Você está aqui: Página Inicial / Revista / Charlie? O massacre em Paris e a crise de ideias / David Foster Wallace: o sentido do real
Número 833,

Cultura

Literatura

David Foster Wallace: o sentido do real

por Francisco Quinteiro Pires — publicado 25/01/2015 09h39, última modificação 25/01/2015 17h09
Como em sua ficção, o escritor norte-americano lutou contra a frieza pós-moderna
Marion Ettlinger
David F WallaceC Marion Ettlinger.jpg

O autor americano David Foster Wallace, cuja trajetória será abordada em filme

De Nova York

Depois de ler as 5 mil páginas dos cinco volumes da biografia de Fiodor Dostoievski escrita por Joseph Frank, David Foster Wallace redigiu um ensaio para avisar seus colegas contemporâneos da urgência do romancista russo nascido no século XIX. Segundo Wallace, “a grande coisa que torna Dostoievski inestimável para os leitores e escritores norte-americanos é que ele parece possuir graus de paixão, convicção e engajamento com dilemas morais profundos que nós – aqui, hoje – não podemos ou não nos permitimos...”, ele escreveu. “A biografia de Frank nos força a perguntar a nós mesmos por que exigimos de nossa arte uma distância irônica das convicções arraigadas ou das questões aflitivas, de modo que os escritores atuais devem ou fazer piadas com elas ou tentar camuflá-las sob algum truque formal.”

Em Graça Infinita, traduzido por Caetano W. Galindo, Wallace insistiu na necessidade de os escritores estabelecerem laços entre a vida e a literatura. “A ideia de que a escrita representa uma maneira de superar a solidão e os efeitos de um individualismo radical é um dos temas mais importantes da ficção de Wallace”, diz Lee Konstantinou, professor de Literatura da University of Maryland e editor de The Legacy of David Foster Wallace (University of Iowa Press). “Ele usa a literatura para o que poderia ser um último e desesperado esforço para nos fazer sentir algo ou acreditar em alguma coisa. A julgar pela sua fama meteórica, dá para afirmar que muitos leitores compartilharam as aspirações dele.” Seu segundo romance, publicado em 1996, Graça Infinita, iniciou a mitificação de Wallace nos Estados Unidos, um fenômeno que se exacerbou após ele se enforcar em 2008, aos 46 anos.

O nome de Wallace continua a exercer apelo comercial. Um dos produtos culturais mais recentes ligados ao autor é a produção do filme The End of The Tour, com estreia prevista neste ano. O longa-metragem baseia-se em uma reportagem de David Lipsky, que no best seller Although of Course You End Up Becoming Yourself (Broadway Books, 2010) relatou a experiência de acompanhar Wallace por cinco dias, enquanto o escritor realizava uma viagem para promover as vendas de Graça Infinita.

Autor da biografia Every Love Story Is a Ghost Story: A Life of David Foster Wallace (Viking, 2012), o jornalista D. T. Max atribuiu o suicídio à decisão repentina do escritor de cessar o consumo de um antidepressivo. De acordo com Max, Wallace desconfiara de que o remédio embotava os seus pensamentos e emoções. Ele trabalhava havia quase dez anos em um novo romance, The Pale King (cuja tradução está a cargo de Galindo), e ficou cada vez mais ansioso com a incapacidade de finalizar a obra. A tendência de revisar seus manuscritos, presente em Graça Infinita, intensificou-se durante a redação do terceiro romance. “Wallace considerava a escrita uma luta complicada que levaria a dores e sofrimentos consideráveis”, diz Konstantinou.

Em The Pale King (Little, Brown & Co, 2011), uma obra inacabada que a Companhia das Letras deve editar no primeiro semestre de 2016, Wallace voltou a confrontar seu maior dilema. Ele queria apresentar ao público um livro que produzisse o que o ficcionista e amigo George Saunders declarou ser uma terceira via para a literatura norte-americana, dividida havia mais de quatro décadas entre os pós-modernos e os minimalistas. Para Saunders, autor do aclamado Dez de Dezembro (Companhia das Letras, 2013), os críticos trataram o pós-modernismo como uma desconstrução fria e intelectual dos artifícios da ficção e perceberam no minimalismo um retorno às raízes emocionais da literatura. Em conversas com Wallace, Saunders lembra-se de ambos mencionarem os problemas criados por essa dicotomia e de como ela tornou proibitivo o debate sobre “o sentido de uma ficção mais real”.

Wallace era um grande admirador dos pós-modernos. Diferentes resenhistas trataram The Broom of the System (Penguin, 1987), o primeiro romance, sem previsão de tradução brasileira, como uma homenagem às obras de Donald Barthelme (1931-1989), William Gaddis (1922-1998), Thomas Pynchon e Don DeLillo. Wallace admitiu, entretanto, que o pós-modernismo havia se transformado em um estilo canônico, repleto de armadilhas, das quais ele tentou escapar. E muitas vezes sem sucesso. “Wallace não resolveu da maneira que lhe seria satisfatória o desafio de escrever depois de Gaddis, Pynchon e DeLillo, e esse fato foi uma fonte de grande dor”, escreveu Samuel Cohen, professor da University of Missouri e um dos ensaístas de The Legacy of David Foster Wallace. “O ataque, ou pelo menos a resistência à hegemonia simbólica da literatura dominante, era, na opinião de Wallace, um projeto necessário”, diz Konstantinou. “Ele endossou a perspectiva de que a transformação da sensibilidade de um indivíduo podia promover a mudança de uma supremacia cultural.”

Diz o tradutor Caetano W. Galindo que Graça Infinita é um romance inovador o suficiente para não ser enquadrado como metaficção. “Wallace reage aos pós-modernistas. Ele afirma em um texto que o pós-modernismo é a festa que rola quando nossos pais saem de casa, a gente chama os amigos e passa uma noite bem louca. A geração de Wallace estava na situação de acordar, ver a casa toda vomitada e zoneada, e saber que ninguém vem arrumar. O problema de colocar aquilo em ordem era nosso, não uma imposição dos outros.”  No romance, definido por Galindo como “uma leitura muito aprofundada da vida da sociedade de consumo em fins do século XX”, Wallace usa frases longas, interrompe a narrativa com quase 400 notas de fim de texto e cria enredos múltiplos. As escolhas formais tornam desafiadora a definição do tema do romance que se passa no início do século XXI.

Grosso modo, o livro aborda as experiências de Hal Incandenza, um estudante prodigioso em termos intelectuais e esportivos, usuário contumaz de maconha e filho do suicida James Incandenza (físico e o diretor do filme experimental Graça Infinita, também conhecido como Entretenimento). Relata os problemas de Don Gately, um ladrão “viciado em narcóticos orais” e participante de encontros dos Alcoólicos Anônimos, e acompanha a luta entre os funcionários do governo e separatistas de Quebec pela posse de Graça Infinita, um filme tão sedutor que torna o espectador catatônico e, por isso, pode ser usado como arma terrorista. De acordo com Samuel Cohen, o segundo romance de Wallace trata implicitamente de três assuntos: o amadurecimento de um jovem artista, a história da ficção contemporânea e os rumos dos Estados Unidos.

Graça Infinita
Graça Infinita, de David Foster Wallace (Editora Companhia das Letras, 1.144 págs., R$ 111,90

Ao abordar os efeitos nocivos do entretenimento, como a distração e a alienação, Wallace “queria resgatar a possibilidade de exercer o poder de acreditar como uma capacidade mental que foi com o tempo negligenciada”, segundo Konstantinou. O escritor alertou para o fato de os indivíduos serem incapazes de se desembaraçar do relativismo intelectual e da ironia, um dos efeitos duradouros do pós-modernismo. “Ele desejava descobrir um ethos pós-irônico viável para a literatura norte-americana, uma refém da perspectiva cultural fomentada pelo anúncio do fim da História.” Wallace cultivou a convicção de que seria possível superar o cinismo, a tristeza e a solidão do mundo posterior à Guerra Fria apresentado por Francis Fukuyama no livro O Fim da História e o Último Homem (Rocco, 1992). O autor de Graça Infinita, diz Konstantinou, “não aceitava uma nova ordem mundial que escolheu o cálculo econômico e a hegemonia tecnológica no lugar da coragem, da imaginação e do idealismo”.