche do fanatismo. Leva consigo para o estádio e exibe, fora dele, o orgulho vazio de pertencer a uma religião profana na qual o único mérito é o gol e a suprema punição é a derrota. O torcedor encanta-se com seu exibicionismo descerebrado, enquanto os gols vão saindo: um, dois, cinco, sete – 7 a 1.  Ninguém entendeu nada; não vai entender jamais.

registrado em: , ,