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Número 834,

Economia

Análise/Thomaz Wood Jr.

Anarquia e controle

por Thomaz Wood Jr. publicado 31/01/2015 10h16, última modificação 16/06/2015 17h32
Com O Ano Mais Violento, J. C. Chandor retorna à terra firme e ao não tão firme mundo dos negócios.
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A most violent year

A Most Violent Year fala de um imigrante que tenta expandir seus negócios na Nova York dos anos 1980

J. C. Chandor é roteirista e diretor de cinema. Em 2011, dirigiu seu primeiro longa-metragem, Margin Call - O Dia Antes do Fim, provavelmente a melhor obra sobre a crise de 2008. Em 2013, realizou Até o Fim, com Robert Redford no papel de um velejador. Agora, lançou O Ano Mais Violento, sobre um imigrante tentando expandir seus negócios na violenta Nova York dos anos 1980. Uma vez é sorte, duas pode ser coincidência, mas três vezes talvez seja prova de talento real.

Margin Call narra um período de 36 horas em um banco de investimento de Wall Street. O elenco traz nomes conhecidos, como Kevin Spacey, Jeremy Irons, Demi Moore e Stanley Tucci. O centro da trama são as ações e reações dos funcionários do banco durante o colapso. Em foco, o funcionamento dos bastidores do capitalismo financeiro: a ganância, a racionalidade pervertida, a tênue linha divisória entre negócios e fraudes. O filme traz um olhar aguçado sobre uma das principais máquinas que fazem o mundo girar, seus personagens, motivos, aspirações, delírios e medos.

Até o Fim parece uma guinada temática e estilística na carreira do diretor. Em seu segundo filme, Chandor centra a trama em um velejador solitário. Tudo o que vemos é o personagem vivido por Redford, seu barco e a imensidão do mar, eventualmente pontuada por imensos e distantes cargueiros. Não sabemos de sua história ou dos motivos para se lançar sozinho ao mar. Há pouquíssimas palavras e nenhum diálogo. Sobre uma estrutura simples e com um ator carismático, Chandor constrói uma fábula memorável sobre a eterna batalha do homem contra os meios, e contra ele mesmo.

Com O Ano Mais Violento, Chandor retorna à terra firme e ao não tão firme mundo dos negócios. Com Oscar Isaac e Jessica Chastain nos papéis principais, o filme retrata as desventuras de um empreendedor tentando fazer negócios de forma idônea em um ambiente dominado por quadrilhas. Abel Morales (Isaac) é um imigrante que se tornou um próspero homem de negócios nos Estados Unidos. O Ano Mais Violento narra um período na vida de Morales , no qual precisa levantar recursos para expandir seus negócios, ao mesmo tempo que enfrenta acusações de fraude e evasão fiscal e sofre ataques de concorrentes. Em foco, o costumeiro dilema do empreendedor: maior o risco e maior a incerteza, maior o prêmio.

David Denby, veterano crítico da revista The New Yorker, observou que a forma como Chandor lida com o enredo clássico de ambição, tentação e violência (que já rendeu dezenas de filmes noir, thrillers e filmes de gângsteres) é mais seco, sutil, realista e com mais nuances morais que seus predecessores. O Ano Mais Violento contém cenas de violência, porém, o que sustenta a narrativa são negociações duras e ameaças veladas.

Christopher Orr, escrevendo para The Atlantic, notou que Morales é um homem obcecado por manter o controle, dele mesmo e do ambiente ao redor. Os sinais de anarquia estão em toda parte: nos prédios abandonados e pichados, nas janelas quebradas, no metrô decadente e precário. Diante do caos ao redor, de perigos iminentes, de ameaças que a qualquer instante podem provocar desastres, suas armas são a calma, a voz baixa e o olhar penetrante.

Orr argumenta que a luta dos homens para manter controle em meio ao caos ao redor tem sido o grande tema dos filmes de Chandor. Os personagens de Margin Call tentam sobreviver, e até tirar vantagens, na tempestade na indústria financeira, criada por eles mesmos. Morales quer mais e aprende rapidamente que nada é mais perigoso do que tentar alterar o estado das coisas. Até o Fim, longe dos escritórios, é uma fábula sobre o mesmo tema.

Universal, o tema aplica-se diretamente ao mundo dos negócios. Livros de autoajuda e parte considerável da literatura científica sobre gestão vendem a utopia de um mundo controlável, do sucesso que pode ser obtido por trabalho duro, pensamento analítico e comportamento racional. Algumas dessas obras são exercícios de puro ilusionismo. Outras apostam na simplificação da realidade e na premissa de que a racionalidade do management pode salvar o mundo. Falta-lhes contato com o mundo real, o que parece sobrar nos filmes de Chandor. Mais vale um Chandor na tela do que três Porters na prateleira.