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Número 832,

Economia

Análise/Thomaz Wood Jr.

Acertos e erros

por Thomaz Wood Jr. publicado 16/01/2015 08h54, última modificação 16/06/2015 17h30
Diretores das melhores escolas de administração do mundo revelam o que os programas de formação de gestores têm de melhor e de pior
Luiz Gustavo Leme/Flickr
Gestão

A pesquisa foi norteada por duas questões: o que a educação em gestão tem de pior e melhor

Em 2014, o jornal inglês Financial Times realizou uma pesquisa com 72 diretores das principais escolas de administração do mundo. A opinião do seleto grupo importa, porque suas instituições formam anualmente milhares de futuros líderes, profissionais cujas decisões influenciarão a vida de milhões de empregados, clientes e acionistas, e poderão gerar impactos sobre comunidades e países.

Foram ouvidos 62 homens e 10 mulheres, quase todos na faixa de 50 a 60 anos de idade. Há predominância de instituições norte-americanas, porém com presença significativa de escolas europeias e o despontar de algumas instituições asiáticas. O mapa do Financial Times não registrou escolas africanas ou latino-americanas.

Duas questões nortearam a pesquisa: o que a educação em gestão tem de melhor e o que tem de pior. Todos responderam à primeira pergunta. Alguns escaparam da segunda. Certas respostas são pueris, outras revelam visão crítica. Emergem alguns consensos.

Os diretores consideram seus cursos como motores para a transformação da sociedade e construção de um mundo mais próspero e justo. Os cursos incentivam a criatividade, fomentam comportamentos éticos e estimulam a noção de responsabilidade social. Os diretores também creem que o management é uma caixa valiosa de ferramentas que provê soluções para problemas reais das empresas, das organizações e da sociedade.

O grupo aponta também o efeito positivo dos cursos sobre os estudantes, considerando-os como uma experiência transformadora, capaz de transmutar sapos em príncipes. Os programas proporcionam uma visão complexa do mundo e das empresas, desenvolvem o raciocínio analítico e a capacidade de tomar decisões. Além disso, tornam os estudantes mais conscientes de seu potencial e de suas possibilidades. Com isso, abrem-se novas possibilidades profissionais.

Alguns diretores ainda assinalaram que o melhor dos programas vem da interação de professores e estudantes em torno de uma agenda contemporânea que os desafia a encontrar soluções para questões prementes. Tais questões referem-se a temas relacionados à competição e à geração de valor para as empresas. No entanto, consideram cada vez mais temas de alcance social, ligados ao impacto econômico, ambiental e social dos negócios sobre a sociedade.

A maioria dos respondentes não se furtou a responder a questão sobre o lado escuro dos programas de formação em gestão. Aqui, o discurso politicamente correto deu lugar para a reflexão crítica. Afinal, não foram poucos os casos de ex-estudantes envolvidos com escândalos financeiros. E até George Bush fez MBA!

Alguns diretores de escolas reconhecem que os programas frequentemente oferecem fórmulas simplistas para resolver problemas complexos. Além disso, estimulam os estudantes a ver a busca dos lucros como um fim em si próprio, sem atentar para os impactos de suas ações sobre os funcionários, os clientes e a sociedade. Outro aspecto mencionado foi a promoção de uma visão utilitarista, fundada em leituras apressadas de princípios de racionalidade econômica, que levam os futuros profissionais a buscar ganhos em curto prazo nas empresas, sem considerar as consequências a longo prazo.

Segundo os entrevistados, muitos professores parecem mais interessados em suas carreiras de pesquisadores de temas herméticos do que em ajudar a buscar soluções para problemas reais. Muitas instituições ainda se comportam como torres de marfim, distantes e desdenhosas da vida corporativa. Orientam sua pesquisa para assuntos exóticos, ao gosto dos editores de prestigiosas revistas científicas, porém sem considerar a possibilidade de usar o conhecimento gerado para transformação da realidade.

Os diretores também criticaram o comportamento de alguns professores que se tornam empresários de si mesmos, escrevendo livros de autoajuda para se promoverem como gurus e consultores. Um entrevistado referiu-se explicitamente à grande quantidade de lixo sendo promovida como inovação.

Finalmente, um número significativo de entrevistados registrou que o modelo dominante de formação de gestores – os programas de MBA – constitui uma criação norte-americana, notavelmente bem-sucedida, porém criada para um mundo que não existe mais. Segundo eles, é preciso coragem e criatividade para inventar novos modelos, adequados aos novos tempos.