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Número 834,

Cultura

Exposição

A relação entre Guilherme de Almeida e a metrópole

por Ana Ferraz publicado 27/01/2015 06h07, última modificação 27/01/2015 06h48
Na semana do aniversário de São Paulo, mostra relembra a cidade que emergia no alvorecer do século XX
Acervo da Casa Guilherme de Almeida
Guilherme de Almeida

Guilherme de Almeida jovem, na década de 1920, percorria com entusiasmo a "tentacular cidade-polvo"

o Paulo não para numa fotografia, move-se num filme. Sem isenção, pois declaradamente apaixonado pela metrópole, é assim que Guilherme de Almeida define a cidade que digere os homens: mistério/ dos seus subterrâneos/ com cabos e canos. A mesma cidade em que cada rua se revela lâmina seduz com um cântico rascante como se fosse a mítica sereia, embora o herói se recuse a ser imobilizado e prefira mergulhar na turbulência. Na alternância que tanto o encanta, depois de se livrar dos “paredões de aço e cimento” entrega-se ao verde suave da Praça da República. Ali, o “simples fazedor de versos” aprende seu mister ao observar em cada folha e flor as mudanças de estação.

Em 1929, o poeta retratou no livro Cosmópolis a São Paulo que emergia no alvorecer do século XX na condição de “tentacular cidade-polvo”, então com cerca de 880 mil habitantes. Neste mês em que completa 461 anos, a urbe ganha a exposição Guilherme de Almeida & São Paulo, que o centro de estudos de tradução literária que leva o nome do poeta promove a partir de um recorte do acervo.

A mostra, em cartaz até 28 de fevereiro, ocupa a Casa Guilherme de Almeida, em Perdizes, onde o escritor veio morar em 1946 com a mulher, a carioca Belkiss Barroso do Amaral, Baby. Um dos mentores da Semana de 1922, o poeta, tradutor, jornalista, crítico e ensaísta de grande erudição, conhecedor profundo de grego e latim, admirado e respeitado por seus pares pela destreza na composição de todo tipo de verso, desde cedo viveu um clamoroso caso de amor com São Paulo.

Era ainda um garoto do interior quando, em visita à capital, deixou-se imantar pelo espetáculo oferecido pela Estação da Luz. “Foi aí que São Paulo começou para mim”, confessa no Roteiro Sentimental da Cidade de São Paulo contido no livro Pela Cidade. “Desembarcava entre bufos fortes de vapor e cheiro forte de carvão no imenso bojo de ferro marrom e tijolinhos vermelhos do inglesíssimo monumento da São Paulo Railway.”

Nascido em Campinas, em 1890, filho de um jurista e professor de direito, Almeida chegou à cidade em 1904 e seu primeiro bairro foi a Luz, onde a família instalou-se num “solar baronial” próximo à Avenida Tiradentes, “um casarão térreo, grande, jardim lateral, com cascata e peixinhos, e pomar ao fundo”.

Marlene Laky, conservadora e restauradora do acervo do museu, conta que os bairros formados por imigrantes foram objeto de grande atenção do escritor. Em destaque na mostra, a reprodução de uma série de oito reportagens escritas em 1929 para o jornal O Estado de S. Paulo, reunidas em 1962 em Cosmópolis. Para ilustrar os inspirados textos, os belos desenhos a carvão de Antonio Gomide recriam a Rua 25 de Março, o Bom Retiro, a Mooca, a Liberdade. “Almeida fez uma espécie de roteiro, uma descrição subjetiva e pessoal”, salienta Marcelo Tápia, doutor em literatura e diretor da Casa Guilherme de Almeida. “Escreve ‘estou num automóvel, o limpador parece um leque japonês, viro a esquina e estou no Japão’. É uma descrição de um escritor.”

A metrópole plural sempre interessou ao modernista atento às transformações. “Não há vida mais viva que a da minha viva cidade de S. Paulo”,  decretou no itinerário sentimental. No poema O Homem Que Falava Sozinho, observou: A rua vai falando/ ítalo-árabe-hebraico-russo-japonês/ Um dia, não sei quando,/ um sujeito passou falando português. A azáfama, a frivolidade festejada nos salões, a gula exercitada em confeitarias como a Rotisserie Sportsman, “onde se servia o mais perfeito sorvete de pistache que houve, até hoje, no mundo (Paris compris)...” Ou naquele que para o poeta foi o templo máximo dos quitutes paulistanos, Progredior, na 15 de Novembro, em que imperava “o serviço perfeito e a orquestra excelente”. De engenho a toda prova, um tubo acústico subterrâneo atravessava a colina central e chegava a Higienópolis, onde Dona Veridiana Prado, “em sua residência solarenga”, apreciava o programa musical.

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Em imagem da década de 1920, Almeida (sentado à direita) com o grupo modernista

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No Centro, o 'fazedor de versos' sorve a metrópole

O Café Triângulo, frequentado por estudantes que interrompiam a caminhada até o Largo de São Francisco para saborear delícias, o “celebérrimo Café Guarany, que era tudo, verdadeira redação d’O Pirralho, semanário humorístico-literário-político”. Os cinemas Radium e São Bento, o Alhambra, na Rua Direita, o Iris, na 15 de Novembro. O “chilreante Bar Viaduto, para namorico de ‘melindrosas’ e ‘almofadinhas’”. Uma São Paulo de noites de sonho regadas a champanhe no bar do Theatro Municipal e calmas manhãs opalinas.

Nas delicadas vitrines da mostra, Rua (1961) destaca-se. O fotolivro de poemas e imagens de Eduardo Ayrosa foca a vida que pulsa no asfalto (Fúria de fuga centrífuga/ ônibus, autos e bondes/ Fura a fuligem equívoca/ Em que a cidade se esconde...). Perto, entre as crônicas de Pela Cidade está aquela em que o escritor fala sobre a falta de água, escrita em 1928, e outra acerca dos motoristas ensandecidos a cortar as ruas em alta velocidade. “São Paulo não mudou nada”, sorri Marlene.

Em seguida, chama atenção para a histórica Klaxon, a revista de divulgação do ideário modernista que o poeta ajudou a fundar e da qual foi editor. Artista que hoje seria considerado multimídia, Almeida criou a capa e os anúncios. “Foi um dos fundadores do Teatro Brasileiro de Comédia, escreveu o hino da televisão e a Canção do Expedicionário, concebeu o brasão da cidade de São Paulo e fez parceria com compositores como Heitor Villa-Lobos”, enumera Tápia. “Dos modernistas, foi o de visão gráfica mais arrojada. Tinha gosto e talento. Ele conta que estava na tipografia quando viu um tipo usado num cartaz da ópera Aída. Era o A que perpassa a capa da Klaxon.”

A concepção visual da capa de losangos coloridos de Paulicéia Desvairada, de Mário de Andrade, também é obra sua. O autor de Macunaíma, assim como seus pares, tinha Almeida como referência poética. Numa dedicatória, escreveu: “A Guilherme de Almeida, este sim o maior poeta do Brasil”. Oswald de Andrade não foi menos generoso, “ao irmão de travessas travessias”. Para Manuel Bandeira, ele era o melhor artífice do verso: “Com mais fundamento ainda que Bilac, poderia dizer que imita o ourives quando escreve”.

Grande admirador da cultura japonesa, o poeta fundou a Aliança Brasil-Japão e foi precursor do haicai. “Ele sempre buscou a poesia concisa”, diz Tápia. O entusiasmo pela fórmula que contempla 5-7-5 sons levou-o a fazer a transposição para 5-7-5 sílabas poéticas. Introduziu uma rima entre o primeiro verso e o terceiro e uma rima interna no segundo. “O sistema que criou teve muita repercussão. Seu seguidor mais importante foi Pedro Xisto.”

Segundo Tápia, a obra de Almeida é subestimada. “Houve um juízo crítico muito repetido de que ele participou circunstancialmente do Modernismo e retornou às formas anteriores. É preciso uma revisão e temos cuidado disso”, diz o diretor da casa ligada à Secretaria de Estado da Cultura, administrada em parceria com a Poiesis, Organização Social de Cultura.

Em homenagem ao poeta, Tápia promove domingo um passeio sentimental por lugares que Almeida apreciava. O “encontro peripatético” inclui o Theatro Municipal, o Largo de São Francisco, a Praça da República e o Pátio do Colégio. A celebração termina com almoço (cassoulet com tutu de feijão) e brinde com o Coquetel Messidor (creme de uísque). O passeio parte da casa da colina, como Almeida referia-se à morada da Rua Macapá, onde viveu até a morte, em 1969, quando a metrópole tinha cerca de 6 milhões de habitantes. Ali, entre obras de arte e mobiliário, assoma a sensação de que a qualquer momento o poeta atravessará a sala e subirá as escadas rumo à mansarda e a seus paraísos interiores.