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Número 834,

Economia

Análise/Paul Krugman

Mudança de regime

por Paul Krugman — publicado 29/01/2015 06h07
O recuo do Banco Nacional da Suíça tornará a política monetária mais complexa em outros países
alex.ch/Flickr
Banco Nacional da Suíça

O Banco Nacional da Suíça atirou a toalha quanto ao atrelamento do euro

Hoje em dia se aceita de modo quase generalizado que é muito difícil os bancos centrais conseguirem operar no limite inferior zero, a menos que eles possam convencer os investidores de que houve uma mudança de regime. Em outras palavras, mudar as expectativas sobre as futuras políticas é mais importante do que o que se faz agora. Foi a isso que me referi em 1998, quando afirmei que o Banco do Japão precisava “prometer de maneira verossímil ser irresponsável”, algo que só conseguiu fazer recentemente.

O problema é que é difícil produzir uma mudança de regime. Na semana passada, porém, o Banco Nacional da Suíça conseguiu uma mudança de regime verossímil. Infelizmente, foi uma mudança na direção errada. Ao atirar a toalha quanto ao atrelamento ao euro, o banco imediatamente convenceu os mercados de que seu aparente compromisso anterior de fazer o que fosse preciso para evitar a deflação foi nulo e vazio. E esse efeito nas expectativas superou a política de taxas de juro drasticamente negativas sobre as reservas.

Há duas coisas de que devemos lembrar. Primeiro, tendo jogado fora sua credibilidade (no mundo atual, a credibilidade crucial que os bancos centrais precisam ter não significa uma intenção de levar embora as bebidas, mas de empurrá-la para a turma abstêmia), é difícil ver como o BNS conseguirá recuperá-la. Segundo, haverá repercussões. O recuo do banco tornará a política monetária mais complexa em outros países, porque deixará os mercados céticos sobre se outros supostos compromissos de manter uma política não convencional se mostrarão igualmente limitados no tempo.

Alguns leitores não entenderam quando declarei recentemente que o economista Joe Stiglitz e este que vos escreve são os “econo-heróis” da esquerda, enquanto outros como Stephen Moore e Art Laffer fazem esse papel à direita.

Não, o que eu quis dizer, e achei que isso era óbvio, é que Stiglitz e eu tendemos a ser citados ou invocados com frequência na mídia liberal e por liberais em geral, geralmente com excessiva aprovação. E a questão é que, embora haja pessoas exercendo um papel comparável nas discussões de direita, elas tendem a não ser muito citadas ou sequer são economistas competentes.

Por isso, não me digam que Greg Mankiw ou Robert Barro são economistas famosos e também conservadores. De fato, eles são. Mas eles são onipresentes no cenário conservador? Façam uma medição crua e veja os resultados no Google News e constatarão uma verdadeira assimetria. Você pode, se quiser, alegar que dentro da profissão econômica os conservadores são intelectualmente equivalentes ou superiores aos liberais. (Não, os professores de economia não são avassaladoramente liberais como os de outras ciências sociais.) A questão, entretanto, é que a direita não recorre a esses eminentes economistas conservadores para obter orientação e apoio. Ela prefere os embusteiros.

Houve duas eras distintas para o sistema euro. Na primeira, que durou até a crise financeira, o capital inundou a Europa Meridional.

O resultado foi um grande crescimento no Sul, e uma inflação um tanto elevada e isso foi, mais uma vez, considerado perfeitamente normal. Afinal, você não espera que todo mundo em uma união monetária tenha o mesmo índice de inflação. A inflação geral estava bem, e o aumento dos preços no Sul da Europa ajudou a Alemanha a tornar-se supercompetitiva e sair das dificuldades econômicas em que se encontrava no fim da década de 1990, sem precisar de uma deflação real.

Então os fluxos de capital pararam e tornou-se necessário para a Europa Meridional reverter o aumento dos custos e preços relativos que havia ocorrido na era anterior. Tanto a macroeconomia básica quanto as regras do jogo aceitas para o euro diziam que esse ajuste deveria ser simétrico com o que veio antes, que a inflação geral na Zona do Euro deveria continuar na meta, com a Alemanha administrando uma inflação significativamente maior, de modo que a baixa inflação no Sul pudesse produzir a necessária “desvalorização interna”. Na verdade, porém, não houve aumento da inflação alemã, e nesta altura ela apresenta uma queda. A inflação geral na Europa está muito abaixo da meta e a Europa Meridional foi forçada à deflação, que é muito custosa e agrava o peso da dívida da região.

Aí vêm os alemães dizendo que resolveram seus problemas, então por que a Europa Meridional não pode fazer o mesmo? Ora, porque a Europa Meridional jogou conforme as regras, mas em seu momento de necessidade as regras foram modificadas, para sua enorme desvantagem.