Número 833,

Cultura

Futebol

Fifa vs. Uefa

por Afonsinho publicado 21/01/2015 06h03, última modificação 09/06/2015 16h34
A relação entre as duas associações anda muito conturbada. Claro, há interesses demais em jogo
FABRICE COFFRINI / AFP
Fifa

As escolhas da Fifa serviram de termômetro entre as relações da entidade com a Uefa

A semana começou sob a expectativa da escolha dos melhores da temporada passada na Europa, mas as contratações do Palmeiras, aqui no Brasil, é que esquentaram o clima, a ponto de influenciar as temperaturas do verão e até o regime de chuvas que castiga São Paulo e, no entanto, não resolve a escassez de água.

A sacudida alviverde espanta por contrariar a onda recessiva dos clubes brasileiros, estes tateando às cegas sem saber o que fazer daqui para diante em meio a um quadro confuso de mudanças – que se fazem urgentes, mas ainda se mostram indefinidas. Mesmo não sendo palmeirense, vivo a sensação das grandes Academias do passado. O tempo vai dizer.

Meu interesse na escolha dos premiados foi exclusivamente o de farejar alguma pista de como andam as relações entre Fifa e Uefa. Na verdade, andam conturbadas. Os interesses em jogo são tantos que não alcanço uma análise abrangente.

Meu candidato para melhor jogador era o goleiro alemão Neuer. Pelas conquistas em seu clube, o Bayern, por ter se sagrado campeão mundial pela Alemanha, mas, principalmente, por protagonizar a novidade mais atual do futebol. A participação do goleiro nas jogadas de linha há tempo vem crescendo até com goleiros artilheiros. Neuer personifica essa revolução.

Os argumentos da crítica especializada são sólidos com o peso de seus “números”, mas não agradam minhas “fantasias” (fico no meu samba/ se quiser, pode ficar/), como aconselha Paulinho da Viola.

Messi não teve uma temporada grandiosa com a queda do Barcelona e mesmo sua participação na Copa-14; ele ter ficado em segundo também não me convenceu, embora no balanço geral seja meu preferido. Não deve sair do Barça a menos que os problemas sejam insuperáveis. Tem muito a dar em alegria aos apaixonados do clube e a nós, amantes do futebol-arte.

Mesmo tendo visto somente os “melhores lances” da premiação, chamou minha atenção a sigla FIF-Pro da Federação Internacional de Futebolistas Profissionais, que, salvo engano, deveria ser o órgão de representação dos jogadores europeus. Intrigante.

Participei da fundação da FAF-Pro, a Federação das Américas, num encontro em Montevidéu. Tem o objetivo de fortalecer a participação do jogador de futebol profissional aqui pelos nossos lados e atuar em conjunto com a organização europeia. Não sei que rumo tomaram essas associações, vamos saber.

O presidente atual da Fifa deu um drible no congresso da entidade após a Copa do Mundo, ao lançar sua candidatura à reeleição e, assim, tendo acordo que abriria caminho a Platini, da Uefa. O francês ficou irado, mas teve de enfiar a viola no saco.

Agora, decorrida a crise deflagrada pelo representante norte-americano, ao exigir e conseguir a publicação de seu relatório como membro da comissão que apurou as irregularidades da escolha de Dubai, as pedras mexeram-se no tabuleiro da política do futebol mundial. Os alemães, com domínio técnico do futebol neste momento, jogam duro também com a Fifa.

A movimentação das contratações mundo afora sinalizam o avanço dos chineses em direção aos países da primeira linha do futebol. Como não têm resultados expressivos dentro de campo, não despertam atenção, mas quando chegarem mais perto os chineses virão com a força dos seus mais de 1 bilhão de habitantes.

O que mais me chamou atenção por ocasião da proximidade da Copa do Mundo foi a anteposição da Liga dos Campeões e outras disputas da Europa com o Mundial de Seleções. O calendário espremido dos clubes com a variedade de disputas e o volume financeiro envolvido nelas leva os jogadores a chegar esfalfados, emendando uma coisa na outra, muitas vezes sem férias ou mesmo um tempo para recuperação. Isso fica claro se compararmos o prazo de preparação cada vez mais escasso das seleções que disputam os Mundiais. As Copas do Mundo correm risco num prazo mais largo.

Ao acompanhar as manifestações de leitores de artigo em rede, deparo, impressionado, com a opinião lúcida de Stan Neto: “Não dá para deixar o futebol, paixão nacional, na mão de pessoas que podem criar suas próprias regras de monopólio e perpetuação de poder”.

“Essas pessoas não me representam”, continua ele. “O Brasil precisa de leis que democratizem as transmissões de futebol, que democratizem a escolha de quem vai dirigir as federações e os clubes. Que fiscalizem aqueles que vivem da usurpação da fé e da paixão do povo... mas até lá já teremos por aqui mais torcedores de times europeus do que de clubes brasileiros. Parabéns, CBF, Globo, vocês estão conseguindo destruir toda a magia que a paixão do povo construiu.”

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