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Número 832,

Cultura

Análise/Afonsinho

Em frente

por Afonsinho publicado 17/01/2015 06h53, última modificação 09/06/2015 16h40
Ensanduichado entre a Copa-14 e a Olimpíada, o ano de 2015 sugere olho de águia na pilantragem
Alex Ferro/ Rio 2016
Olimpíada

Evento teste para os Jogos Olímpicos de 2016 que ocorrerão no Rio de Janeiro

Ano novo, vida nova? De ilusão também se vive; pelo menos para começar, otimismo.

Vamos saudar a nova temporada, louvando os feitos mais recentes do jovem surfista Medina, com a conquista tão batalhada pela juventude brasileira do mar, e da mulher brasileira nos campos de futebol do mundo, primeiro pelo Mundial Feminino de Clubes, com a vitória do São José dos Campos no Japão, e, depois, de maneira categórica pela nossa Seleção, no Torneio Internacional de Brasília, derrotando a campeoníssima seleção dos EUA.
Foi um jogo sensacional com todos os requisitos de futebol em grande nível, vibração, técnica e maturidade emocional para ganhar, de virada, a final sobre as americanas. Parabéns!

Melhor passar este ano, ensanduichado entre a Copa-14 e a Olimpíada-16, colhendo os melhores frutos do caminho e preparando com cuidado as disputas poliesportivas do ano que vem. Chega de acabamentos atropelados.

No futebol, um ano para acompanhar com olho de águia os movimentos dos organismos mais poderosos que regem o esporte mais popular do mundo – e os chefes caboclos tentando suas maracutaias tradicionais. Cautela e canja de galinha. Ao apagar das luzes do ano findo (adeus!), um deputado pilantra desses aí tentou um golpe que pelo menos serviu para escancarar e não se deixar esquecer como pensam e atuam os cartolões abjetos. O safado queria imiscuir na Lei de Responsabilidade Fiscal simplesmente a extinção das dívidas acumuladas pelos clubes nesses anos todos de cafajestagens. Atenção a essas emboscadas; vamos nos obrigar a exercitar a paciência de monge tibetano.

O momento político gerado pelas últimas eleições deixou-nos nessas circunstâncias. As lideranças esportivas mais consequentes expuseram seu desapontamento com a parte que nos tocou (e a outros) na composição do novo ministério. Duro encarar mais uma vez o papel de “raspa de tacho” reservado ao esporte, ainda que tenha se tornado um dos maiores negócios da sociedade moderna.

No frigir dos ovos, o conjunto da obra acabou de bom tamanho, setores fundamentais estão bem representados. Vamos à luta mais uma vez. Da minha parte estou calejado. Há décadas, numa situação semelhante, ensaiei uns versos de pé- -quebrado invocando ídolos de imensa admiração, que até no corte de cabelo eram semelhantes (Prestes, Niemeyer e João Saldanha). Como homem do esporte, já me sentia o enjeitado “patinho feio” da sociedade. Dizia: “Lembre-se de nós em suas orações. Nada que signifique conformismo, ao contrário, há motivação maior, o esporte cresce de importância no conjunto das relações humanas”.

Começa a temporada com as mesmas trapalhadas do calendário anterior, uns clubes apresentam-se antes, quebrando o princípio da igualdade de condições, outros interrompem as pré-temporadas para amistosos caça-níqueis. As mudanças prometidas no calendário – espremido do ano passado com a desculpa da realização da Copa do Mundo – vão sendo deixadas de lado. Há mudanças impossíveis de serem adiadas, mas que vão sendo proteladas naquela tradição “lenta e gradual” de tentar não mudar nada. Embromação.

Baixam-se os salários irreais de jogadores, dos técnicos e agora dos executivos, chamados de diretores para enganar a quem? Outra demonstração de menosprezo à inteligência do torcedor. Aguarda-se a tomada de posição das representações dos jogadores e outros setores interessados. Não adianta insistir com o que está aí, perder um tempo de que não dispomos. Mudanças já!

Algumas manifestações deixam clara a situação. O Palmeiras apresenta uma promessa de reconhecido talento. A nova direção do Santos confessa-se falida; cai por terra a esperança no clube que mais ganhou dinheiro com o melhor trabalho de base do Brasil. Declaração da revelação Geuvânio: “O futebol europeu é mais toque de bola; o brasileiro, mais lançamento e correria”. Pobre futebol brasileirinho, confunde chutão com lançamento.

Bom exemplo de avanço é o Fluminense, que, além da internacionalização do seu nome, como também faz o Corinthians, esforça-se para reter o valor dos garotos trabalhados na sua base, além de desvencilhar-se da dependência dos chamados patrocinadores. Aí reside a questão principal: a revalorização dos clubes, que não podem ser menos poderosos que seus financiadores, por mais que eles possam fortalecer suas bandeiras.

Mas aos torcedores, sem participação na vida política de seus clubes, só interessa ganhar, não importa de onde venham os recursos que vão fazer possíveis suas duvidosas vitórias.