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Número 831,

Cultura

Cinema

Rodolfo Nanni, sem lamentação

por Orlando Margarido — publicado 01/01/2015 09h52
Aos 90 anos, o diretor descreve em livro uma vida de realizações e anuncia novo filme
Toni Pires
Nanni

Primo de Brecheret, Nanni trocou a pintura pelo cinema. Em sua casa, o retrato de Tereza Nicolau

Raras são as trajetórias em que há pouco a lamentar sobre o não realizado. No caso de Rodolfo Nanni, a queixa surge eventual e parece retórica, como quando pensa alto sobre o motivo de ter parado de pintar. A cada reavaliação cabem empreitadas significativas à história do cinema brasileiro, a exemplo do clássico infantil O Saci, e experiências definidoras, como a de conviver com artistas em ascensão e conhecer cineastas como Roberto Rossellini e o roteirista Sergio Amidei. Ao trocar as palhetas pela câmera, o realizador protagonizou curiosa passagem determinada em parte pelo universo de formação.

Na trajetória entram aspectos nem sempre públicos sobre esse primo de Victor Brecheret que menino viu o artista em atividade e ao se aventurar em Paris descobriu a outra vocação. Foi para expor e rever as passagens profissionais que Nanni escreveu Quase um Século – Imagens da memória, edição própria. O conceito memorialístico reflete a capacidade prodigiosa de lembrança para os recém-completados 90 anos. A ponto de em meio a tantos personagens e fatos optar por não citar todos os projetos inconclusos. “Ficaria uma obra de lamentação. A ideia é ordenar e refletir sobre tantas conquistas, uma vida que se fez com grandes amigos e personalidades.”

Essa vida começa com a família de origem italiana estabelecida a partir de um pequeno comércio de secos e molhados em São Paulo. No quintal dos Nanni, o primo escultor chegado de Paris ganhou um estúdio e ali criou o modelo para o Monumento às Bandeiras. Um dos desbravadores, atrás da canoa, foi inspirado no garoto que testemunhava o nascimento da obra. Em outra vertente, a frequência no casarão incluía modernistas como Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti Del Picchia e Gregori Warchavchik. Ainda na adolescência, sua primeira professora de desenho seria Anita Malfatti.

Procurou Portinari no Rio de Janeiro e foi aconselhado a estudar com Axl Leskoschek. No ateliê do austríaco conheceu a pintora Tereza Nicolau, sua primeira mulher, sem contudo escapar da perseguição do pai da moça. Ela foi enviada a Paris e não lhe restou alternativa senão rumar para lá e casar com ela.

Na nova perspectiva parisiense, as alternativas se alargavam. Enquanto a pintura amadurecia para um estilo figurativo de planos geométricos, sensível o suficiente para chegar a um Pancetti, segundo Maria Alice Milliet, ele prezava das relações com Mário Gruber e Carlos Scliar, entre outros compatriotas. Mas um curso no Instituto de Altos Estudos Cinematográficos o seduziu e as aulas se deram com o cineasta René Clair e o historiador Georges Sadoul. Pincel aposentado, voltou ao Brasil pronto para a primeira incursão no cinema. A estreia trouxe desapontamento. Aglaia, direção de Ruy Santos, para o qual faria assistência, não foi finalizado e deixou a lembrança de um ator de 14 anos, Fernando Torres.

O capítulo que descreve as aventuras para filmar O Saci é um dos mais saborosos. Iniciativa de um editor de livros de Monteiro Lobato, o filme resulta de reunião de técnicos profissionais, caso do fotógrafo Ruy Santos e do diretor Alex Viany, produtor, e da estreia de Nelson Pereira dos Santos como assistente de direção. Cláudio Santoro compôs a trilha. Amigos e parentes colaboraram. O pintor Otávio Araújo fez Tio Barnabé e o sobrinho Lívio, Pedrinho. Quando a situação financeira apertou, o irmão Hugo trouxe um aporte salvador.

A repercussão internacional de O Saci levou Nanni de volta à Europa. No Festival de Veneza, o filme teve exibição elogiada. Em uma das viagens o diretor conheceu Lucia Bosé e a visitou no set de Abandonada, estreia de Francesco Maselli. Relembra a cena quando chega à casa da atriz e a vê “deitada em enorme cama antiga, sob vasta manta de vicunha, a figura rósea sobressaía, recostada numa cabeceira pintada com uma paisagem veneziana do Settecento”.

Se filmou pouco, as possibilidades de projetos não concretizados puseram-no em contato com nomes de intensa troca intelectual. Uma dessas investidas o aproximou de Rossellini por meio dos roteiristas Sergio Amidei e Cesare Zavattini. Os esforços eram para adaptar o clássico Geopolítica da Fome, de Josué de Castro, que trouxe o cineasta italiano ao Brasil. Em vão, pois a investida não saiu do papel. Em vez disso, voltou-se a uma ideia original de um filme de episódios e Nanni assina O Drama das Secas, em 1959.

Sucedem-se frustrações. É acolhido por Alberto Cavalcanti na Vera Cruz, mas o diretor dos estúdios, Franco Zampari, veta projetos por se declarar desinteressado em filmes infantis. “Fiquei marcado por O Saci, mas era uma exceção na minha ideia de cinema. Escolhi fazer filmes porque acreditava poder contribuir com a sociedade.” O realizador persevera. Em 1971, adapta a peça Cordélia Brasil, de Antonio Bivar. Cordélia, Cordélia... traz Lilian Lemmertz como protagonista e ganha prêmios no Festival de Brasília. Nanni se casa com a musicista Anna Maria Kiefer, sua companheira até hoje.

O diretor sabe integrar uma alta estirpe em atividade. Contribuiu com o Cinema Novo e há relações com o movimento além da tela. É elegante e tem a fala mansa como Nelson Pereira dos Santos, antigo assistente, e o interesse pelo Brasil de Cacá Diegues. Junta-se ao trio Roberto Farias. “Os três, e modestamente me incluo como o quarto, não precisariam ficar atrás de financiamento público para fazer um filme. É uma vergonha.” Ele refere-se a Cidade Ilimitada, sua visão da São Paulo atual que quer filmar. Tem denúncia, contrastes, charme e mulheres bonitas. O dinheiro não vem, mas não quer se lamentar. Pede apenas respeito.

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